O Engajamento da Religião na Busca de um Mundo Sustentável

Excerto do capítulo 8 do Livro o Estado do Mundo em 2003.

Gary Gardner

Quando o debate sobre a exploração de petróleo no Refúgio Nacional Ártico de Vida Selvagem (RAVS) se intensificou, no início de 2002, um anúncio curioso apareceu na televisão. Sobre imagens magníficas de litorais, florestas e montanhas, o locutor entoa uma prece judaica onde Deus fala: “Este é um lindo mundo que lhes dei. Cuidem dele; não o arruínem”. O anúncio segue argumentando contra a exploração na RAVS e propõe que as necessidades energéticas dos Estados Unidos sejam atendidas através de conservação, padrões mais elevados de eficiência de combustíveis e maior uso da energia solar e eólica. Talvez a declaração mais arrebatadora tenha sido a última: “Patrocinado pelo Sierra Club e pelo Conselho Nacional de Igrejas.”

A união de uma proeminente organização ambientalista a uma coalizão das principais igrejas Cristãs é extraordinária, considerando o contato limitado que os ambientalistas têm mantido com religiosos desde o início do movimento ambientalista moderno. Não obstante, pode significar uma tendência emergente.

Tradições espirituais – desde grandes religiões centralizadas até autoridades espirituais tribais locais – estão começando a dedicar esforços para o que alguns vêem como o desafio definidor de nossa era: a necessidade de construir sociedades justas e ambientalmente saudáveis.

Mundialmente, as principais religiões estão emitindo declarações, reivindicando novas políticas nacionais e desenvolvendo atividades educacionais em apoio a um mundo sustentável – às vezes em parcerias com organizações seculares, como a do Sierra Club, e às vezes individualmente. Respondendo à crise global, tradições menores estão revigorando rituais e práticas antigas em prol da sustentabilidade.

O aceleramento do interesse religioso nas questões ambientais indica que um novo e poderoso alinhamento político pode estar emergindo, podendo proporcionar um fortalecimento significativo ao esforço de construção de um mundo sustentável.

A florescente aproximação entre grupos religiosos e ambientalistas poderia ter um significado histórico. Caso floresça, ajudará resolver a secular dissensão no Ocidente entre a religião e as ciências (inclusive a economia e outras ciências sociais). Estas duas correntes de pensamento divergem com a ciência desde o iluminismo europeu, substituindo gradativamente a religião como a fonte autorizada para algumas das maiores questões da humanidade, como a formação do universo. Neste processo, entretanto, o foco científico ao escrever uma história objetiva do “que é” foi alcançado, em grande parte, sem consulta à história emotiva do “que poderia ser,”uma força tradicional da religião.

No Século XX, as sociedades industrializadas, particularmente, foram fortemente orientadas para o cognitivo, racional e lógico, com conseqüências devastadoras: a ciência, sem compromisso com a ética (seja religiosa ou qualquer outra) contribuiu para o século mais violento e mais ambientalmente danoso da história da humanidade.

O desafio para a nossa civilização é reintegrar nossos corações e mentes sociais, restabelecendo a espiritualidade como parceira num diálogo com a ciência. Para tal, os dois grupos precisarão superar a suspeita e as dissensões que as mantiveram à distância durante pelo menos 40 anos.

O passado matizado do envolvimento religioso na sociedade – múltiplos episódios de guerra, opressão, intolerância e hipocrisia – é comumente citado por ambientalistas como razão para evitar o engajamento à religião, mesmo entre aqueles que reconhecem o desprendimento e defesa intensa de pessoas marginalizadas que compõem grande parte da história da religião. Reconhecendo suas falhas, a comunidade religiosa pode, com todo o direito, afirmar sua enorme capacidade para auto-aprimoramento.

Ao mesmo tempo, a comunidade ambiental tem freqüentemente alienado aliados potenciais com o que se pode chamar de indiferença científica ou, até mesmo, presunção. Sua abordagem, tipo “hemisfério esquerdo do cérebro”, ao seu trabalho tem parte da culpa pela sua incapacidade de comunicação com as pessoas, de inspirar dedicação profunda em larga escala.

Dado o foco central da cultura no desenvolvimento nacional – e o foco central da religião na maioria das culturas – um mundo sustentável não poderá ser criado, efetivamente, sem um pleno engajamento do espírito humano.

