Os barões da água

Mark Sommer

A questão da água e de quem a controla passou a ocupar o centro do cenário dos negócios mundiais. Antes abundante, a água doce e potável é um recurso rigorosamente finito e cada vez más escasso. Exatamente a metade do 1% da água do mundo é doce, segura e aproveitável para o consumo humano. Cerca de 1 bilhão dos 6 bilhões de habitantes do planeta carecem atualmente de um acesso seguro à água potável e se estima que esta cifra triplique dentro dos próximos 25 anos.

Vários fatores estão contribuindo para que se produza esta crescente escassez: o incremento do uso intensivo da água por certas indústrias, os ineficazes métodos de irrigação, a desertificação, os múltiplos efeitos do aquecimento global e a contaminação química e orgânica.

A ameaçadora escassez de água tem atraído grandes corporações ávidas de lucro que esperam capitalizar a seu favor o ascendente valor do recurso mediante a privatização e o subseqüente aumento das tarifas pelo abastecimento de água potável.

A corrida ao ouro líquido está sendo conduzida por três corporações

européias: Suez, Vivendi e RWE que, através de subsidiárias nacionais, dominam agora o mercado mundial privado da água.

Tendo recorrido com êxito a grupos de pressão na Organização Mundial do Comércio (OMC) e outras instituições internacionais para estabelecer condições altamente favoráveis à privatização de sistemas municipais operados por empresas públicas, estes chamados “barões da água” estão de olho em grandes mas deteriorados sistemas públicos nas mega-cidades do mundo em desenvolvimento onde acreditam poder operar rápidas melhorias e ganhos crescentes.

Será a água uma matéria-prima como o petróleo ou o gás que pode ser comprada ou vendida no livre mercado à melhor oferta?

Ou é um recurso tão essencial que deveria ser dada ao menos uma mínima concessão de seu uso a todas as pessoas como reconhecimento de seu direito à sobrevivência?

Em uma ordem mundial capitalista é senso comum comercial a busca do lucro onde a demanda e a escassez fazem com que os preços subam vertiginosamente, deixando ao desamparo aqueles que não podem pagar.

Mas não há substitutos para a água. Privar 1/3 da população do planeta de acesso à água equivale a sentenciar a essa porção da humanidade a morrer lentamente por causa de privações e doenças.

Mas os impactos provocados pela falta de água potável não atingem, só os que carecem do recurso. Sem isto é impossível a higiene básica e, em uma economia globalizada, as enfermidades originadas nas fontes contaminadas por águas residuais em cidades asiáticas e africanas se propagariam por todo o mundo.

A luta pelo controle da água mundial pode mudar o curso da história humana. As comunidades estão reagindo diante das ameaças de expropriação de seu recurso mais essencial e redescobrindo o significado do objetivo comum. Nós pertencemos à água e a água pertence a todos nós.

Autor

O autor dirige o Mainstream Media Project, com sede nos Estados Unidos. O artigo foi publicado originalmente na Tierramérica.

Guerra da água

A mais famosa até agora das “guerras da água” ocorreu em 2000 na cidade boliviana de Cochabamba. Ali, uma coalizão de camponeses e habitantes de zonas urbanas marginais foi às ruas, enfrentou uma chuva de balas do exército boliviano e forçou o cancelamento de um contrato com a corporação estado-unidense Bechtel, que havia triplicado as tarifas de fornecimento de água e reclamou a propriedade das fontes, mananciais e rios que são um patrimônio comum há milhares de anos.

Agora, as autoridades da cidade estão administrando de novo o sistema de água e lutam por mantê-lo com seus escassos recursos.

O fracasso na Argentina

O projeto-piloto devia ser Buenos Aires. Ao obter 97% dos cerca de US$ 1 bilhão investidos na operação de fundos públicos administrados pelo Banco Mundial e outras instituições financeiras na metade da década de 90, Suez estendeu o serviço de forma limitada e teve ganhos de 25% ao ano. Mas fracassou nos demais objetivos projetados e há pouco anunciou a intenção se retirar da Argentina, pondo a culpa na crise monetária do país pela redução de seus ganhos. Planos similares de privatização deram errado em Johannesburgo, Nova Delhi e Manila, assim como em cidades do Primeiro Mundo como Atlanta e New Orleans.

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