
Nairobi, 3 de junho de 2010. Segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA), a recuperação dos ecossistemas deteriorados ou perdidos — desde bosques e sistemas de água doce até manguezais e áreas úmidas — pode produzir rendimentos multimilionários, gerar empregos e combater a pobreza.
O informe, apresentado na véspera do Dia Mundial do Meio Ambiente, se baseia em milhares de projetos para restaurar os ecossistemas de todo o mundo e mostra mais de 30 iniciativas que estão transformando a vida de comunidades e países.
No informe, intitulado Planeta morto, planeta vivo – Diversidade biológica e restauração de ecossistemas para o desenvolvimento sustentável, se destaca que, longe de ser um imposto ao crescimento e ao desenvolvimento, muitos investimentos ambientais em bens naturais degradados podem gerar rendimentos substanciais.
Entre eles cabe mencionar a restauração dos caudais de água para os rios e lagos, a melhoria da estabilidade e fertilidade dos solos, que são fundamentais para a agricultura, e a luta contra as mudanças climáticas por meio do seqüestro e armazenamento do carbono da atmosfera.
No informe se insiste em que a manutenção e gestão dos ecossistemas intactos deve ser a prioridade fundamental. Entretanto, já que mais de 60% desses ecossistemas — desde as marismas e os recifes de coral aos bosques tropicais e os solos — se encontram degradados, é preciso que a restauração adquira agora o mesmo nível de prioridade.
A reparação e reabilitação dos ecossistemas também gera empregos em um mundo onde vivem 1,3 bilhão de pessoas desempregadas ou subempregadas, ao mesmo tempo que apoia os objetivos internacionais de reduzir substancialmente o ritmo de perda da diversidade biológica, tema chave para 2010.
São apresentadas provas de que, mediante programas bem planejados, com base científica e com o apoio da comunidade, pode-se recuperar entre 25 e 44% dos serviços originais junto com os animais, as plantas e outras formas de diversidade biológica do sistema antes preservado. O informe menciona casos de recuperações, em geral bem-intencionadas, que resultaram contraproducentes, o que ressalta a importância de executar os projetos com muito cuidado e planejamento.
Achim Steiner, secretário-geral Adjunto da ONU e Diretor Executivo do PNUMA, declarou que: “a infraestrutura ecológica do planeta presta serviços à humanidade por um valor superior aos US$ 70 bilhões por ano, segundo algumas estimativas ou talvez muito mais. No passado, esses serviços eram invisíveis ou quase invisíveis nas bacias hidrográficas nacionais e internacionais. Isso deveria mudar; deve mudar”.
“Este informe tem objetivo de transmitir duas mensagens-chave aos governos, às comunidades e aos cidadãos no Dia Mundial do Meio Ambiente e em 2010, Ano Internacional da Diversidade Biológica da ONU. Primeiro, que essa má utilização dos bens naturais está debilitando o desenvolvimento a um nível tal que eclipsa os efeitos da crise econômica recente”.
“Segundo, que um bom planejamento do desenvolvimento e dos investimentos com ênfase na restauração destes vastos serviços públicos naturais e tendo como base a natureza não só tem um alto rendimento, mas que é importante, até mesmo fundamental, para a sustentabilidade em um mundo com aspirações, população, recursos e demandas crescentes sobre os recursos naturais da Terra”, disse Steiner, em Kigali, Ruanda, sede principal das celebrações do Dia Mundial do Meio ambiente deste ano.
“A restauração vale a pena: os banhados e os bosques podem ser até 22 vezes mais eficientes do que investir em estações de tratamento de águas” mencionou Christian Nellemann de GRID –Arendal, do PNUMA na Noruega, coordenador do Informe lançado. “Vamos fazer corretamente, respaldar com uma gestão de longo prazo e asseguremos que as leis sejam implementadas aonde sejam necessárias. Assim se poderá ver o êxito tanto no apoio público como na geração de benefícios de longo prazo”.
Mediante a iniciativa “A economia dos ecossistemas e a diversidade biológica” (conhecida por sua sigla em inglês “TEEB”), auspiciada pelo PNUMA, e milhares de outros informes e iniciativas recentes, se está começando a vislumbrar o valor dos bens naturais da Terra e a função que desempenham no desenvolvimento.
Receber para conservar

Em virtude dos acordos da ONU sobre o clima, os países estão começando a pagar as nações em desenvolvimento para que conservem os bosques em vez de derrubá-los.
Calcula-se que mediante o Programa de redução das emissões derivadas dos desmatamentos e degradação dos bosques se poderia reduzir à metade as taxas de desflorestamento para 2030.
• Segundo algumas estimativas, com este programa se poderia reduzir entre 1,5 e 2,7 milhões de toneladas de emissões mundiais de gases de efeito estufa todos os anos por um custo de entre US$ 17 e 33 milhões. por ano, mas se estima que os benefícios a longo prazo serão de US$ 3,7 bilhões a valores atuais.
