Contam que Deus ganhou o apelido de “Arquiteto do Universo” porque criou a terra, as plantas e os bichos, e criou a lua, as estrelas, o sol e outros planetas também…Também contam que logo depois de criar o planeta Terra, Deus parou e admirou as coisas maravilhosas que havia criado e viu o quanto elas eram complexas… E Ele concluiu: “A Terra era uma verdadeira fábrica da vida!”
Tal qual fosse uma fábrica perfeita, a água passava de um ser para outro: primeiro matava a sede de uma planta, depois passava para o animal que comesse essa planta, depois para outro animal que comesse o bicho que havia comido a planta… Aí ela ia para o ar através do suor e da respiração do animal, formava nuvens e voltava para a terra em forma de chuva! Ou ainda ela ia para a terra através do xixi dos bichos, caía no solo, alimentava as plantinhas com os nutriente do xixi, e voltava a ser água limpa depois de ser filtrada pelo solo… Então ela corria para os rios, dos rios corria para o mar, do mar ela evaporava e ia formar nuvens, voltando para aguar as plantas na forma de chuva!
Aquela fábrica era mesmo muito especial, pois assim como havia o ciclo da água, havia o ciclo da vida, fazendo nascer, viver, morrer e nascer de novo bichos e plantas! Cada ser criado por Deus no Planeta Terra tinha um trabalho específico nesta fábrica! Até os bichos mais esquisitos ganharam tarefas que eram muito importantes para que a fábrica funcionasse direitinho!
Para alguns bichos Deus deu a tarefa de guardiões de remédios que um dia seriam úteis: algumas cobras possuem um veneno que serve para caçar a sua comida e que, em grandes quantidades, pode causar a morte… Mas em doses pequenininhas, este mesmo veneno ajuda a salvar vidas! Há um remédio, hoje conhecido por nós humanos, que é feito com o veneno da Jararaca e que ajuda a controlar a pressão das pessoas que sofrem com pressão alta!
Deus também deu esta tarefa para alguns seres microscópicos: foi em um pequeno fungo que produz a penicilina que nós encontramos o remédio para curar diversas infecções! A descoberta da penicilina é uma das causas de conseguirmos ter vidas mais longas!
E tem seres vivos que até hoje nós ainda não descobrimos exatamente em que eles trabalham, como os mosquitos, por exemplo! É possível que o trabalho deles seja apenas alimentar os pássaros, morcegos e sapos… Mas também é possível que eles executem alguma outra tarefa importante que nós ainda não sabemos qual é.
Para ensinar aos seus filhos e netos o quanto eles deveriam respeitar esta lei de recuperação da natureza e o quanto eles deveriam respeitar os demais empregados da grande fábrica, os índios criaram a figura de Deuses: o Deus do Fogo, a Deusa das Águas, o Deus das Matas… e inventaram lendas de guardiões que puniam quem desrespeitasse os demais elementos da natureza. Um destes guardiões era o Caipora, um espírito com forma de gente, cabelos e dentes verdes e os dois pés virados para trás. O Caipora vivia nas matas e punia os caçadores que matassem fêmeas prenhes e filhotes ou que caçassem apenas pelo prazer de matar os bichos, ao invés de caçar para matar a fome de sua família. Os índios passaram a chamar a Terra, essa grande fábrica da vida,
de “Mãe Terra” e a amavam e respeitavam como se deve amar e respeitar uma mãe…
E a fábrica funcionava de forma equilibrada. “Mas, com o passar do tempo, algumas tribos ficaram preguiçosas e já não explicavam aos seus filhos e netos qual era o papel de cada ser e como a fábrica funcionava. Eles apenas ensinavam que era preciso temer e respeitar os Deuses da Natureza para que não fossem punidos e ensinavam que os homens eram os gerentes da fábrica da vida.
