
Valor das florestas: US$ 4,7 trilhões. Funções básicas: cadeia alimentar e regulação do clima.
O especialista em Economia Ecológica e pesquisador da Universidade de Vermont, Robert Costanza, disse na conferência de abertura do VI Congresso de Unidades de Conservação (CBUC), promovido pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, que a qualidade de vida nos países não pode mais considerar apenas o crescimento dos índices do Produto Interno Bruto.
Para o pesquisador, o modelo de bem-estar social atual, vinculado ao consumo de bens e serviços precisa ser mudado. “Consumo não é a única maneira de satisfazer o bem-estar humano. Esta lógica está mudando. Estudos científicos mostram que altos índices de desenvolvimento não aumentam os índices de satisfação pessoal”, afirmou Costanza.
Ele defende um novo modelo de PIB, que considere outros medidores de qualidade de vida, como a proporcionada pelos ecossistemas naturais. De acordo com Costanza, pesquisas mostram que o nível de satisfação pessoal em países com renda per capita acima de um determinado limite não muda. “O nível de satisfação é o mesmo em países com renda per capita U$ 30 mil e U$ 14 mil. Isso mostra que não devemos pensar que consumo é a única maneira de satisfazer o bem-estar humo”, disse.
Para o pesquisador é necessário que haja uma verdadeira conscientização sobre os impactos das escolhas relacionadas ao meio ambiente. “Precisamos criar uma economia que melhore a qualidade de vida. É importante saber que a economia é mais que apenas o mercado em si. Ela está relacionada ao desenvolvimento sustentável para humanos e também outras espécies”, avaliou.
Capital Natural
Em maio de 2000 a equipe da Aguaonline fez uma entrevista com Amori Lovins, um dos autores do livro O Capital Natural – Criando uma nova Revolução Industrial em que este tema de valoraçãodos recursos naturais estava em debate. Alguns dos trechos estão reproduzidos abaixo e revelam uma extraordinária atualidade.
“Uma segunda revolução industrial está em marcha e nela o que vale não são as barras de ouro ou os barris de petróleo. O capital dessa nova forma de produzir são as florestas, os mares, os lagos, a flora e a fauna. São os recursos naturais que começam a ganhar valor à medida em que os próprios empresários se dão conta de que não podem ser fabricados e nem substituídos.
O mentor dessas idéias é o físico e consultor ambiental norte-americano Amory Lovins, que conversou com a equipe da Aguaonline sobre seu livro O Capital Natural – Criando Uma Nova Revolução Industrial, lançado em 2000, no Brasil.
Considerado uma das personalidades do século nos Estados Unidos Lovins, que ganhou fama pregando economia de energia, dedica uma boa parte de seu livro a ressaltar a importância de que seja adotada uma nova forma de se ver a água. Ele defende “um caminho suave (soft path)” em substituição a uma “abordagem dura (hard path)”, como vem sendo feito até aqui e onde o abuso e o desperdício estão acabando com as fontes de abastecimento. “Os governos, os serviços públicos e os próprios usuários estão fazendo com a água o mesmo que fizeram com a energia: esgotando os mananciais, usando água tratada para tudo, aumentando os sistemas de abastecimento, em lugar de torná-los mais produtivos, e falhando na proteção e no aproveitamento dos serviços que os ecossistemas vêm prestando ao homem durante séculos” diz Lovins.
Ele explica que a chave do caminho suave é usar a tecnologia e o gerenciamento dos sistemas de modo a se ter o mesmo serviço – ou até ter uma performance melhor – com menos água e geralmente com menos gasto e com menor infraestrutura.
Um exemplo de como fazer com que cada gota de água seja usada eficientemente é parte importante da doutrinação em busca do “caminho suave” e começa a partir da constatação de que essa gota bem usada ajuda a manter o suprimento, contribui para baixar o montante da conta mensal, reduz a necessidade de tratamento de esgoto, protege o meio ambiente e cria saúde. Todos ganham:
Consumidores: com torneiras, chuveiros e descargas economizadoras cai o consumo doméstico e a conta é reduzida para a água e o esgoto. Também se obtém redução no uso de energia para aquecimento da água.