Mas, através de um grande esforço, as duas comunidades poderão realizar uma reconciliação histórica e gerar a energia social necessária para sustentar o planeta e sua população

Legião de seguidores

Voltando a uma contribuição mais mundana, uma terceira fonte de poder das religiões é o gigantesco número de seguidores que alegam ter. Embora só haja estimativas, parece que aproximadamente 80-90% da população do planeta pertencem a uma das cerca de 10.000 religiões, com mais ou menos 150 dessas crenças religiosas dispondo de, no mínimo, um milhão de seguidores cada. Fiéis das três maiores – Cristianismo, Islamismo e Hinduismo – representam cerca de dois terços da população global, hoje. Outros 20% da população mundial devotam-se às religiões remanescentes, com aproximadamente 15 porcento de ateus.

A quarta contribuição que muitas religiões podem dar é proporcionar substanciais recursos físicos e financeiros. Só as propriedades imobiliárias já são impressionantes. A Aliança de Religiões e Conservações (ARC), uma ONG sediada no Reino Unido, calcula que as religiões possuem 7% da área habitável do planeta. E prédios são abundantes: o Paquistão tem uma mesquita para cada 30 famílias; os Estados Unidos, um local de culto para cada 900 habitantes. Além disso, clínicas, escolas, orfanatos e outras instituições sociais, administradas pelas religiões, proporcionam às organizações religiosas uma rede de oportunidades para realizar iniciativas desenvolvimentistas.

Uma grande parcela das escolas é dirigida por religiões, especialmente nos países em desenvolvimento. Clínicas confucianas e védicas podem dar contribuições religiosas importantes aos sistemas de saúde da China e da Índia. E nos Estados Unidos, o maior prestador de serviços sociais, depois do governo federal, é a Igreja Católica.

Embora as manchetes exponham constantemente o uso pouco ético da riqueza religiosa, alguns casos exemplares ilustram o impacto que as instituições religiosas podem causar na ajuda para encorajar o mundo em direção à sustentabilidade. Nos Estados Unidos, o ICCR (Centro Ecumênico de Responsabilidade Corporativa), representando 275 investidores institucionais protestantes, católicos e judeus, tem se destacado há mais de três décadas na liderança de um movimento para determinar políticas operacionais corporativas, através do uso de resoluções de políticas sociais, aprovadas em reuniões de acionistas.

Mais da metade dessas resoluções nos Estados Unidos nos últimos três anos foram ratificadas ou co-ratificadas por grupos religiosos; em mais de um terço delas, grupos religiosos se destacaram. Este desempenho chamou a atenção de ativistas seculares em responsabilidade corporativa. “Uma das primeiras coisas que fazemos ao iniciar uma campanha é assegurar a adesão do ICCR,” declara Tracey Rembert, da Rede de Ação de Acionistas, que advoga investimento ético e ação de acionistas.

Consumo Ético

As religiões há muito demonstram um forte interesse em restringir o consumo, embora por razões muito diferentes das preocupações dos ambientalistas. O argumento ecológico contra o excesso do consumo – que o crescimento populacional, níveis cada vez maiores de consumo individual e uso único de materiais, combinaram para exaurir estoques de matérias primas e degradar ecossistemas – é sólido e bem fundamentado. Mas, as tradições religiosas ampliam a discussão ao citar o efeito corrosivo do consumo excessivo, não apenas sobre o meio ambiente, mas também sobre o desenvolvimento do caráter, tanto dos indivíduos como das sociedades.

A vida simples, ensina muitas religiões, libera recursos para os mais carentes e liberta o espírito humano para cultivar relações com o próximo, com o mundo natural e com o mundo dos espíritos. A adição deste argumento social e espiritual em prol da moderação, ao mais novo argumento ecológico, gera uma forte defesa da simplicidade e situa o consumo mais claramente numa concepção abrangente do que é ser uma pessoa desenvolvida e uma sociedade desenvolvida.42

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) estimou em 1995 que uma melhoria da eficiência energética nos 269.000 estabelecimentos religiosos do país – que representam cerca de 5% da área útil de prédios comerciais nos Estados Unidos – evitaria que 6 milhões de toneladas de dióxido de carbono fossem liberadas na atmosfera e, ao mesmo tempo, representaria uma economia de mais de US$ 500 milhões às congregações.

