Reserva-chave de água é cidadela guerrilheira

María Isabel García (Tierramérica)

BOGOTA, oct (Tierramérica) Estudos hidrométricos prognosticam que a capital colombiana poderia sofrer desabastecimento de água em 2015 e indicam como reserva estratégica a localidade de Sumapaz, centro das insurgentes Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Esse local, na cordilheira oriental andina, é a nascente de rios que drenam para as bacias do Orenoco, no leste, e para o Atlântico, no norte, e uma das cinco áreas do sistema hidrográfico colombiano das quais saem, em forma de estrela, cursos fluviais em várias direções.

Na região andina essa localidade se chama de páramo que designa os ecossistemas de pastos frios situados imediatamente abaixo do limite das

neves perpétuas, e o páramo de Sumapaz é o maior deles.

O Parque Natural que abarca esse páramo tem uma extensão de 145 mil hectares e se conecta a Bogotá através dos departamentos de Meta e Huila, localizados ao sul.A preocupação em retirar o controle de Sumapaz das FARC, em atividade armada há 39 anos, vem de décadas atrás e ganhou impulso com os últimos comícios.

“Se a guerra matar o páramo, a água se esgota e Bogotá morre de sede”, afirmou José Cuesta, candidato Independente ao Conselho da capital.Como parte de sua campanha, Cuesta acampou nos limites de Sumapaz no dia 4 de outubro, Dia

Interamericano da Água.

O ex-ministro de Desenvolvimento e candidato a prefeito Eduardo Pizano, do Movimento Bogotá Viva, disse que em caso de vitória “fechará” a rodovia construída em 2000 pelas FARC como corredor de comunicação entre a cordilheira e a zona oriental.

“O uso mais racional da água de parte dos moradores de Bogotá e, em parte, o aumento nas tarifas do serviço reduziram sensivelmente a demanda”, disse à Tierramérica Armando Vargas, assessor da Direção de Água Potável e Esgotamento Sanitário do Ministério do Meio Ambiente, Habitação e Desenvolvimento Territorial.

Vargas é menos apocalíptico do que os políticos, embora não descarte uma eventual devastação do ecossistema do páramo pela ameaça de cultivos ilícitos de coca e papoula, como fontes militares asseveram que já acontece em Sumapaz.

Desde a metade do século XX, os técnicos da empresa de água de Bogotá deveriam ter se reunido com o guerrilheiro Juan de la Cruz Varela para obter a permissão para passagem de comissões de especialistas para inspecionar a zona, disse Vargas. Já em 1933, uma missão inglesa assessorou os especialistas da municipalidade na realização de estudos nos quais ficou demonstrada a necessidade de barragens na zona de Sumapaz.

Vargas apontou que se pensou em captar águas dos rios Blanco e Guayuriba, que nascem na parte alta de Sumapaz, mas isso implicava em construir túneis e se optou por captar as do Tunjuelo, mais abaixo e com um caudal suficiente até hoje. Dali sai a água para a represa de La Regadera e a ETA de Vitelma, ao sul de Bogotá, que começaram a funcionar em 1938. “Quando inauguraram essas obras, disseram que a cidade teria garantido o abastecimento de água até 2000”, mas não foi isso que aconteceu ressaltou Vargas, para mostrar que nem sempre os estudos e projeções coincidem com a realidade.

Por enquanto estão adiados os planos de utilização de fontes distintas de Tunjuelo, mas não está descartada a hipótese de que a longo prazo seja necessário executar projetos como o de desviar águas do rio Blanco, que flui para o departamento de Meta.

Isso implicaria um enorme projeto de adução e a intervenção em zonas do parque Sumapaz, cuja riqueza de fauna e flora, a duas horas da cidade mais populosa do país, é um verdadeiro tesouro ambiental. O páramo é um ecossistema vital para la produção de água, entre os bosques nublados e a neve perene, com condições climáticas extremas e uma biodiversidade muito peculiar.

Sumapaz “continua sendo a fonte de provisão futura, não só de água para consumo humano, mas também de energia”, e inclusive a empresa de Energia de Bogotá já tem planos, disse Vargas.

* Publicado originalmente em 11 de outubro pela rede latino-americana de diários de Tierramérica.

Limite em 2015

Até 1999, os cálculos da Empresa de Água e Esgoto de Bogotá (EAAB) e do Departamento Administrativo de Meio Ambiente indicavam que em 2015 a cidade demandaria 28,5 metros cúbicos por segundo, o que requereria tomar das

fontes de Sumapaz uns 18 metros cúbicos por segundo.

Outros estudos, entre eles a chamada “Agenda Bogotá”, dos anos 90, também indicam 2015 como o limite da atual capacidade instalada. Entretanto, Edgar Ortiz, da EAAB, fala agora em outras cifras. Atualmente, o abastecimento cobre 100% da cidade, são bombeados de 13 a 15 metros cúbicos por segundo, e o suprimento está assegurado até depois de 2015, assegurou Ortiz à Tierramérica.

Bogotá tem cerca de 7 milhões de habitantes, e continua recebendo em média 100 mil imigrantes por ano, os titulares do abastecimento são 1,4 milhões, e as perdas, por conexões clandestinas e fugas, se reduziram de 34,8% a 33,2% no último ano, explicou.Os funcionários atribuem a melhoria no abastecimento a uma mudança no comportamento cidadão.

Devastação

Cerca de 14.500 hectares de bosques foram destruídos por causa do cultivo de psicotrópicos em vários parques naturais, entre eles Sumapaz, segundo o Ministério de Defesa.

Sumapaz é, segundo fontes oficiais, o início de um corredor estratégico que se estende através de outros parques (La Macarena, Los Picachos e Tinigua) e que serve à guerrilha para translado de seqüestrados, transporte de insumos químicos e tráfico de armas e de drogas. Para se contrapor à influência guerrilheira, há um batalhão postado nos arredores de Sumapaz.

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