Estratégias de mobilização e participação social

O 1º Simpósio Recursos Hídricos do Sul – Aguasul discutiu na sua primeira mesa-redonda o tema Estratégias de Mobilização e Participação Social na Gestão das Águas. O tema é um dos focos centrais na discussão da Gestão das Águas, uma vez que pesquisadores e gestores públicos consideram a participação da sociedade no processo de gerenciamento hídrico condição imprescindível para o sucesso das ações nesta área.

A mesa-redonda foi conduzida por Paulo Renato Paim, secretário executivo do Conselho de Recursos Hídricos do Estado, e teve como palestrantes a doutora em Antropologia Social, Ana Luiza Carvalho da Rocha, membro do Instituto Antropos de Porto Alegre, a assistente social e doutora em Políticas e Práticas Sociais, Luiza Helena Dalpiaz e a jornalista Cecy Oliveira, que é editora da revista Águaonline .

A necessidade da atuação de profissionais das áreas humana e social em conjunto com os considerados técnicos, da engenharia e economia, por exemplo, e a dificuldade de integrar estes diferentes saberes foram a tônica das discussões da mesa.

Também foi levantada a necessidade de conhecer os grupos sociais diretamente envolvidos na utilização da água para que suas realidades sejam contempladas nos processos de gestão e para que as campanhas de mobilização das comunidades sejam mais eficazes. Foi abordado ainda,o papel fundamental do marketing e da comunicação na mobilização para a participação popular e nas mudanças de comportamento.

Para a assistente social, Luiza Helena Dalpiaz, do ponto de vista social, a problemática central da gestão dos recursos hídricos é a dificuldade de integrar os diferentes saberes que estão envolvidos no tratamento da questão. Ela afirma que é necessário identificar os saberes científico, técnico e popular, localizá-los na sociedade e pensar numa articulação entre eles. Ela alerta que é preciso criar fluxos de comunicação, condições de diálogo, entre estes diferentes saberes.

Para a antropóloga Ana Luiza Carvalho da Rocha, não é possível falar de degradação de áreas urbanas ou de conflitos legais relacionados à utilização da água sem discutir o grupo humano que ali estabelece suas práticas sociais. Ela salientou que o grande desafio hoje dos técnicos e representantes de categorias que atuam nos Comitêsde Bacias é o de conviver com a diversidade cultural dos usos da água. Não só o universo dos diferentes grupos relacionados às atividades econômicas, como indústria e agricultura, mas as práticas culturais dos grupos sociais em geral.

Na opinião da antropóloga “o desafio é compreender estas práticas culturais diferenciadas e conseguir articular o seu saber técnico-científico de origem no diálogo com estes grupos sociais”. As informações técnicas que o Comitê detém muitas vezes são desconhecidas de grande parte da população que é afetada por elas. “O processo de disseminação deste conhecimento para os grupos sociais para que eles possam compreender a gravidade de suas pequenas ações cotidianas de uso da água é um desafio”.

Ana Luiza também chamou a atenção para que se considere o papel histórico-cultural dos Comitês de Bacia. Segundo ela, por reunir grupos diversificados com diferenciadas demandas e experiências de uso da água, a composição do comitê torna-se tensa, conflituosa e polêmica. Ela preconiza que a gestão deve oferecer condições para costurar estas diferenças.

Em seu ponto de vista a cidadania e a democracia não são frutos da homogenização, mas da articulação de comportamentos diferentes.

A jornalista Cecy Oliveira falou sobre o papel do marketing e da comunicação na mudança de comportamento necessária à utilização sustentada dos recursos hídricos. Para ela, antes de empreender qualquer trabalho visando à mudança é preciso conhecer a motivação dos comportamentos atuais.

Deixou claro, ao contrário do que muitos pensam, que mobilizar não significa levar multidões às ruas, mas sensibilizar e levar cada um à mudança de atitude em sua realidade. Segundo ela, para atingir este objetivo, é preciso, inicialmente, saber o que o público pensa a respeito do tema e depois ultilizar a linguagem adequada, convertendo os dados técnicos em informações capazes de atingir o imaginário das pessoas e assim conduzir à paixão.

Brasileiro não conhece comitês

Durante a mesa-redonda foram apresentados dados da pesquisa realizada pela WWF e recém-divulgada e que teve como objetivo levantar informações para subsidiar o planejamento e ações do WWF e gerar conhecimentos relevantes para a sociedade em geral. O universo pesquisado foi a população a partir de 16 anos, por telefone, de todo o Brasil. Nº de entrevistas: 1.000.

A pesquisa revelou que na visão da população o segmento que mais consome água e mais polui é a indústria, quando na verdade o maior usuário é a agricultura (70%).

O usuário residencial embora consumindo apenas cerca de 9% do total é responsável pela geração de esgotos e lixo que não tratados pelas operadoras – sejam elas estaduais, municipais ou privadas – representam uma expressiva fonte de contaminação dos rios.

Sete em cada dez brasileiros nunca ouviu falar de comitês de bacia e nove entre dez não conhecem ninguém que participe de um comitê, segundo a pesquisa do WWF, sendo também expressivo o número (62%) dos que não souberem definir as funções de um comitê de bacia.

Importância da informação

Ao ressaltar a importância do papel da informação para que a população perceba o valor da água Cecy Oliveira afirmou que “Ninguém preserva o que não ama”. Na avaliação da jornalista, a estiagem poderia ter sido melhor aproveitada pelos meios de comunicação e pelos próprios comitês para despertar o interesse pela gestão das águas, promover a reflexão e motivar a mudança.

Durante o debate, que incluiu a participação dos ouvintes, foi destacado que as mudanças culturais acontecem a longo prazo e por isso devem ser fomentadas não apenas pela disseminação de informações, mas por esforços direcionados à formação. Conforme concluiu a antropóloga Ana Luiza da Rocha, as iniciativas individuais devem compor um Projeto Social para que possam ser instauradas novas, sistemáticas e cotidianas práticas culturais. Para as palestrantes, a atuação dos Comitês de Bacias poderá ser mais eficaz ao utilizarem os instrumentos disponibilizados pelas áreas das ciências humanas e sociais para operar estas mudanças.

Fonte: Assessoria de Comunicação da UFSM

Leave a Reply

Your email address will not be published.