
Especial: Dia Mundial da Água – 22 de março
Uso da água
O uso que se faz da água vem aumentando em relação à quantidade disponível deste insumo básico. Os 6 bilhões de habitantes do planeta já se apossaram de 54% da água doce disponível em rios, lagos e aqüíferos subterrâneos.
Em 2025, o homem consumirá 70 % da água disponível. Esta estimativa considera unicamente o crescimento demográfico. Entretanto, se o consumo de recursos hídricos per cápita seguir crescendo ao ritmo atual, dentro de 25 anos o homem poderia chegar a utilizar mais de 90% da água doce disponível, deixando só 10% para o resto das espécies que povoam o planeta.
Atualmente, em escala mundial, 69% da extração anual de água para uso humano se destina à agricultura (principalmente para irrigação); a indústria representa 23% e o consumo doméstico (habitação, água para beber, saneamento) representa aproximadamente 8%. Estes índices mundiais variam muito de uma região a outra. Na África, por exemplo, a agricultura utiliza 88% de toda a água extraída para uso humano, enquanto o consumo doméstico representa 7% e a indústria 5%. Na Europa, a maior parte da água é utilizada para a indústria (54%), enquanto a agricultura representa 33% e o consumo doméstico 13%.
A agricultura
Quase 70% da água doce disponível é utilizada na agricultura. A super-exploração da água subterrânea por parte dos agricultores excede os níveis de alimentação natural dos aqüíferos em pelo menos 160 bilhões de metros cúbicos cada ano.
A quantidade consumida de água para produzir uma colheita é enorme: são necessários entre um e três metros cúbicos de água para colher um quilo de arroz e 1.000 toneladas de água para produzir uma tonelada de grãos.
A superfície do solo destinada à agricultura aumentou em 12% desde os anos 60, abarcando quase 1,5 bilhão de hectares. Se estima que a quantidade de água extraída no mundo para irrigação está entre 2.000 e 2.555 km³ ao ano.
As pastagens e plantações ocupam 37% da superfície terrestre do planeta. As práticas de irrigação e a escassa drenagem levaram à salinização de aproximadamente 10% das terras irrigadas do mundo (30 milhões de hectares dos 255 milhões de hectares de terras irrigadas) segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).
Uma combinação de inundação e salinização afeta 80 milhões de hectares de terras outrora férteis no mundo.
A agricultura é, em grande parte, responsável pelo esgotamento da água subterrânea disponível e por 70% de sua contaminação. Ambos fenômenos se aceleram. A maioria das grandes plantações de cereais do mundo consomem água subterrânea a um ritmo insustentável. No total, o bombeamento anual de água na Índia, China, Estados Unidos, Norte da África e Península Arábica soma 160 bilhões de metros cúbicos ao ano – uma quantidade equivalente ao dobro do fluxo anual do Rio Nilo.
A indústria
Extração de água para a indústria:
No mundo: 22% do uso da água
Em países de elevada renda per cápita: 59% do total do uso da água
Em países de baixa renda per cápita: 8% do total do uso da água
Estima-se que o volume de água anual utilizada para a indústria aumentará dos 752 km³/ano em 1995 para 1.170 km³/ano em 2025. Para 2025, se estima que a indústria representará aproximadamente 24% da extração total de água doce.
Cada ano se acumulam entre 300 e 500 milhões de toneladas de metais pesados, dissolventes, lodos tóxicos e outros despejos provenientes da indústria. As indústrias que utilizam matérias-primas orgânicas são as que mais contribuem para a carga de contaminantes orgânicos, sendo o setor alimentício o que mais contamina.
Contribuição do setor alimentício à produção de contaminantes orgânicos que se despejam na água:
Países de elevada renda per cápita: 40%
Países de baixa renda per cápita: 54%
Mais de 80% dos despejos perigosos do mundo são produzidos nos Estados Unidos e outros países industrializados. Nos países em vias de desenvolvimento, 70% dos despejos industriais são vertidos sem tratamento em águas que contaminam mananciais de abastecimento.
A Energia
A demanda mundial de energia, sobretudo para eletricidade, aumentará enormemente durante este século XXI, não somente devido à pressão demográfica, mas também devido à melhora do nível de vida, ao crescimento urbano e industrial e às expectativas de desenvolvimento.