Alguns homens, filhos das tribos preguiçosas, começaram a sentir orgulho do papel que desempenhavam na fábrica da vida. Não aquele tipo de orgulho de estar feliz com o que se faz, mas aquele orgulho que faz a pessoa se sentir melhor que os outros, mais importante do que tudo… E estes homens passaram a enxergar os animais e as plantas, a água e a terra, como seus escravos, que estavam ali apenas para trabalhar para eles…
As plantas e bichos não eram mais vistos como iguais, mas como inferiores, como coisas… e até mesmo os seus irmãos humanos que ainda viam os outros seres como iguais e a Terra como Mãe passaram a ser tratados como inferiores… E por serem inferiores, suas vidas tinham menos valor que a dos “gerentes orgulhosos”.
Os filhos e os netos destes homens eram ensinados que a natureza foi criada para servir ao homem, que os bichos não sentem dor e nem pensam… e que servem apenas para alimentar e divertir os homens. Aprendiam que tudo, inclusive as pessoas, pode ser trocado por dinheiro. Que quanto mais dinheiro e poder uma pessoa tem, mais feliz ela
é. E que quem tem mais dinheiro é superior e mais importante que tudo, inclusive que qualquer outra pessoa… E assim os homens foram sendo sucedidos por seus filhos, por seus netos, por seus bisnetos… Cada geração tratando tudo e todos como mercadoria, que ali na esquina poderia ser trocada por coisa melhor, mais bonita ou mais nova. Quando uma planta
acabava em uma ponta, passavam a consumir outra, quando um bicho se extinguia, passavam a explorar outro… Quando uma terra já não tinha mais riquezas, passavam a explorar outra… Tal qual gafanhotos famintos, a humanidade foi subjugando e “consumindo” a natureza que encontrou entre suas cercas.
E chegamos nos dias de hoje…
Se olharmos em volta, lermos e ouvirmos as notícias publicadas nos jornais, rádios e na TV, nós vamos perceber que nossa fábrica da vida está totalmente desequilibrada. Como ainda lembram do que seus antepassados foram ensinando para seus filhos e netos, as pessoas acreditam que precisam ter cada vez mais dinheiro e mais coisas para
que sejam importantes e possam ser felizes… Graças a este consumismo desenfreado, em alguns pontos a Terra já não consegue mais completar direito o ciclo da água: em algumas partes do planeta acaba sendo devolvida para o solo água demais, causando enchentes e inundações, em outras partes é devolvida água de menos, causando desertificações e impedindo a produção de comida para pessoas, plantas e bichos…
E, às vezes, a água que volta ao solo é água ácida, contaminada pelas substâncias lançadas no ar pelas fábricas, e que causa a morte de
plantas e bichos… Alguns empregados da fábrica da vida – plantas, bichos e microrganismos – foram extintos para sempre e não temos mais como fazer com que as tarefas que eles desempenhavam sejam executadas, o que fez com que alguns processos da fábrica deixassem de funcionar para sempre… Alguns destes seres que foram extintos talvez fossem guardiões de remédios que a humanidade nunca terá a chance de descobrir…
O ar, que antes era sempre puro, agora traz consigo cheiros desagradáveis e, ás vezes, trazem substâncias que vão matando aos poucos as pessoas e os bichos… As árvores, importantes como abrigo e alimento dos animais e como mantenedoras do equilíbrio do clima e das chuvas, estão desaparecendo para abrir espaços para construções de estradas, hidrelétricas e cidades e para dar lugar a grandes lavouras de grãos que vão ser levados para outras áreas do planeta… “Exportar é importante!”,
dizem alguns homens. Mas esquecem que sem chuva ou com o solo empobrecido de nutrientes não há como produzir comida…
As grandes queimadas destroem bichos, plantas, microrganismos e ainda fazem adoecer os pulmões das pessoas que moram na volta… As pessoas, que antes moravam espalhadas, agora moram amontoadas em cidades. E
para piorar, derramam seu cocô e seu xixi direto nas águas que mais tarde irão beber ou irão usar para irrigar a comida que comem…Embora a lei diga que a escravidão não existe mais, na prática a história é outra… Muitas
pessoas trabalham em minas de carvão, ou em fábricas, ou em grandes plantios e levam uma vida miserável, sendo exploradas para garantir o bem-estar e a felicidade dos “donos” destas empresas…