• Dentro do projeto Scolel Te, do México, 700 agricultores em 40 comunidades plantaram mais de 700 hectares de árvores em terras degradadas para seqüestrar o carbono e receberam centenas de milhares de dólares dos mercados de carbono – os quais, neste caso, são vinculados com a compensação das corridas de Fórmula 1 e o Campeonato Mundial de Rally.
* Foram restaurados os ecossistemas costeiros da Baía de Biscayne, na Flórida, o que economizou um benefício anual de US$ 1,7 milhão.
• A proibição de métodos insustentáveis de pesca, a reincorporação de espécies autóctones de peixes e a replantação das zonas autóctones transformaram o antes contaminado degradado Lago Hong, da China.
• Desde 2003, a qualidade de vida melhorou notavelmente, diversas espécies de pássaros como a cegonha oriental regressaram depois de 20 anos e os lucros dos pescadores triplicaram.
• Entre os estudos de casos se inclui o projeto de reflorestamento em uma região da Tanzânia chamada Shinyanga, ao sul do Lago Victoria, que até poucos anos atrás se conhecia como o Deserto da Tanzânia devido ao desmatamento e conversão dos bosques em terras de cultivo.
O valor da recuperação
• Estima-se que os ecossistemas prestam serviços essenciais que tem um valor entre US$ 21 e 72 bilhões. por ano, cifra comparável ao PIB mundial de 2008, que chegou a US$ 58 bilhões.
• Os banhados, a metade dos quais foram drenados nos últimos 100 anos, em geral para a agricultura, prestam serviços por um valor aproximado de US$ 7 bilhões.
•Na Índia se observou que os manguezais que servem de defesa contra as tormentas diminuem os danos nas habitações de 153 para 33 dólares por casa em média em zonas onde os manguezais estão intactos.
• Calcula-se que os serviços que presta o complexo florestal Mau, no Quênia, entre os quais se incluem a energia hidrelétrica, a água potável, a umidade necessária para a indústria de chá e os fluxos de água para importantes atrações turísticas, como Massai Mara e o Lago Nakuru, tem um valor de US$ 320 milhões. por ano.
• A degradação do meio ambiente, incluídas as perdas de ecossistemas, está aumentando os efeitos dos desastres naturais tais como inundações, secas e enchentes repentinas que afetam a 270 milhões de pessoas e matam cerca de 124.000 por ano em todo o mundo (85%, na Ásia).
• As emissões de gases de efeito estufa da drenagem das turfeiras na Ásia sul-oriental aportam o equivalente a 1,3 a 3,1% das emissões mundiais de CO² provenientes da queima de combustíveis fósseis, e são uma ameaça para a sobrevivência de os orangotangos em perigo de extinção.
No informe é destacado que conservar os ecossistemas atuais é mais econômico do que restaurá-los. De fato, no informe se demonstra que, em comparação com a perda dos serviços dos ecossistemas, as restaurações bem planejadas podem oferecer relações custo-benefício de 3 a 75 em termos de rendimento dos investimentos.
“Por exemplo, restaurar os banhados e os bosques pode ser até 22 vezes mais eficaz de que investir em estações de tratamento de água”, disse Christian Nellemann, da Base de Dados sobre Recursos Mundiais do PNUMA, em Arendal, Noruega.
“Estamos assombrados quanto ao enorme apoio que o público oferece à restauração do meio ambiente nas zonas onde isto acontece, mas é preciso que esta recuperação seja bem feita”.
• Na cidade turca de Istambul o número de pessoas que se abastecem de esgoto tratado aumentou durante os últimos 20 anos de uns poucos milhares para mais de nove milhões —ou 95% da população— mediante a reabilitação e a limpeza das ribeiras, o deslocamento das indústrias que contaminam, a instalação de obras saneamento e restabelecimento da mata ciliar.
• No Vietnam, a plantação e proteção de quase 12.000 hectares de manguezais custaram pouco mais de US$ 1 milhão, mas permitiu economizar mais de US$ 7 milhões em custos anuais de manutenção dos diques.
• A estrita aplicação da lei, que custa a vida de mais de 190 guarda-bosques em Ruanda, na República Democrática do Congo e Uganda, tem ajudado a restaurar a população de gorilas de montanha criticamente em perigo observando-se um ligeiro incremento e gerando grandes ganhos provenientes do ecoturismo.
• Com um custo de US$ 3 milhões durante sete anos, a restauração de mais de 500 hectares de manguezais na região de Andhra Pradesh, na Índia, permitiu o aumento da população de caranguejos comestíveis e o pasto para o gado, o que por sua vez reativou os ganhos dos habitantes e melhorou a diversidade biológica, como de nútrias e pássaros.


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