A energia hidroelétrica é a fonte de energia renovável mais importante e a mais extensamente utilizada; representa 19% da produção total de eletricidade.
Hoje em dia existem no mundo aproximadamente 45.000 grandes represas em funcionamento. O Canadá é o maior produtor de hidroeletricidade, seguido pelos Estados Unidos e Brasil.
Construídas para proporcionar energia elétrica e água para irrigação, assim como para regular o caudal das bacias e prevenir inundações e secas, as represas produzem um impacto de dimensões desproporcionadas sobre o meio ambiente. Entre todas inundaram mais de 400.000 km² de solo, na maior parte produtivo – uma área do tamanho da Califórnia.
Pelo menos 1/5 dos peixes de água doce do mundo se encontram atualmente em perigo de extinção ou extintos. Entre 40 e 80 milhões de pessoas foram desalojadas por causa das represas, obrigados a se transladar para outras terras, freqüentemente menos produtivas. Um estudo realizado pela Comissão Mundial de Represas, e publicado em 2000, assinala que as grandes represas oferecem um histórico muito variado.
Em 140 países, as represas proporcionam energia hidroelétrica econômica. Em nível mundial, as represas respondem por 19% da geração e do abastecimento elétrico; e as águas para irrigação que bombeiam proporcionam quase 16% dos alimentos do mundo. A energia hidroelétrica desempenha um papel importante para a redução das emissões de gás de efeito estufa: desenvolver no mundo a metade do potencial hidroelétrico economicamente viável poderia reduzir as emissões de gás de efeito estufa em 13% aproximadamente.
Mas:
As grandes represas têm provocado o desaparecimento de bosques, de hábitats de rica fauna e da biodiversidade aquática – tanto a montante como a jusante das mesmas. Na maioria dos casos, não foram realizadas avaliações sistemáticas dos impactos negativos que a construção poderia ter sobre as comunidades desalojadas e relocalizadas. Os esforços para mitigar os efeitos imprevistos que sofrem mais de 80 milhões de pessoas desalojadas e a perda de seu meio de vida a jusante (por exemplo, a perda do pescado), tem sido, em grande parte, superficiais e ineficazes.
Segundo a Comissão, as grandes represas podem estar fadadas a desaparecer:
Tem sido demonstrado que construir minicentrais hidroelétricas é mais barato e seu funcionamento mais econômica do que se acreditava a princípio; além disso, seu impacto é mínimo para o meio ambiente. Uma melhor gestão direcionada a reduzir a demanda pode diminuir a pressão sobre a água e as necessidades de energia hidroelétrica. A melhoria dos sistemas de gestão, particularmente no caso da agricultura irrigada, pode reduzir enormemente a perda de água ao mesmo tempo que aumenta a eficiência dos sistemas de irrigação.
Fonte: World Water Assessment Programme – People and the Planet
Água e saúde
As doenças relacionadas com a água são uma tragédia humana que a cada ano causa a morte a mais de 5 milhões de pessoas – 10 vezes mais do que as vítimas de guerra.
Aproximadamente 2,3 bilhões de pessoas sofrem com doenças relacionadas com a água. Cerca de 60 % da mortalidade infantil mundial é causada por doenças infecciosas e parasitarias, a maioria relacionadas com a água.
Entre os efeitos adversos sobre a saúde humana ocasionados pela água estão:
Doenças transmitidas pela água
São aquelas doenças causadas pela água contaminada por despejos humanos, animais ou químicos. As doenças transmitidas pela água incluem entre outras: a cólera, a febre tifóide, a shigella, a poliomielite, a meningite, as hepatites A e E e a diarréia. São doenças produzidas por águas residuais. A maioria pode ser prevenida com um tratamento prévio antes de ser usada.
Doenças de origem vetorial relacionadas com a água
São aquelas doenças transmitidas por vetores, como os mosquitos e as moscas tse-tsé, que vivem perto de águas contaminadas e não contaminadas. Milhões de pessoas padecem infecções transmitidas por esses vetores que infectam o homem com malária, febre amarela, dengues, doença do sono e filaríase. A malária, a doença que mais propaga, é endêmica em 100 países em vias de desenvolvimento, pondo em risco a vida de cerca de 2 bilhões de pessoas. Só na África Sub-sahariana, se estima que o custo anual da malária é de US$ 1,7 bilhão em tratamentos e perdas de produtividade.