“Os bichos e as plantas são vistos por grande parte da humanidade como mercadoria, como “coisas”, como inferiores e sem importância, portanto os homens de hoje não vêem problema em instalar empresas que vão matá-los… O mesmo tratamento é dado a quem não tem dinheiro e nem poder: “que mal há em instalar uma empresa que envenenará o ar se só quem vai respirar este veneno são os pobres que moram em uma vila ao lado? Eles não têm importância! Olhem pelo lado positivo! Vejam quantos
empregos esta empresa gerará para as pessoas da vila!” E, sem conhecerem tudo que está em jogo, as pessoas da vila são manipuladas para exigir os benefícios dos empregos que a empresa gerará caso se instale ali… Elas não sabem que estão trocando sua saúde e a saúde de seus filhos por empregos que não pagarão sequer os tratamentos médicos de que necessitarão em um futuro muito próximo…
Caso a fábrica da vida siga assim desequilibrada, logo ela entrará em falência e não mais será possível produzir vida saudável na Terra. Ela já está nos dando sinais claros de seu mal funcionamento através daquilo que chamamos de “Mudanças Climáticas” e de “Aquecimento Global”, causados principalmente pelo desequilíbrio no efeito-estufa e no ciclo da água…
Fragmentando
Estes humanos, movidos pelo seu egoísmo e pelo seu orgulho, passaram a construir cercas e a dividir a Terra em pedaços que eles afirmavam ser deles! Tudo que estava dentro daquelas cercas lhes pertencia, inclusive os outros seres humanos, e todos – terra, planta, bicho, água, gente – que estavam ali deveriam trabalhar exclusivamente para o bem-estar e a felicidade de seus “donos”. Inventaram o dinheiro e passaram a comprar e vender bicho, planta, água, terra, metais e gente! Quanto mais “escravos” podiam comprar ou possuíam, mais poderosos e importantes eles se sentiam…
A Terra foi deixando de ser vista como uma grande fábrica da vida e os processos, como o ciclo da água, deixaram de ser vistos como um todo, para serem enxergados aos pedaços…
O homem ficou míope. Ele só enxergava o que estava dentro da sua cerca. E inventou armas para proteger sua propriedade de outros homens gananciosos como ele… E passou, com a ajuda destas armas, a invadir as terras de outros homens para tomar-lhes os escravos e expandir suas cercas e sua sensação de poder…
E os homens esqueceram que a natureza tinha limites, e passaram a retirar dela mais do que ela tinha capacidade de se recuperar… Alguns empregados da fábrica começaram a desaparecer… E suas funções deixaram de ser efetuadas, pois apenas eles sabiam que
tarefas deviam fazer e como deviam executá-las. Hoje os estudiosos chamam isto de EXTINÇÃO DE ESPÉCIES…
Como estes homens só enxergavam a parte da fábrica que estava dentro das suas cercas, o funcionamento dela acabou desequilibrado: alguns ex-empregados, transformados em escravos dos homens, tiveram seus ninhos e casas destruídas para que outros escravos pudessem usar a área onde eles estavam para gerar mais riquezas para os seus donos… Foi o que aconteceu com parte dos bichos selvagens… Os morcegos, por serem feios e porque os homens já não sabiam qual era a importante função para a qual eles foram criados, passaram a ser tratados como bichos imundos que deveriam ser mortos. Os pássaros que tivessem belas plumagens acabavam mortos para que as penas servissem de enfeites para roupas e chapéus. Aqueles que tivessem belos cantos ou que conseguissem imitar a fala dos homens eram condenados à prisão perpétua em pequenas gaiolas e, ao invés de plantarem árvores e controlar insetos, deveriam apenas cantar ou falar para seus donos…
Outros animais, escravizados, viravam simples diversão para os homens, sendo confinados e maltratados em circos ou ainda servindo de alvo para testar a pontaria dos caçadores…
Cada um com sua função
As minhocas, por exemplo, bichos tão pequenos, sem olhos, nem pés, tinham que ajudar Deus a alimentar as plantas, fossem estas plantas pequenas folhagens ou árvores imensas! Elas tinham que pegar os nutrientes das folhas, frutas e madeiras que estavam apodrecendo e carregá-los da superfície para as partes mais profundas do solo, onde
estavam as raízes das plantas!