Comunidades: Em muitos lugares há escassez de mananciais sendo preciso trazer água de longe. Com isto é necessário um aparato de bombas, adutoras e reservatórios. Usando racionalmente o produto os recursos para esse aparato podem ser empregados em outras áreas.
Instalações: O uso eficiente permite uma melhor previsão das necessidade de expansão e reduz as dificuldades das horas de pique. É cada vez maior o número de empresas que fornecem descontos para usuários que utilizarem equipamentos economizadores.
Companhias: Racionalizando o uso da água se obtém economia nos custos de operação,como energia, produtos químicos e até mesmo horas de trabalho no sistema.
O meio ambiente: a água não consumida ajuda a evitar a construção de uma barragem e pode salvar um banhado da destruição. Água não aquecida representa gás não consumido, carvão não queimado, carbono não liberado para causar efeito estufa.
Economia: Dinheiro que não precisa ser gasto para tratar mais esgoto ou aumentar a produção de energia pode ser usado para criar empregos e fortalecer a economia local.
Crítica ao PIB tem mais de três décadas
Há mais de três décadas vêm sendo feitas críticas à maneira de se medir o desenvolvimento mas nos últimos anos vem ganhando força a idéia de incorporar medidas de sustentabilidade ambiental aos dados e, assim, medir o impacto da economia sobre os ecossistemas.
Um dos modelos está sendo buscado por um grupo de cientistas e matemáticos que ficou conhecido como Comissão Stiglitz-Sen. Por encomenda do presidente da França, Nicolas Sarkozy, eles pesquisam uma nova maneira de analisar o progresso dos países.
Umas das críticas ao modelo vigente de medir o desenvolvimento é a economista americana Hazel Henders ao sustentar que o critério da riqueza per capita disfarça as desigualdades. Ao contabilizar apenas o resultado da atividade econômica sem levar em conta as chamadas externalidades – os custos social e ambiental envolvidos na produção – e dividir pela população o PIB pode gerar um falso positivo.
Um dos exemplos citados é o das grandes catástrofes e eventos extremos, como furacões, terremotos, secas que podem devastar países e no entanto geram empregos com a reconstrução o que pode refletir em uma elevação do PIB. Muitas vezes essas catástrofes comprometem para sempre os recursos naturais, como é o caso dos desmatamentos na Amazônia que movimentam as indústrias de móveis e as grandes siderúrgicas.
Valor que não se mede
Um dos exemplos que Amory Lovins cita é o do valor das florestas: “elas produzem um recurso com valor de mercado que é a madeira. Mas também têm um outro produto, que não é valorizado monetariamente, que é o serviço de ecossistema, de regulação das bacias hidrográficas, de controle do clima e atmosfera, de servir de habitat para a biodiversidade e de contribuir para nosso conforto espiritual”.
“Se nós não pusermos estes valores na balança corremos o risco de, juntamente com a extração da madeira, liquidarmos também com os outros recursos. Isto é alguma coisa que um capitalista prudente não deve fazer se quiser continuar com seu negócio por muito mais tempo”.
Ele narra um outro exemplo de mau uso das florestas que aconteceu no Vale do Yan-Tse, na China. Com o desmatamento de uma extensa área ocorreu uma grande enchente, na época das chuvas. O resultado foi que mais de 250 milhões de pessoas ficaram desabrigadas, aconteceram mais de 3.000 mortes e prejuízos de mais de US$ 30 bilhões em perdas agrícolas e de fábricas destruídas. E para tentar reparar o dano foi necessário reinvestir mais de US$ 12 bilhões. “O que foi, definitivamente, um péssimo negócio” disse.
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