As Imagens da Água no Romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

João Batista Santiago Sobrinho

Perto de muita água tudo é feliz”. João Guimarães Rosa

“As imagens de água, nós as vivemos ainda, vivemo-las sinteticamente em sua complexidade primordial, dando-lhes muitas vezes nossa adesão irracional”. Gaston Bachelard.

Na narrativa rosiana há, em vários instantes, uma força hídrica “imaginante” dando unidade a uma quantidade enorme de imagens. Para desvelarmos estas imagens no romance GSV utilizamos o conceito de matéria do filósofo e ensaísta francês Gaston Bachelard que, por sua vez, elabora seu conceito a partir dos filósofos pré-socráticos, os quais “associavam a seus princípios formais um dos quatro elementos fundamentais, que se tornavam assim marcas de temperamentos filosóficos”. Para Tales esse “elemento”, essa matéria era a água. Para Heráclito era o fogo. Achamos que um dos elementos mais importantes no temperamento literário rosiano é a água.

Bachelard irá desenvolver sua teoria começando com o livro Psicanálise do fogo e, logo em seguida, desenvolve e publica o livro A água e os sonhos, o qual ele chama também de “um ensaio sobre a imaginação e a matéria”. Este ensaio tornou-se basilar na análise que desenvolvemos. Também lançamos mão de autores como o estudioso das religiões Mircea Eliade, e o antropólogo Girbert Durand, discípulo de Bachelard, e de todo um escopo da crítica literária, que vai desde o clássico, Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido, à crítica literária mais recente.

De Antonio Candido utilizamos a expressão “vocação ecológica do romance brasileiro” com o objetivo de vincular o romance GSV nesta “vocação ecológica” notadamente enfatizada pelo crítico. Estendemos esta tradição da “vocação ecológica” a alguns escritores contemporâneos como, João Cabral de Melo Neto, Antônio Callado, Moacyr Scliar, Milton Hatoum, Manoel de Barros etc, nos quais a referência às águas se destacam. Ainda no que diz respeito à crítica literária, esta irá utilizar inúmeros qualificadores hídricos para referir-se à natureza singular da narrativa rosiana. Bachelard, em seu livro A água e os sonhos afirma que a matéria água “proporciona um tipo de sintaxe”. É com este apoio que descortinamos no imaginário literário rosiano, os aspectos geográficos, simbólicos e metafísicos, contidos nas imagens da água no romance Grande Sertão: Veredas.

No entanto nosso estudo termina por localizar referências hídricas em toda a obra rosiana. O que apresentamos de novo, é que deslocamos definitivamente, a análise das águas rosianas das questões geográficas para as dimensões simbólicas e metafísicas, inserindo o romance, por mais este viés, na emergência das questões contemporâneas, como uma espécie memorial hídrico do sertão. Conseguimos, dessa maneira, dinamizar a questão das águas no romance para além dos evidentes, múltiplos, caudais dos rios.

Observamos que há uma rede hídrica comportando não só as águas explícitas, como também outras imagens, menos evidentes, que se encontram simbolicamente ligadas às águas, como, por exemplo, o cavalo, a lua, o peixe, o jacaré, o sapo, a vaca, o boi, o touro etc. A esses elementos chamamos, por intermédio de uma expressão de Bachelard, de “ressoadores” líquidos.

A trajetória de Riobaldo é marcada pelas águas, nas quais os apelos simbólicos remetem a culturas locais e distantes. Na beira do rio, Riobaldo surge ainda menino e muito pobre. Ele lembra que tinha vindo “do sertãozinho de minha terra  baixo da ponta da Serra das Maravilhas, no entre essa e a Serra dos Alegres, tapera de um sítio dito do Caramujo, atrás das fontes do Verde, o Verde, que verte no Paracatu”(1).

O caramujo ou caracol apresenta-se, nesse momento, como um ressoador líquido, trata-se de um símbolo lunar, portanto ligado à água de nascimento e de fecundidade, a qual “entre os astecas simbolizava comumente a concepção, a gravidez, o parto” (2). e na “África do norte (…) participa do elemento úmido e só sai da terra, como costumam dizer os homens do campo, depois da chuva”(3) . E a fonte do “Verde” lembra-nos que, na antiguidade, “a fonte dos rios era, aliás, considerada a vagina da Terra” (4).

Logo em seguida às referências ao local de seu nascimento, aparece o vocábulo “Bagre”, como nome de cidade que não existe mais; trata-se ainda do nome de um peixe, o qual segundo Chevalier Gheerbrant é “símbolo das águas, cavalgadura de Varuna, o peixe está associado ao nascimento ou à restauração cíclica”. Riobaldo envolve o seu nascimento de imagens de água. Um nascimento como o dele é marcado pelos símbolos da lua, do peixe, da mulher e da água, conjunto que tem sido percebido, segundo Mircea Eliade, como o circuito antropocósmico da fecundidade: “A aspiral, o caracol (emblema lunar), a mulher, o peixe pertencem constitucionalmente ao mesmo simbolismo de fecundidade, verificável em todos os planos cósmicos”.