E os morcegos, então? Feínhos e sem enxergar direito, ganharam de Deus um radar especial para trabalhar no turno da noite e conseguir desempenhar seu papel de guardiões das plantas! Alguns deles deveriam usar seu radar para encontrar os insetos e evitar que eles se multiplicassem demais e acabassem com as plantas!
Outros morcegos receberam a importante tarefa de ajudar Deus a plantar as árvores frutíferas pela Terra! Eles deveriam comer as frutas engolindo suas sementes, depois carregariam as sementes na barriga para largá-las lá longe da árvore, já com um pouquinho de adubo, para permitir que novas árvores de fruta nascessem!
O carancho, aquele gavião que é muito comum aqui pelo Pampa, deveria ajudar Deus a evitar que as cobras e os roedores se multiplicassem muito rápido e acabassem desequilibrando o funcionamento da Fábrica da Vida! Junto com seu primo Urubú, o Carancho também deveria comer as carcaças dos bichos mortos, ajudando a devolver para a Terra os nutrientes que haviam formado o corpo daqueles bichos quando eles ainda eram vivos…
Um gerente muito especial
Então Deus olhou este monte de “empregados” que Ele tinha em sua fábrica da vida, chamada Planeta Terra, e sabendo que precisava continuar criando planetas, estrelas, nebulosas e outras coisas para preencher o Universo, Deus percebeu que precisava de um gerente que cuidasse para que sua fábrica continuasse funcionando bem, enquanto Ele criava outros mundos Universo à fora…
Esse “gerente” precisava Ter, além da inteligência que Deus havia dado aos animais, uma consciência para percebesse que tudo na Terra tinha que estar funcionando bem, e
em conjunto, para que a grande fábrica pudesse continuar produzindo vida na medida certa.
Esse gerente deveria perceber que se produzisse vida de menos, muito em breve faltariam “empregados” para desempenhar todos os trabalhos e funções que a fábrica exigia para continuar produzindo a vida. E caso isto acontecesse, a produção da vida seria prejudicada e a fábrica poderia ser levada à falência…Ele também deveria perceber que se a fábrica produzisse vida demais, haveria empregados demais e logo, logo, faltaria material para que a fábrica continuasse produzindo…
Então, para ocupar a função de gerente da fábrica da vida, Deus criou o ser humano. O trabalho do ser humano era gerenciar a grande fábrica garantindo que a produção de vida fosse sempre equilibrada: não deveria haver nem produção demais, nem de menos, garantindo o bom funcionamento da fábrica. No começo, os primeiros seres humanos eram índios… E eles, em respeito aos processos que envolviam a produção da vida, tratavam os animais e as plantas como seus iguais, pois sabiam que todos desempenhavam papéis essenciais ao bom funcionamento da fábrica da vida. Deus havia lhes ensinado que a natureza tinha um limite até onde era possível retirar plantas, água e bichos, e que ela voltaria a produzí-los novamente…
Hoje, os estudiosos conhecem este poder de recuperação com um nome esquisito: eles dizem que esta capacidade de recuperação da natureza se chama RESILIÊNCIA.
