Água é vida, saneamento é dignidade

Thalif Deen – Crédito Jeanne Curran e Susan R.Takata

(Envolverde/ IPS)

A Organização das Nações Unidas calcula que 2,6 bilhões de pessoas, das quais 700 milhões vivem na Índia, carecem de banheiro em suas casas. Um jornal norte-americano informou há pouco tempo que os moradores de centenas de bairros pobres da cidade indiana de Mumbai (ex-Bombaim) são obrigados a utilizar as vias férreas próximas como banheiro público. Estes movimentos são determinados pelos horários da estrada de ferro, que nas horas de pico apresenta movimento de um trem a cada cinco ou 10 minutos. “É uma realidade, uma infeliz realidade”, disse um especialista asiático em água e saneamento que participa em Estocolmo de um simpósio para marcar a Semana Mundial da Água.

Embora água e saneamento pareçam irmãos inseparáveis, a primeira é priorizada sobre o segundo, disse à IPS Roberto Lenton, presidente do Conselho sobre Fornecimento de Água e Saneamento da Organização Mundial da Saúde. As pessoas e comunidades sabem mais do vínculo entre água potável e saúde do que o existente entre saneamento e saúde, explicou Lenton. Tende-se a passar por alto pelo saneamento. “Todos compreendem que a água é vida. Então, o saneamento é dignidade”, afirmou. Saneamento e higiene são tão “notoriamente ignorados” que é imperativo dar-lhes a maior prioridade política nas agendas nacionais e internacionais.

O Conselho da OMS que Lenton preside lançou uma campanha mundial denominada Água, Saneamento e Higiene para Todos. Menos de 400 em cada 1.000 habitantes de povoados africanos têm acesso a uma latrina, advertiram a OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Ali são freqüentes diarréia e outras enfermidades causadas pela falta de saneamento, especialmente graves entre menores de 5 anos. Segundo as duas agências da ONU, mais de dois milhões de meninos e meninas morrem anualmente vítimas dessas doenças. A maioria dos países com problemas de água e saneamento se encontram na África, mas “em números absolutos”, a maioria das pessoas que vivem “sem estes serviços básicos” estão na Ásia, explicou Lenton. “Entretanto, na análise país por país, a África subsaariana é a região mais afetada”, acrescentou.

Além disso, na África mais do que em qualquer outra região, o saneamento é um problema muito mais grave e mais difícil de resolver do que o fornecimento de água, afirmou o especialista. Na Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável realizada em Johannesburgo em 2002, a comunidade internacional estabeleceu reduzir à metade até 2015 a proporção de pessoas sem acesso a saneamento básico. Para alcançar esse objetivo, pelo menos 1,3 bilhão de pessoas devem ter acesso ao serviço até essa data.

“Melhorar o conhecimento sobre saneamento e higiene é difícil porque o assunto está sujeito a grandes tabus culturais”, diz um relatório encomendado pelo governo da Noruega no ano passado. “De todo modo, há lições a serem tiradas da experiência da aids, outra questão cercada de tabus culturais, mas que recebeu atenção e mobilização geral”, diz o informe.

Bangladesh é um caso particular. “A crise pela água é muito grave”, mas embora milhões sofram com a escassez e a ameaça pela contaminação com arsênico, “estamos nos concentrando mais no saneamento”, disse à IPS Tauhid Ibne Farid, da organização Action Aid Bangladesh. O governo lançou programas maciços, mas “não se deu conta de que se não existe fornecimento de água o saneamento não funciona”, lamentou Farid.

A Agência para o Desenvolvimento e a Cooperação da Suíça (SCD) informou em Estocolmo que tanto as agências da ONU quanto organizações não-governamentais dedicadas ao desenvolvimento apóiam cerca de 1.000 centros de produção de latrinas em áreas rurais de Bangladesh. “A cobertura de latrinas era baixa, apesar dos elevados investimentos. Esta situação mudou drasticamente com o novo enfoque, da busca de equipamento barato à criação de um mercado para a produção privada”, explicou a SDC. Como conseqüência, a cobertura de latrinas aumentou rapidamente de 25% para 50%, ao mesmo tempo em que foram criados milhares de empregos. Hoje, aproximadamente seis mil pequenas empresas rurais produzem 1,2 milhão de latrinas por ano. A meta do governo é atender a demanda total até 2010.

Pesquisa Aguaonline

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