Analisamos também as presenças da chuva, do orvalho, da saliva, a areia, o mar, o mel, o chumbo, as presenças femininas. A água é definida muitas vezes por sua feminilidade e fecundidade. Ao analisarmos as imagens no romance GSV temos sempre em mente que o “sertão é o mundo” e um mundo “misturado”. Para analisarmos a figura feminina e as águas elaboramos um capítulo, o qual chamamos “Lembrares e sustâncias”, no qual compreendemos a importância da mãe, a Bigri, tão sucintamente narrada no romance. Compreendemos finalmente que sua profundidade ressoa em cada imagem de água no romance.

Assim, analisando o percurso hídrico de Riobaldo, entendemos que ele é uma espécie de “gênio serpente”, encarnado pelo chefe Urutu-Branco, “cobra voadeira”, cuja sina é a mesma das águas. Sobre o “gênio serpente” afirma Mircea Eliade:

Os gênios serpentes não residem sempre nos oceanos e nos mares, mas também nos lagos, nos poços, nas nascentes. Os cultos das serpentes e dos gênios serpentes, na Índia e em outras regiões, mantêm, em todos os conjuntos em que se encontram esta ligação mágico-religiosa com as águas. Uma serpente ou um gênio serpente encontra-se sempre nas imediações das águas ou estas são reguladas por eles.

Assim esperamos, neste texto, ter demonstrado a importância das imagens dá água, por intermédio do conceito de matéria, extraído na obra de Bachelard, para a compreensão do romance GSV.

Notas de rodapé

(1)Rosa, 1985a, p. 39.

(2)Chevalier; Gheerbrant, 1999, p. 186.

(3)Chevalier; Gheerbrant, 1999, p. 186.

(4)Eliade, s./d. p. 34.

Presenças marcantes

Desde o nome do romance pode-se notar a relevância da água. A palavra “veredas” comporta, na maneira como o próprio Guimarães Rosa a explica ao tradutor italiano Edoardo Bizzarri, muito mais a acepção de água, do que a de caminho. A tensão entre a vereda e o sertão, a água e a terra, são exploradas de várias formas dentro do romance. O próprio Riobaldo dirá a certa altura “sertão é a água, a terra”. Lembramos que para alguns autores a palavra sertão teria origem na palavra desertão. No entanto estamos certos, após o desenvolvimento de nosso trabalho, que, uma das matérias poéticas mais relevantes para compreensão do sertão é a matéria água.

Nota-se na introdução do romance as presenças marcantes dos rios Urucuia (rio que Riobaldo mais ama) e do São Francisco, (segundo Antonio Candido “eixo líquido do sertão”) interligados de certa maneira pelas imagens de água menos exuberantes como, por exemplo “o baixo do córrego” e a “Vereda da Vaca Mansa de Santa Rita”. A lógica do romance não nos permite dispensar nenhuma imagem de água, por mais implícita que ela seja. Estas imagens do ponto de vista geográfico servem para compensar o caos temporal em que se desenvolve a narrativa riobaldiana. E atende à própria lógica rosiana cujo espaço, no qual se desenvolvem suas narrativas, é sempre movediço.

Quase todos os referenciais geográficos são difundidos pela água: córregos, veredas, riachinhos, poços, rios, salivas, buritis etc. Vão sendo distribuídos com o intuito de marcar a passagem de Riobaldo pelo sertão. Toda obra rosiana, como numa espécie de procedimento literário, é rica em imagens de água, desde Sagarana (primeiro livro, editado em 1946), até Ave Palavra (livro póstumo), neste último o capítulo final, “jardins de riachinhos”, é dedicado a um riachinho. Este riachinho é recorrente na obra rosiana. Ele morre e nasce, por um artifício poético, no conto “Manuelzão uma estória de amor”. Em GSV o riachinho fala com Riobaldo, obriga-o a parar, dá bênção e antecipa, por intermédio do sono e sonho de Riobaldo o pacto com o demônio.

Referências bibliográficas

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

BATISTA SANTIAGO, João Sobrinho. Imagens da água no romance Grande Sertão: veredas de João Guimarães Rosa. Belo Horizonte. Dissertação de Mestrado. UFMG, 2003.

ELIADE, Mircea. Ferreiros e Alquimistas. Lisboa: Relógio Dágua, s/d.

ELIADE, Mircea. Tratado de história das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985a.

ROSA, João Guimarães. J. Guimarães Rosa correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri. São Paulo: Instituto Cultural Ítalo Brasileiro, 1981.

Autor

João Batista Santiago Sobrinho

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