Autora
“A Fábrica da Vida”, por Eridiane Lopes da Silva – apa_ibirapuita@yahoo.com.br.
III Conferência Infanto-Juvenil de Meio Ambiente – S. do Livramento/RS – BRASIL – out/2008.
Trabalho na APA
E é por causa deste desequilíbrio no funcionamento da fábrica da vida que eu estou aqui hoje. Eu trabalho como guardiã de parte da riqueza de vocês. Sou responsável por fazer funcionar parte da fábrica da vida. Trabalho como gerente da biodiversidade da Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã. Minha função é garantir que os ciclos da água e da vida que ocorrem na área da APA continuem funcionando de forma equilibrada.
Para quem não sabe, a APA do Ibirapuitã é uma área protegida pelo Governo Federal que guarda uma porção representativa do Bioma Pampa. Um Bioma é um conjunto de vida associada a um lugar do mundo que só existe naquela parte do planeta. Assim, o conjunto de vida (plantas, bichos e microrganismos) encontrados no Pampa é diferente do conjunto encontrado na Amazônia. Como se fossem setores diferentes de uma mesma fábrica, cada bioma tem suas “matérias-primas” e seus “empregados”, que desempenham tarefas específicas para manter a vida equilibrada naquela região do planeta.
A APA do Ibirapuitã tem quase 319 mil hectares. Ela abriga a porção superior da bacia hidrográfica do Rio Ibirapuitã e se estende pelos municípios de Santana do Livramento, Alegrete, Quaraí e Rosário do Sul. Mais da metade da área da APA fica em Santana do Livramento.
Grande parte dos empregados envolvidos na fábrica da vida da APA ainda são desconhecidos, pois até agora esta região foi pouco estudada. Mas mesmo com pouco estudo, já descobrimos que nela temos pelo menos 13 espécies de sapos e pererecas, 210 espécies de aves, 54 espécies de mamíferos e temos registro de 18 espécies de morcegos, a grande maioria consumidora de insetos. Há muito ainda o que estudar e descobrir na área da APA.
Vocês podem estar se perguntando, mas para que serve essa tal APA? Ela foi criada para garantir a conservação de uma porção significativa do Bioma Pampa; para proteger a diversidade biológica, ou seja, para garantir que todos os empregados da fábrica da vida continuem existindo e desempenhando suas funções de forma equilibrada; para ensinar aos homens da região como ocupar a área da APA sem causar desequilíbrio à vida; para proteger as matas e garantir o equilíbrio do ciclo da água na região da APA; para proteger as espécies ameaçadas de extinção; para ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas que moram na região, para que elas possam ser mais saudáveis e mais felizes; para preservar a cultura e a tradição do gaúcho da fronteira; e para estimular o turismo ecológico, a pesquisa científica e a educação ambiental.
Na grande fábrica da vida, o equilíbrio do homem é tão importante quanto o equilíbrio dos bichos, das plantas, do ciclo da água, do ar e da terra. E é assim que nós trabalhamos na APA, levando em consideração cada um dos empregados dessa fábrica da vida e a importância dos trabalhos que todos eles desempenham juntos.
Agora que vocês já sabem um pouco sobre como esta fábrica da vida funciona e como o papel, que nós humanos desempenhamos como gerentes, pode mantê-la funcionando ou pode fazê-la falir de vez. Eu gostaria de convidá-los a serem bons gerentes da fábrica da vida e a me ajudarem a reequilibrá-la… É um trabalho que para alguns pode parecer impossível, mas que ainda temos tempo e força para, juntos, executar… Para isso, precisamos começar cada um a reorganizar um pedacinho do planeta, acarinhando uma parte da Mãe Terra e voltando a respeitá-la e amá-la como nossa mãe generosa, que mesmo ferida e explorada tem nos fornecido alimento, roupas e abrigo.