A economia de carbono seria apenas uma minúscula fração das emissões de carbono nos Estados Unidos, mas o retorno efetivo viria do alistamento do apoio da congregação a atividades conservacionistas semelhantes, em seus lares. Entre as 12 categorias de prédios comerciais estabelecidas pelo Departamento de Energia e utilizadas na pesquisa da EPA, os prédios comerciais são visitados por mais adultos e com maior freqüência do que os locais de culto.

Na realidade, os 44% da população americana que freqüenta igrejas, sinagogas ou mesquitas, pelo menos uma vez por mês, representam um grupo potencial significativo de novos adeptos à eficiência energética e fontes de energia verde, especialmente se os esforços para verdejar a igreja forem acompanhados por outros esforços para aumentar a conscientização entre os fiéis, como no programa EP&L.

Equal Exchange reconheceu que sua abordagem ética ao café podia ser atraente para os religiosos. Sabiam, também, que muitos americanos vão regularmente à igreja e que alguns deles participam de um “café,” após os cultos. Assim, instituíram seu Programa de Café Ecumênico, para encorajar congregações e indivíduos a mudarem para o café do “preço justo.” Iniciado em 1997, em parceria com a agência de ajuda Lutheran World Relief, o programa hoje inclui o Comitê de Serviço dos Amigos Americanos, a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos e o Comitê de Serviços Universalistas Unitarianos.

Embora pequeno, cresceu rapidamente: mais de 3.500 congregações participaram no final de 2001, pouco mais de 1% de todos os estabelecimentos religiosos nos Estados Unidos, mas consideravelmente maior do que o punhado de pessoas com o qual o programa iniciou. O Programa Ecumênico é o segmento de maior crescimento dos negócios da Equal Exchange, representando hoje 11% do faturamento da empresa.

Da mesma forma que com a energia verde, o potencial para as pessoas de fé mudarem seus padrões de consumo de café é gigantesco. Café é a segunda bebida mais amplamente consumida nos Estados Unidos, e seu consumo ético requer pouco ou nenhum sacrifício. Todavia, tomar o café de “preço justo” propicia grande satisfação pessoal – é “tomar uma xícara de justiça,”nas palavras de um participante do Café Ecumênico Luterano. Com 99% do mercado religioso institucional inexplorado, o programa poderá causar um grande impacto no mercado norte-americano de café caso os grupos religiosos nacionais aderissem – e caso as congregações participantes fossem persuadidas a levar o novo hábito para casa.

O programa de café oferece oportunidades extensas para educar as congregações numa gama de questões sociais, desde as condições de comércio no mercado internacional, até o valor da agricultura cooperativa e orgânica. Pode ajudar religiosos que há muito prestam apoio a programas de ajuda, a ampliarem seus esforços além da caridade e em direção à justiça. Percebendo este quadro maior, um participante observou que “nossos dólares de consumo estão prejudicando as próprias pessoas que nossos dólares de caridade estão tentando ajudar”. Esta conscientização emergente pode disparar um “ciclo virtuoso,” à medida que consumidores comecem a analisar os efeitos de outros padrões de consumo sobre pessoas e locais distantes.

Outra área com potencial de alta alavancagem para a introdução da ética nas decisões econômicas, é a de investimentos financeiros. Como observado anteriormente, as instituições religiosas já estão ativas em responsabilizar as corporações por suas práticas, através do uso de resoluções de acionistas. Esta conscientização, estendida a pessoas religiosas, poderá causar um efeito significativo nos padrões de investimento. Investimentos socialmente responsáveis (ISR) representaram apenas 12% de todos os investimentos em 2000. Campanhas religiosas para persuadir os 44% dos norte-americanos que freqüentam cultos religiosos pelo menos uma vez por mês, a mudarem seus dólares de investimento para ISR, poderão proporcionar um incremento substancial ao movimento.O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), por exemplo, vem publicando relatórios sobre religiões e o meio ambiente desde 1991. Tem orientado e prestado apoio à Parceria Ecumênica para o Meio Ambiente, um grupo de acadêmicos de várias denominações religiosas, em vários projetos, inclusive a publicação de um livro descrevendo a postura das principais religiões para com o meio ambiente.

O Banco Mundial vem realizando grandes reuniões ecumênicas sobre questões de desenvolvimento, desde 1998, das quais surgiu o Diálogo das Religiões Mundiais sobre o Desenvolvimento, que aumentou o insumo religioso ao trabalho do Banco. No lado religioso, o Programa da Mudança Climática do Conselho Mundial das Igrejas foi instituído em 1988 para realizar lobby junto a governos e organizações internacionais, em prol de políticas de combate à mudança climática.

