Os pioneiros já não produzem mais LIXO

Manfred Fehr.

A engenharia sanitária continua prosperando parcialmente pela construção e manutenção de aterros. Mesmo em pleno século 21 a praxe é cada município operar seu aterro e todos os resíduos serem depositados lá. A coleta seletiva é incipiente, não consegue captar mais de 10% dos resíduos, mas se apresenta como o ovo de Colombo do problema. As estatísticas de coleta indicam que em mais de 80% dos municípios mineiros não há aterro sanitário e a disposição dos resíduos é inadequada (1). A lógica tecnológica e administrativa prevalecente dita que é necessário transformar mais lixões em aterros ou construir mais aterros indefinidamente.

Diante dessa situação a pesquisa aqui descrita experimentou com um novo enfoque para fugir da rotina tecnológica e administrativa. Desenvolveu e ilustrou meios de manejo dos resíduos domiciliares que dispensam o aterro como destino.

Objetivos

Analisar os resíduos domiciliares e estabelecer uma relação entre sua composição in natura e depois de separados na fonte. Trabalhar em comunidades cobaias com testes de separação na fonte. Alcançar a situação “lixo zero” em comunidades pioneiras.

Metodologia

Um condomínio de 48 apartamentos foi adotado como cobaia pela equipe de pesquisa em 1996 para testar novas idéias de manejo de resíduos. Os conhecimentos iniciais da equipe eram modestos, mas a comunidade cobaia proporcionou excelentes meios de aprendizagem. Nos 15 anos corridos a equipe aprendeu a montar a infra-estrutura de logística reversa, a trabalhar com pessoas por contatos diretos e contínuos, a descobrir destinos úteis para todos os resíduos produzidos e a apreciar a relevância de diferentes relatórios de composição. O gradual avanço do sistema gerencial e os sucessos parciais eram divulgados regularmente para compor o acervo da pesquisa.

Resultados

A experiência ao longo dos anos produziu dois tipos de resultados:

1) a contagem numérica do desvio de resíduos do aterro e

2) o avanço da aprendizagem em termos de gestão.

A respeito do desvio, a evolução foi a seguinte. Em 1997, quando foi feita a primeira análise quantitativa dos resíduos, o desvio era zero. Todos os resíduos eram transformados em lixo nos apartamentos e levados ao aterro. Era o paradigma vigente na época. Com a progressiva implantação da infra-estrutura logística e o constante contato com as pessoas, as famílias começaram a apresentar os resíduos separadamente e a reciclagem iniciou. Em 2007 o desvio do aterro atingiu 67%, o que na época foi considerado o patamar máximo possível (2).

Desde então, algumas famílias pioneiras encararam o desafio de aproveitar toda a infra-estrutura montada e elevaram por conta própria o patamar de desvio. Hoje, em 2011, essas famílias chegaram a 100% de desvio e servem de exemplo aos demais moradores. Com esse resultado atingiu-se o alvo mais ousado que se podia imaginar no começo 15 anos atrás.

Quais foram os requisitos para possibilitar tal resultado?

1 Uma rede de operadores da logística reversa para escoar os resíduos separados.

2 Uma infraestrutura física satisfatória para coleta interna.

3 Instruções claras aos moradores que não deixam graus de liberdade abertos.

4 Funcionários treinados.

5 Supervisão constante pela administração.

Qual é a composição típica dos resíduos separados na fonte pelas famílias pioneiras?

1 Matéria biodegradável 62% (destino alimentação animal em fazendas)

2 Embalagens secas recicláveis 29% (destino sucateiros)

3 Resíduos de serviços de saúde e lâmpadas usadas 6% (destino empresas

especializadas em descontaminação)

4 Refugo 3% (destino combustível em fornos a lenha).

O avanço da aprendizagem pode ser descrito como segue. O desvio do aterro é um empreendimento de longo prazo. Os moradores, independentemente de seu grau de instrução, encontram dificuldade em assimilar novos modelos de pensar. A mudança de hábitos ocorre devagar e a adesão nunca é total. A nomenclatura tinha de ser ajustada e explicada para ajudar na compreensão do problema. Fez-se uma distinção entre resíduo e lixo. Resíduo é todo material, biodegradável ou não, descartado separadamente em seu estado puro. Esse material pode então ser reciclado. Lixo é o produto da mistura de vários resíduos que não mais pode ser reciclado.

Há duas maneiras de apresentar os relatórios de análise dos resíduos. A primeira consiste em retirar amostras do lixo in natura e relatar sua composição por substância ou por utilidade. A segunda maneira consiste em analisar os resíduos separados na fonte e agrupá-los por utilidade ou destino.

O desvio total do aterro ocorre quando o segundo relatório reproduz a composição do primeiro, porque então todos os componentes originais poderão ser encaminhados aos seus destinos e não mais ao aterro. No caso desta pesquisa, a reprodução levou 14 anos para ser conseguida.

Etapas

A idéia de dispensar aterros e frotas de coleta de lixo na cidade pareceu utópica há 15 anos e continua a assustar a maioria da população. Esta pesquisa destruiu tal paradigma. Desenvolveu-se a infraestrutura para o desvio completo e produziram-se precedentes de apartamentos sem lixo.

A infraestrutura e a logística reversa foram montadas pela equipe de pesquisa e pela administração do condomínio, sem necessidade de intervenção da administração pública. As taxas de produção dos diversos resíduos são suficientes para atrair os operadores da logística reversa. A constante dedicação dos administradores ao longo do tempo foi o fator basilar do sucesso.

Conclusão

A pesquisa estabeleceu um precedente de famílias morando em apartamentos sem produzir lixo. A separação na fonte foi levada ao extremo de não sobrar nada a ser aterrado.

O precedente está disponível para inspeção e imitação. Uma cidade sem caminhões de coleta e sem aterro aponta no horizonte.

Agradecimentos

O CNPq apoiou esta pesquisa ao longo dos anos na forma de sucessivos projetos.

Autor

Manfred Fehr é professor da UFU e pesquisador do CNPq na área de Ciências Ambientais.

manfred@manfredfehr.com.br.

Referências

(1) Ferreira, T.L. 2011, IQR: Análise do órgão ambiental de Minas Gerais para o aterro sanitário de Monte Carmelo, Revista Vértice CREA-MG No 6 pp. 14-15.

(2) Fehr, M. et al 2010, Condominium waste management by private initiative: a report of a ten-year project in Brazil, Waste Management & Research, The official journal of ISWA, Vienna AT, vol. 28 no. 4 pp. 309-314 ISSN 0734 242X.

http://dx.doi.org.

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