A incidência destas doenças parece estar aumentando. Há muitas razões para isso: as pessoas estão desenvolvendo resistência aos medicamentos que ajudam a combater a malária; os mosquitos estão desenvolvendo resistência ao DDT, o inseticida de maior uso; as mudanças ambientais estão criando novos criatórios; por outro lado, a migração, as mudanças climáticas e a criação de novos hábitats provocam que menos gente desenvolva uma imunidade natural a estas doenças.
Malária
Mais de 1 milhão de pessoas morre de malária a cada ano. Cerca de 90 % da taxa anual de mortes por malária é registrada na África Sub-sahariana. A malária causa pelo menos 300 milhões de casos de doença aguda cada ano. A doença custa anualmente à África mais de US$ 12 milhões e retarda o crescimento econômico dos países africanos em cerca de 1,3 % ao ano. Dormir usando mosquiteiros seria uma maneira simples e eficaz de prevenir muitos casos de malária, sobretudo em crianças menores de cinco anos.
Doenças vinculadas à escassez de água
Estas doenças, que incluem o tracoma e a tuberculose, se propagam em condições de escassez de água doce e sanidade deficiente. Para abastecer aos mais de 5 bilhões de habitantes que se estima viverão no planeta no ano 2050, será necessário oferecer sistemas de esgotamento sanitário para os 383.000 novos consumidores diários. Estas doenças avançam sem parar através do mundo. Mas podem ser controladas facilmente com uma melhor higiene, para a qual é imprescindível dispor de suprimento adequado de água potável.
Fonte: People and the Planet – Programa Mundial de Avaliação dos Recursos Hídricos
Doenças de origem hídrica
São aquelas doenças causadas por organismos aquáticos que passam uma parte de seu ciclo vital na água e outra parte como parasitos de animais. Entre essas doenças estão a paragonimíase, a clonorquiase e a esquistossomose. Os causadores são uma variedade de vermes, tenias, lombrigas intestinais e nematodos, denominados coletivamente como helmintos que infectam o homem. Mesmo que estas doenças normalmente não sejam mortais, impedem as pessoas de levar uma vida normal e afetam sua capacidade para trabalhar.
O predomínio de doenças com base na água tende a aumentar quando se constróem represas, pois a água parada é ideal para os caracóis, hóspedes intermediários de muitos tipos de microorganismos. Por exemplo, a Represa de Akosombo, no Lago Volta, em Gana, e a Alta Represa de Asuán, no Nilo, Egito, têm contribuído ao enorme incremento da esquistossomose nestas zonas.
Esquistossomose
Dos 200 milhões de pessoas no mundo infectadas pelo microorganismo que causa a esquistossomose, uns 20 milhões são vítimas de graves conseqüências. Ainda há epidemias em 74 países. Os estudos mostram que a doença tem diminuído em até 77 % em algumas zonas onde há melhoria de abastecimento (água de melhor qualidade) e acesso ao saneamento. 88 milhões de crianças menores de 15 anos se infectam cada ano com a esquistossomose. 80 % das transmissões acontecem na África Sub-sahariana.
Diarréia
A cada dia morrem no mundo cerca de 6.000 pessoas por causa da diarréia, sobretudo crianças menores de cinco anos. Em 2001 morreram 1,96 milhões de pessoas por diarréia infecciosa; 1,3 milhões eram crianças menores de cinco anos. A diarréia tem provocado mais mortes de crianças nos últimos dez anos do que todos os conflitos armados que aconteceram desde a II Guerra Mundial. Entre 1.085.000 e 2.187.000 das mortes produzidas por diarréia podem ser atribuídas ao fator risco “água, sanidade e higiene”.
Cerca de 90% destas mortes correspondem a crianças menores de cinco anos. Na China, Índia e Indonésia, morrem duas vezes mais pessoas de diarréia do que de AIDS. Com simples medidas de higiene como lavar as mãos depois de ir ao banheiro ou antes de preparar a comida, se evitaria a maior parte destas mortes.
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