O educador ambiental David Orr desafia os cientistas (inclusive ambientalistas) a mesclarem emoção no seu trabalho. Ele observa que a maioria dos biólogos e ecólogos “acredita que racionalidade fria, objetividade destemida e um pouco de tecnologia” retirarão a humanidade da sua difícil situação ambiental. Mas essas ferramentas já vêm sendo utilizadas há muito tempo, com muito pouco sucesso. O que falta, afirma Orr sem desembaraço, é amor. “Por que é tão difícil falar sobre amor, a mais poderosa das emoções humanas, em relação à ciência, a mais poderosa e mais abrangente das atividades humanas?” Orr indaga. Ele observa que a paixão e a boa ciência, longe de serem antiéticas, são tão interdependentes como o coração e a mente. Ambas são necessárias para que possamos entender plenamente nosso mundo e nosso papel nele.

Os ambientalistas podem ajudar a infundir um sentido de emoção em seu trabalho, retornando às próprias raízes do movimento. Embora seja uma voz solitária hoje, textos ambientais apaixonados eram outrora comuns aos conservacionistas. Vejamos o que escreveu John Muir, fundador do Sierra Club: “Pousado como uma mosca neste domo do Yosemite, vejo, desenho e me deleito…humildemente prostrado ante a imensa visão do poder de Deus, ansiando oferecer abnegação e renúncia numa labuta eterna para aprender qualquer lição do manuscrito divino.” Esta prosa atinge as pessoas de forma diferente do que aquela que trata de análise e estatística – a linguagem necessária embora limitada do ambientalismo moderno – e motiva de uma maneira que a ciência não consegue.

Ao combinar suas habilidades substanciais e perspectivas complementares, ambientalistas e religiosos podem ajudar a reunificar o coração e mente da nossa civilização, re-engajando a religião na busca de uma nova cosmologia, uma nova visão de mundo do nosso tempo…

Fonte: Estado do Mundo 2003 é uma publicação do WWI-Worldwatch InstituteUMA-Universidade Livre da Mata Atlântica – www.wwiuma.org.br

O Poder Potencial da Religião Engajada

Instituições e líderes religiosos podem dar, no mínimo, cinco grandes contribuições ao esforço de criação de um mundo sustentável:

a capacidade de formar cosmologias (visão de mundo),

autoridade moral,

uma base ampla de seguidores,

recursos materiais significativos e

capacidade de desenvolvimento comunitário.

As religiões têm experiência em embasar nossa visão das questões de importância absoluta. Sabem como inspirar pessoas e como exercer autoridade moral. Muitas dispõem de força política associada à uma base ampla de seguidores. Algumas têm grandes posses imobiliárias e recursos financeiros. E a maioria cria fortes laços comunitários ao gerar recursos sociais como confiança e cooperação, que podem proporcionar um incremento forte ao desenvolvimento comunitário. Muitos movimentos políticos acolheriam qualquer uma dessas cinco contribuições. Ser dotada da maioria ou de todas elas, como muitas religiões são, é deter um poder político considerável.

Realmente, a religião é uma fonte importante de mudança interna das pessoas e de todas as sociedades. O historiador cultural Thomas Berry vê a religião como uma das principais forças sociais de mudança no mundo, juntamente com a educação, comércio e governo.

E um livro didático recente sobre psicologia e meio ambiente natural elenca a religião como uma das quatro principais fontes de mudança no comportamento individual, através da história.

De fato, as grandes mudanças sociais nas últimas décadas sustentam essas afirmações. A revolução da Nicarágua (com forte apoio dos defensores da “teologia da libertação”), o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, liderado pelo Pastor Martin Luther King e energizado por milhares de religiosos, e a revolução xiita do Irã são apenas algumas mudanças em nível social do Século XX que foram influenciadas ou lideradas por instituições religiosas ou fiéis.

Enquanto isso, o boicote global aos produtos da Nestlé nos anos 70, em resposta ao seu marketing agressivo do alimento para bebês, é um exemplo de mudança de comportamento individual (consumidor) fortemente influenciada por grupos religiosos.

