
É comum ouvir no Rio Grande do Sul que gaúcho verdadeiro é aquele que sempre acha um tempinho no dia para aproveitar uma boa cuia de chimarrão. Porém, esse hábito típico do Sul talvez tenha que sofrer modificações no futuro, pois a erva-mate (Ilex paraguariensis), planta de cujas folhas se faz o mate, está sendo produzida, muitas vezes, em ambientes que não são os ideais para a espécie se desenvolver corretamente.
A erva-mate se desenvolve melhor em ambientes sombreados no próprio ecossistema onde ocorre naturalmente. A produção em áreas abertas, com excesso de sol, diminui a qualidade da erva-mate, segundo especialistas.
A espécie, também conhecida como mate ou congonha, é uma árvore nativa da floresta com araucárias, ecossistema associado ao Bioma Mata Atlântica e que possui menos de 3% da sua cobertura original, estando praticamente extinto. Dessa forma, a continuidade das populações nativas da planta no seu habitat natural fica comprometida, bem como a produção sombreada da erva-mate em seu habitat natural.
A espécie tem ligação muito forte com a araucária porque o pinheiro a protege do sol excessivo que prejudica a planta quando jovem. Em condições adequadas, no interior da floresta, a erva-mate pode atingir até 25 metros de altura na fase adulta. Já em áreas de cultivo, ela varia entre três a quatro metros, por conta das constantes podas.
No Rio Grande do Sul, a Floresta com Araucárias chegou a abranger 25% do estado, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. A araucária (Araucaria angustifolia), também conhecida como pinheiro-do-paraná e pinheiro-brasileiro, está ‘criticamente ameaçada’ segundo a Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas de Extinção da União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais da IUCN.
Alvo principal da indústria madeireira que se desenvolveu no Sul, no início do século XX, estima-se que mais de 100 milhões de pinheiros tenham sido cortados, conforme dados do MMA.
Importância econômica da floresta
A erva-mate possui grande relevância econômica. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2012, a produção da planta no Rio Grande do Sul gerou mais de R$12 milhões para o estado. Esse valor representa um crescimento de quase 12% em relação a 2011. Apesar disso, para garantir a qualidade da produção é preciso agir na cadeia produtiva da erva-mate para que ela seja mais responsável, com menos impacto para a Floresta com Araucárias – ecossistema da qual a qualidade da produção depende.
Este é um dos objetivos do Araucária+, iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e da CERTI – Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras, de Santa Catarina. O Araucária+ foi concebido para reduzir o impacto da produção de erva-mate e do extrativismo de pinhão (semente da araucária) na Floresta com Araucárias, viabilizar a conservação de áreas naturais não manejadas e estimular a inovação em produtos e processos relacionados. Para atingir esses objetivos, a iniciativa busca conscientizar produtores sobre a importância da conservação do ecossistema.
“Atuamos em conjunto com empresas do setor para agregar valor a esses produtos, investir em novos usos para a erva-mate e o pinhão, bem como estabelecer melhores métodos de coleta e produção, aliados à conservação”, afirma a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, Malu Nunes.
A conservação de remanescentes de Floresta com Araucárias representa uma alternativa viável para a própria produção sombreada da erva-mate. Especialistas do setor ervateiro consultados pelo Araucária+ indicaram que a qualidade da erva produzida em ervais sombreados é maior, com folhas maiores que implicam em melhor aproveitamento e gosto mais suave do chá extraído.
Serviços ambientais
A floresta também oferece condições ideais para a manutenção da qualidade da planta, como menor suscetibilidade a doenças e pragas. Essa alternativa, porém, deve ser realizada com o manejo adequado, evitando colheitas muito intensas ou frequentes e garantindo o menor impacto para outras espécies.
Além disso, torna-se viável economicamente realizar a produção em áreas nativas com elevada concentração natural da espécie, com possibilidade de plantá-las nos clarões naturais da mata. Nesses casos, há menos erveiras do que nos ervais plantados sob o sol, mas as plantas sombreadas compensam com maior produtividade e qualidade.
O aproveitamento da floresta para a produção sombreada contribui para evitar a conversão de outros remanescentes florestais em áreas agricultáveis. No Brasil, quase a totalidade da erva-mate produzida é sombreada, porém com o avanço da degradação da Floresta com Araucárias, a produção da planta em áreas abertas pode a aumentar nos próximos anos.
A floresta também fornece diversos serviços ambientais para a produção da erva-mate, como o controle de pragas e a quantidade ideal de nutrientes no solo, sem a necessidade nem custo de adubá-lo.
Da mesma forma, a água ofertada na medida adequada, sem ser preciso irrigar faz com que o processo de produção da erva-mate seja muito mais natural, sem artificializá-lo, e oferecendo um produto com maior valor agregado e muito melhor do que o produzido em campos abertos.

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