
Palestras, seminários, passeios, shows, exposições. Criatividade, arte e fé. Todos esses ingredientes se misturaram e estiveram presentes nos mais de 700 eventos que estão fazendo parte das atividades da XI Semana Interamericana da Água e IV Semana Estadual da Água do Rio Grande do Sul que neste 2004 integra os eventos do Ano Estadual da Água. As atividades têm como foco principal a disseminação de informações e práticas de gestão das águas em um esforço de todas as entidades para marcar, com a participação da comunidade, os 10 anos de vigência da Lei 10.350, a Lei das Águas do Rio Grande do Sul.
A Semana teve como um dos eventos característicos a Romaria das Águas, uma procissão fluvial percorrendo trecho do Lago Guaíba levando a imagem de Nossa Senhora Aparecida. O ponto culminante da celebração é o culto ecumênico com a bênção das águas, trazidas de nascentes de todas as bacias hidrográficas do Estado.
Este evento, que oportuniza um contato mais estreito dos porto-alegrense com o Lago que banha a cidade, propicia também um forte lembrete do divórcio do Lago com a população que não pode aproveitar suas água para o lazer e a recreação de contato primário. E que o Guaíba está contaminado por causa da poluição ocasionada pelo despejo de esgotos sem tratamento de pelo menos metade dos mais 1 milhão de habitantes da capital gaúcha e de resíduos vindo através de seus afluentes que percorrem a Região Metropolitana.
Além disso, um enorme muro – construído há mais de 30 anos – bloqueia ainda mais este contato da cidade com seu lago e é uma testemunha em concreto de uma grande enchente que castigou Porto Alegre.
Essas lembranças e o lamento dos moradores da capital gaúcha estavam bem presentes entre os participantes da Romaria das Águas. Como dona Olívio Neves Rodrigues que com seus dois filhos esperava o final do cortejo religioso na prainha do Gasômetro. Ela, que sempre morou ali perto, lembrava os bons tempos em que aos sábados e domingo as famílias aproveitavam as águas refrescantes do Guaíba para amenizar o calor do verão.
“É incrível como nosso Lago tem sido matratado todos estes anos. Não é possível que uma cidade que se orgulha tanto de seus feitos não tenha encontrado uma solução para estes esgotos malcheirosos – essa língua negra – que o Arroio Dilúvio despeja no Guaíba” diz enquanto seu olhar reflete a tristeza de saber que seus filhos não podem usufruir desse lazer que povou sua infância.
“Fico admirada de que o saneamento e a educação ambiental não estejam entre as prioridades dos candidatos a prefeito” comenta a moradora ao apontar para os militantes que aproveitaram a aglomeração de pessoas e tentavam atrair a atenção para as enormes bandeiras que agitavam sem parar.
Ajuda aos santos

Outro que fez questão de dar sua opinião sobre a procissão e a beleza do Guaíba foi “seu” Hermes Passos enquanto reclamava muito da falta de consciência das pessoas que jogavam lixo no chão deixando um desagradável rastro ao final da celebração. “Como é que pode todo mundo rezar e falar sobre a importância da água e ao mesmo tempo estarem jogando essa sujeira toda na praia sabendo que isto vai parar dentro do lago” repetia desolado ao constatar que do pensamento à ação vai uma grande distância.
“Gosto de caminhar de manhã cedinho por aqui, mas fico muito triste de ver a quantidade de lixo que se forma ali na chegada do Arroio Dilúvio. E também no centro da cidade, que parece um quintal imundo. Depois tudo vem para dentro do Lago. Como ele vai resistir?” pergunta.
Caminhando de mãos dadas com o neto, Elvandro, seu Hermes – que sempre carrega um saquinho para colocar os copos usados, os papéis das balas e dos saquinhos de pipóca e outros alimentos que a criança vai comendo durante o passeio – elogia as escolas que vêm fazendo um excelente trabalho de educação ambiental. “Hoje as crianças podem dar lições na gente” observa lamentando que muitos adultos não saibam valorizar um patrimônio tão bonito como esse que os porto-alegrenses têm bem aos seu alcance.
“Deus nos deu uma paisagem maravilhosa e não estamos sabendo cuidar por isso precisamos mesmo da ajuda de todos os santos e religiões para ver se mudamos essa situação” diz enquanto aproveita para cantar junto com a procissão os cânticos de fé que relembram seus tempos de menino.
Lições de crianças
Desde as primeiras celebrações da Semana da Água as escolas foram parceiras das atividades incentivando os alunos a ampliarem seus conhecimentos sobre o mundo da água.
Neste 2004 muitas delas dedicaram esforço, tempo e espaço para atividades relacionadas com a Semana. Assim fizeram alunos, direção e professores do Colégio Farroupilha que promoveram uma exposição de trabalhos realizados pelas turma do Ensino Médio.
A água sob todos os ângulos, do religioso ao artístico, do científico ao tecnológico, da literatura à dança e à música, esteve presente na mostra inaugurada no último dia 14 no saguão da Escola.
E não faltaram danças e um jogral de criança pequenas que literalmente “puxaram as orelhas” dos mais velhos pelos maus tratos à água. Como bem ressaltou o diretor da escola, Roberto Py, trazer esse tema para o estudo e debate na escola faz parte da proposta de formar cidadãos conscientes que a instituição – um dos mais tradicionais colégios particulares do Rio Grande do Sul – vem perseguindo desde a sua fundação.

O recado da arte
Água – uma visão de múltiplos olhares é o título da exposição de artistas plásticos que integra a Semana da Água e que até 14 de novembro estará no Espaço Cultural Vasco Prado da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre.
A mostra reúne trabalhos de 33 artistas que usando as mais diferentes técnicas retrataram a água sob o olhar da arte.
Entre as peças o recado sensível dos artistas: seja um painel que simboliza a última braçada do banhista num mar de pets, ou o azul intenso de uma gota de água, o recado vibrante de uma torneira vermelha, entre dezenas de rostos brancos. Ou o alerta de uma pia batismal com um simples cartaz avisando que a água benta acabou.
Uma dica imperdível para quem puder mergulhar neste mundo fascinante da arte, de terça a domingo, das 9 h às 20h.

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