A primeira contribuição importante proporcionada pela religião para a mudança social é a capacidade de dar significado à vida individual, ao formar a cosmologia da pessoa – a base filosófica fundamental a partir da qual uma pessoa conduz sua vida. Uma cosmologia oferece respostas às perguntas mais profundas dos seres humanos: Quem sou eu? Por que estou aqui? Quais são minhas obrigações perante o mundo?

As cosmologias são caracteristicamente expressas sob a forma de histórias – instrumentos de comunicação que podem engajar as pessoas em níveis profundos e afetivos. As histórias da criação segundo muitas tradições religiosas, por exemplo, proporcionam meios de interpretar não apenas a origem do universo, como também o lugar e propósito das pessoas nele. Assim, as cosmologias geram ética ao ajudar as pessoas a entenderem sua relação uma com as outras e, em algumas tradições, sua relação com o mundo natural. A capacidade de influenciar a cosmologia, portanto, se traduz na influência sobre a ética e, por sua vez, sobre o comportamento.

A capacidade da religião proporcionar sentido está profundamente enraizada no psique humano. Esta capacidade é expressa freqüentemente através de símbolos, rituais, mitos e outras práticas que funcionam em nível da emoção. Eles falam para nós de um local primacial, um local que “conhecemos” subconscientemente.

Rituais, por exemplo – padrões repetidos de atividade que carregam significados freqüentemente indefiníveis da experiência humana – são uma forma profunda de comunicação explorada tanto por líderes religiosos como por seculares. Um presidente ou primeiro-ministro cantando o hino nacional num evento esportivo, mão sobre o coração, está engajado num forte comportamento ritualístico que se comunica de forma profunda com seus compatriotas. Devido às tradições religiosas e espirituais precisarem de ferramentas para expressar conceitos espirituais, muito além do poder de comunicação da linguagem, durante milênios usaram os recursos dos rituais.

Emergindo da capacidade da religião de determinar uma visão de mundo surge a segunda contribuição: a capacidade de inspirar e exercer autoridade moral. Esta contribuição é sutil, facilmente ignorada. Perguntado em 1935 se o Papa poderia se tornar um aliado da União Soviética, atribui-se a Josef Stalin a resposta desdenhosa: “O Papa? De quantas divisões ele dispõe?” A resposta do ditador revela uma pobre compreensão do poder que pessoas e organizações, especializadas em apelar às profundezas do espírito humano, adquirem. Ironicamente, a influência pontifical exercida durante o movimento Solidariedade na Polônia, no início dos anos 80, foi um fator importante no colapso posterior do regime comunista na Europa Oriental.

Igualmente, o Dalai Lama afeta fortemente a política chinesa para o Tibet, embora tenha vivido em exílio desde 1959. Carisma e persuasão moral não são atributos exclusivos de líderes religiosos, porém líderes religiosos têm experiência extensa em assuntos espirituais e entendem muito bem o poder inerente em tocar pessoas em nível de espírito.

O meio ambiente como solo sagrado

Rituais, como observado anteriormente, são fundamentais na regulação do uso das árvores, rios e outros recursos entre povos indígenas e poderiam, sem dúvida, ser adaptados a outras culturas. De uma forma mais ampla, os valores que determinam nossa visão da natureza “vêm principalmente de visões de mundo religiosas e práticas éticas,” conforme Mary Evelyn Tucker e John Grim, do Fórum sobre Religião e Ecologia do Centro para o Meio Ambiente, da Universidade de Harvard.

Dado o poder da religião de moldar nossa visão da natureza, os ensinamentos religiosos sobre o mundo natural nesta era poderão influenciar a forma mais rápida ou mais fácil do mundo fazer a transição para economias sustentáveis. O crescente interesse religioso na ética e práticas ambientais sugere que as religiões mundiais começam a aplicar seus volumosos bens para avançar sua função educadora.30

Consideremos, por exemplo, as várias declarações de líderes religiosos nos últimos anos em prol do meio ambiente. O Dalai Lama fez da proteção ambiental o tema de inúmeras declarações importantes, desde meados dos anos 80 – inclusive vários discursos na Eco-92 – e a proteção ambiental é um dos cinco pontos do seu plano de paz para o Tibet. O Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, líder simbólico dos 250 milhões de fiéis da Igreja Ortodoxa, tem se destacado em reunir cientistas e líderes religiosos para o estudo de questões ambientais relacionadas à água. E o Papa João Paulo II fez importantes pronunciamentos ambientais em 1990 e 2001, e uma declaração conjunta com o Patriarca Bartolomeu I, em junho de 2002.

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