O bom combate

Luiz Eduardo Cheida – Secretário de Meio Ambiente do Paraná

Mark Twain, novelista americano, disse certa vez que “a gente não se liberta de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau”.

De fato, quando se trata de mudar um conceito arraigado, o desejo é tão virtuoso quanto a paciência.

O modelo de desenvolvimento agrícola do Paraná deu certo. Somos apenas 2% do território nacional e respondemos por mais de 23% da produção de grãos.

Para tanto, já desmatamos 96% do território; jogamos dentro dele, a cada ano, 40 milhões de quilos de agrotóxicos (66 quilos por minuto); nos tornamos os campeões nacionais de câncer de fígado e de pâncreas; a taxa de suicídio entre adultos jovens (bem como a taxa de câncer entre crianças de até 10 anos e a taxa de lesões neurológicas), nas lavouras de fumo, é excepcionalmente maior que em todos os outros locais.

O modelo de desenvolvimento agrícola do Paraná deu certo. Entretanto, é preciso perguntar: deu certo, para quem?

Até porque, mesmo em rápida análise, o mínimo de inteligência já acusaria uma brutal interferência no ambiente natural, um inaceitável complexo de doenças daí decorrentes e uma menos aceitável pauperização da esmagadora maioria de nossos agricultores.

Um modelo agrícola ambientalmente questionável, socialmente injusto e economicamente excludente.

Deu certo para quem?

Contudo, apesar disso, parece que a voz da razão começa a ser ouvida.

No Paraná, um número cada vez maior de agricultores estão convertendo suas propriedades para modelos ecologicamente aceitáveis. Se considerarmos o ano de 2004, já são 4.000 deles, representando um cultivo de 12.000 hectares e uma produção de 66.000 toneladas ano. O crescimento médio do setor é de 20%. Em outras palavras, no Paraná, quase 1.000 agricultores convertem suas propriedades a cada ano.

Enfim, os astros estão alinhados. Espera-se que a sorte favoreça o bom-senso. Não vamos, porém, ser ingênuos. Trata-se da sobreposição de um modelo agrícola por outro. Trata-se de uma substituição. Que só se faz através do confronto de idéias. O confronto está aí. É o bom combate. Não se pode ter medo dele. Para vencer é preciso vontade mas, sobretudo, paciência. Assim já recomendava Mark Twain: degrau por degrau.

A Natureza também age assim. Não custa imitá-la. Afinal, queremos mais do que nunca que o modelo de desenvolvimento agrícola do Paraná dê certo. Para todos.

Maus resultados

O índice de nitratos em lençóis freáticos já supera em até 80 vezes o máximo permitido em algumas localidades do Arenito Caiuá; a perda de solo, em que pesem nosso pioneirismo e êxito nas técnicas de manejo de solo, continuam inaceitáveis (apenas o Rio Ivaí carreia ao Rio Paraná mais de 2 milhões de toneladas de solo ao ano); o número de espécies ameaçadas de extinção (dentre elas, nossa árvore-símbolo) passou de 167 para 344, apenas nos últimos 9 anos; embora, 70% das propriedades do Estado sejam pequenas, segundo o IBGE, sua renda média mensal é de apenas R$ 800,00.

Agroecologia

A Secretaria Estadual de Agricultura, através da EMATER, tem trabalhado com o enfoque da agroecologia. A Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, através do Programa Paraná Biodiversidade, constitui módulos agroecológicos. Cada módulo reúne 20 propriedades que são financiadas com R$ 120 mil afim de que se convertam para práticas ecologicamente adequadas.

Além disso, junto à Secretaria Estadual de Educação, iniciamos a Merenda Escolar Orgânica, comprando diretamente do produtor certificado. A meta é beneficiar 1.300 crianças ao dia. O Ministério do Desenvolvimento Agrário, também trabalha ajudando a converter propriedades com modelos tradicionais em modelos agroecológicos.

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