
Foto: ETA com tratamento através de membranas.
Há mais de dois meses os portoalegrenses estão consumindo uma água com gosto e cheiro de algas. É impossível fazer café, cozinhar ou tomar o chimarrão, hábito tradicional dos gaúchos. Além disso a conta da água ficou salgada nos últimos dois meses pela necessidade de adquirir água mineral para beber e cozinhar. Por uma bombona de 10 litros que cobre as necessidades mínimas diárias (beber água, fazer café, cozinhar e tomar chimarrão) é preciso desembolsar em torno de R$ 5,00 o que no final do mês soma R$ 150,00, quase 1/4 do salário mínimo regional.
A explicação dada pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) é de que a água pode ser consumida normalmente pois está sanitariamente tratada. Mas quem consegue tomar café, chimarão ou comer arroz com cheiro e gosto ruim?
As condições atmosféricas ideais para a proliferação das algas – calor, insolação e pouca chuva (o que provoca a baixa vazão no Lago Guaíba) – aliadas aos despejos de esgotos sem tratamento, oriundos das canalizações pluviais da própria capital e das cidades da região metropolitana, castigam os portoalegrense há anos.
É certo que o DMAE está fazendo um investimento alto em canalizações e estações de tratamento de esgoto – já com muito atraso – pois é inconcebível uma cidade como Porto Alegre, que se jacta de proporcionar a seus moradores a melhor qualidade de vida do país, ter somente 27% dos esgotos coletados e tratados em pleno ano 12 do século XXI.
Mas esperar pelo tratamento de esgoto pode demorar muito mais do que o previsto. Sabe-se que além de serem obras demoradas e complexas os sistemas de coleta e tratamento de esgoto somente terão sua eficiência garantida se 100% dos moradores das ruas por onde passa a canalização fizerem a ligação de suas casas às redes coletoras. E isto está longe de ser atingido na maioria dos países em desenvolvimento.
Enquanto isto, o tratamento da água de Porto Alegre continua com a mesma tecnologia dos anos 1950 e 1960 quando a maioria das Estações de Tratamento de Água (ETAs) foram construídas. Quando muito se adota a adição de carvão ativado que não tem o efeito desejado de neutralizar o odor e o sabor das algas mortas que costumam deixar o lago Guaíba – manancial de onde é captada a água – com a coloração esverdeada.
No entanto já existem tecnologias desenvolvidas e disponíveis que poderiam sanar este problema. Um exemplo de sistema moderno de tratamento de água, segundo os professores Maria Lúcia Ribeiro e Sérgio João de Lucas, no trabalho Tratamento de Águas por Filtração por Membranas. Estado da Arte apresentado no Congreso Interamericano de Ingeniería Sanitaria y Ambiental, em Lima (Peru), de 1º a 5 de novembro de 1998, “somente uma combinação de tratamento como oxidação + coagulação + adição de carvão ativado pulverizado + microfiltração torna possível a remoção de diferentes compostos orgânicos em uma água superficial (matéria orgânica natural, micropoluentes, precursores de trihalometanos, compostos causadores de odor e sabor) e pode produzir uma água tratada cumprindo os padrões de potabilidade, fornecendo um eficiente processo de desinfecção final”.
Hoje na Comunidade Europeia está sendo banido o uso do cloro para desinfecção das águas de abastecimento. Uma moderna estação de tratamento usando a tecnologia de membranas, por exemplo, dá aos parisienses uma água com a qualidade desejada e que atende às novas diretivas. Outros países tem adotado também o uso do ozônio e do ultravioleta com grande eficiência.
No caso de Porto Alegre e das demais cidades brasileiras continua sendo usado o cloro no tratamento convencional, gera-se um passivo ambiental considerável com a produção de lodo impregnado de sulfato de alumínio e a água pode apresentar gosto e odor, como acontece em todos os verões no Rio Grande do Sul.
ONU-Agua considera investimento do Brasil insuficiente
O fluxo de investimento voltado para a implantação de um serviço adequado de saneamento no Brasil é insuficiente para atender às necessidades do setor, considerando a meta de reduzir pela metade, até 2015, como prevê o 7º Objetivo de Desenvolvimento do Milênio (ODM), a proporção da população sem acesso permanente a esgotamento sanitário. Os recursos disponíveis cobrem apenas entre 50 e 75% do necessário.
A informação é do relatório ONU Água 2012 – Análise e Avaliação Global do Saneamento e Água Potável (GLAAS). O relatório GLAAS apresenta dados recebidos de 74 países em desenvolvimento e cobre 90% do total das verbas oficiais de assistência ao desenvolvimento no mundo. Esta foi a primeira vez que o Brasil participou da avaliação, coordenada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Na avaliação das políticas de fornecimento de água potável, a maioria dos dados brasileiros são positivos. Entre 91% a 100% da população têm acesso a água potável, existem programas para as áreas rural e urbana e o fluxo financeiro garante 75% ou mais do que é necessário para o abastecimento.
Já no esgotamento sanitário, o país aparece com 76% e 90% da população tendo acesso a instalações sanitárias beneficiadas, embora isto possa ser entendido desde sistema completo até fossas sépticas. O relatório chama atenção para a falta de metas referendadas por pesquisas, principalmente em programas de promoção da higiene. O GLAAS afirma que programas nacionais de mudança de comportamento não estão suficientemente informados por meio de avaliações de atitudes locais e são frequentemente limitados a uma pequena escala de implementação. Entre os países da América Latina e Caribe, apenas a Bolívia afirmou realizar consultas sistematicamente nas áreas rurais e urbanas.
Ainda em 2012 a ONU-Água planeja lançar o Relatório sobre Abordagens Integradas para o Desenvolvimento, Gestão e Uso de Recursos Hídricos, para orientar os debates da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20).
A ONU-Água é um mecanismo fundado em 2003 para a coordenação das agências das Nações Unidas em torno dos problemas relacionados a água doce no mundo.
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