
Depois de uma intensa mobilização liderada pelo Fórum Nacional de Secretários Estaduais de Saneamento, que incluiu reuniões em Brasília e São Paulo, a Secretaria Nacional de Saneamento atendeu ao pedido de adiamento por 30 dias da remessa do anteprojeto sobre a Política Nacional de Saneamento ao Congresso. A proposta vinha sendo intensamente criticada por desconsiderar a atuação dos Estados que hoje são responsáveis, através das Companhias Estaduais de Saneamento, por mais de 70% do abastecimento de água no país.
O anúncio foi feito nesta segunda-feira (05/07) pelo secretário nacional de Saneamento, Abelardo de Oliveira Filho, durante o III Seminário Internacional Saneamento Ambiental e Resíduos Sólidos, promovido pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) em Salvador, (Bahia). O adiamento atende ao pedido feito pelo Fórum Nacional de Secretários Estaduais de Saneamento e demais entidades do setor. O presidente do Fórum, secretário Frederico Antunes, do Rio Grande do Sul, manifestou-se satisfeito com a notícia revelando que “do jeito que o texto estava não teria a concordância dos governadores o que complicaria o debate postergando as soluções”.
Antunes avalia que agora, com mais 30 dias para análise da proposta, as entidades representativas dos vários segmentos da área de Saneamento, entre as quais estão a ABES, a AESBE, a Assemae e o próprio Fórum, poderão corrigir as diversas imperfeições detectadas no anteprojeto. “Conseguimos demonstrar ao Governo federal que o texto piorava a situação dos serviços de saneamento e seria um verdadeiro retrocesso” disse o presidente do Fórum e acrescentou: “Agora construiremos sugestões de alterações que favoreçam um trabalho conjunto em direção à tão esperada universalização dos serviços”.
Durante as negociações desenvolvidas na semana passada ficou evidente que a maior parte das entidades do setor de Saneamento – entre elas o Fórum de Secretários de Saneamento, a associação das empresas estaduais, dos consultores, dos operadores privados e das indústrias de base, além de grande parte dos sindicatos de trabalhadores – tinham críticas à proposta do governo federal. A própria ABES havia endossado um pedido de adiamento por mais 30 dias da remessa para evitar um possível confronto no Congresso o que só prejudicaria o setor que está há mais de 20 anos sem uma legislação nacional.
Na avaliação dos integrantes do Fórum de Secretários e da maioria das entidades que atuam no Saneamento o modelo atual não deve ser esquecido e sim aperfeiçoado pois as companhias estaduais foram responsáveis pela sensível melhora dos índices do setor, sobretudo em abastecimento de água. “Jamais permitiremos que o papel das companhias de saneamento seja ignorado”, afirmou Frederico Antunes.
Já no próximo dia 08 de julho todas as entidades estarão juntamente com o governo federal, em Brasília, no seminário promovido pela Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara dos Deputados para analisar o anteprojeto. Segundo o presidente do Fórum de Secretários de Saneamento será ajustada uma agenda comum para que os futuros debates possam ser realizados em conjunto para recolher contribuições de todos os setores.
Sofisticação X pulverização
Durante o debate realizado no seminário do Projeto Brasil o jornalista Luis Nassif alertou também para uma aparente falta de sintonia entre a sofisticação das propostas apresentadas pela Caixa Econômica – com inúmeras alternativas de arranjos que permitiriam trazer dinheiro do mercado financeiro para investimentos em saneamento – e o que preconiza o anteprojeto do Ministério das Cidades ao propor a gestão pelos municípios ou consórcios, em substituição ao quadro atual, onde predominam as companhias estaduais, estruturadas como sociedades de economia mista, muitas delas, como a Sabesp, de São Paulo, com ações em Bolsa, inclusive no mercado internacional.
Para a Aesbe, entidade que congrega as empresas estaduais de Saneamento – responsáveis por mais de 70% do atendimento da população brasileira com abestecimento de água – ao contrário da cooperação entre os entes federados como preconiza a Constituição Federal “o que se vê no anteprojeto é o confronto”.
Para fortalecer a posição de que no abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto – que dependem de rede – há inúmeros sistemas integrados o palestrante da Aesbe exemplificou com os 756 municípios onde seria impossível separar a prestação de serviços e destacou a Grande São Paulo, com 39 municípios integrados e o semi-árido da Bahia com adutoras de mais de 700 km de extensão. “Na absoluta maioria destes municípios baianos a arrecadação com o fornecimento de água não paga sequer a tarifa de energia para o bombeamento da água” afirmou.
O argumento da Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental de que o anteprojeto foi aprovado pelo Conselho das Cidades e este seria um aval suficiente para o Governo Federal é rebatido pela Aesbe ao afirmar que dos 70 membros do referido Conselho 40 são do Governo Federal e somente 4 representam os interesses do setor.
Na avaliação da entidade, o anteprojeto remete a instâncias políticas (Conselhos municipais de Saneamento ou de Saúde) decisões cruciais para o setor. “É a glorificação do planejamento municipal” disse o assessor técnico da entidade, Marcos Thadeu Abicali, que prevê um caos jurídico pois fica facultado ao usuário não pagar a tarifa se ela for usada para cobrir um investimento não previsto no plano municipal de Saneamento. “Será que os municípios terão condições técnicas de elaborar esses planos se a maioria deles não tem nem mesmo Planos Diretores?”pergunta.
Fórum faz críticas contundentes

Regulação de um lado só
Humberto Junqueira de Farias, diretor-presidente da Cavo Serviços e Meio Ambiente, uma das primeiras empresas privadas a operar um sistema de saneamento no Brasil abordou a questão da regulação e criticou alguns dos dispositivos do anteprojeto que proíbem o corte do fornecimento por falta de pagamento. “É preciso resolver o problema daqueles que não têm condições de pagar a tarifa. Mas não se pode institucionalizar a inadimplência”, afirmou.
Em sua opinião regulação deve promover o equilíbrio entre o poder concedente, os usuários e a operadora. Por que somente as atividades da operadora devem ter regras, perguntou lembrando que o anteprojeto não prevê, por exemplo, a obrigatoriedade dos usuários de fazerem a ligação de suas casas às redes de esgoto. Este mesmo assunto foi abordado pelo presidente da Aesbe, Vitor Bertini, ao citar o exemplo da cidade gaúcha de Tapes onde a estação de tratamento de esgoto, um investimento de milhões de reais atende a apenas nove moradores que espontaneamente se ligaram à rede coletora e pagam a tarifa.
Também o presidente da Associação Brasileira dos Consultores em Engenharia (ABCE), Lineu Rodrigues Alonso, demonstrou preocupação com o impasse na falta de uma definição institucional para o saneamento. A entidade avalia ser muito difícil que a regulação possa ser feita em âmbito municipal como prevê o anteprojeto e sugere agências regionais ou estaduais. Também argumenta que a competência arbitral tem que ser do Poder Judiciário e não de Conselhos, cujo papel mais adequado seria de consulta e não deliberação.

Síntese
Para quem quiser relembrar os principais posicionamentos do setor e fazer uma análise mais aprofundada do impasse atual recomendamos a leitura da publicação Pensamento do Setor de Saneamento- clique aqui – que também pode ser encontrada no site do Sistema Nacional de Informação em Saneamento (SNIS): www.snis.gov.br


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