Como vocês estão aprendendo aqui sobre o ciclo da água, as bacias hidrográficas e a biodiversidade, eu os convido a não deixar que o esforço de vocês para promover as mudanças propostas pela III Conferência terminem aqui, hoje. Estou convidando-os a trabalharmos juntos, alunos, professores, pais e moradores da região, pelo reequilíbrio da microbacia hidrográfica do Arroio Carolina. Juntos nós podemos mudar para melhor a realidade desta região de Santana do Livramento.
Venho aqui hoje para propor-lhes um passo-a-passo para conseguirmos executar esse trabalho juntos. Para começar, devemos formar um Comitê Pró-Arroio Carolina e teremos que buscar parceiros para o nosso projeto junto às universidades, às ONGs ambientalistas e às instituições públicas que existem aqui no município. Também teremos que sensibilizar as pessoas que moram e trabalham dentro desta região do município quanto à importância delas para o reequilíbrio da vida na microbacia do Arroio Carolina. Nós também vamos ter que fazer um mapa ou croqui da microbacia, identificando todas as ruas, quadras, escolas, instituições e empresas que estão dentro desta área. Com a ajuda dos professores e do pessoal das universidades e ONGs, vamos ter que identificar e visitar cada uma das nascentes do Arroio, fotografando e registrando em um relatório qual é a sua situação atual (se está protegido, se tem mata ciliar, quais são as espécies de animais e de plantas que encontramos próximo a esta nascente, se ela recebe esgoto, se tem lixo, se tem sapos, tartarugas ou peixinhos vivendo nela, se tem construções em cima da sua área de preservação permanente APP, etc). Podemos ainda conversar com a Coordenadoria Estadual de Saúde para saber se é possível que eles nos ajudem, coletando uma amostra de água destas nascentes visitadas e analisando qual é a situação da qualidade da água delas.
Depois que visitarmos todas as nascentes, devemos fazer uma grande mostra sobre qual é a situação delas e apresentar a situação das nascentes do Arroio Carolina à população do município, divulgando nosso projeto e nossos objetivos e convidando as pessoas a trabalharem conosco para reequilibrar a nossa parte da fábrica da vida. Sabendo a situação das nascentes, será a vez de sabermos como está cada trecho do Arroio e das sangas que o formam. Para isso, vamos ter que caminhar da nascente até o ponto em que ela deságua no corpo principal do Arroio, fotografando e anotando todas as alterações que formos encontrando (saídas de esgoto, saídas de efluentes de empresas, construções na beira da sanga, lixo na beira ou dentro da água, etc) e identificando quais são os seres vivos que
encontramos neste trecho (plantas, aves, mamíferos, peixinhos, insetos, anfíbios, tartarugas, etc…). Conversaremos com a Coordenadoria Estadual de Saúde para saber se eles podem nos ajudar analisando a qualidade de uma amostra de água de cada sanga, coletada um pouco antes dela entrar no corpo principal do Arroio Carolina.
Sabendo a situação dos cursos d’água contribuintes do Arroio Carolina, será a hora de caminharmos ao longo do curso d’água principal anotando e fotografando as alterações e a situação dos seres vivos da região. Novamente a Coordenadoria Estadual de Saúde deverá ser consultada para saber se ela poderia analisar a qualidade de uma amostra de água coletada do Arroio um pouco antes dele entrar no Rio Santa Maria.
Com os dados de toda a bacia, será a hora de realizarmos um seminário para discutir a situação de todo o Arroio Carolina, das nascentes até a sua foz com o Rio Santa Maria, identificando seus problemas e desequilíbrios e discutindo com a comunidade o que podemos fazer para trazer o equilíbrio de volta a esta região.
Daí por diante teremos que planejar juntos o que e como vamos fazer… Está feito o meu convite… Eu espero poder contar com a ajuda de todos vocês, que foram eleitos gerentes do equilíbrio desta grande fábrica da vida, que é nossa Mãe Terra…

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