Derrames de óleo no mar continuam acontecendo

Márcio Tavares

Um dos mais importantes impactos ambientais gerados nas atividades marítimas é, sem dúvida, a poluição das águas causada pelos derrames e vazamentos de petróleo e seus derivados. O naufrágio do “Prestige” traz de volta à mídia as imagens de praias destruídas e animais condenados à morte pela imensa mancha de óleo que mais uma vez se alastra pela costa de países do hemisfério norte, ditos desenvolvidos.

Uma vez que a mídia se detém basicamente nessas imagens mais chocantes, com as quais espera aumentar significativamente suas vendas de jornais, revistas e documentários, precisamos aproveitar essas ocasiões para aprofundar a discussão sobre a poluição do mar causada por despejo de óleo.

Desde 1974, o banco de dados da ITOPF (“International Tanker Owners Pollution Federation Limited” http://www.itopf.com) já registrou cerca de 10.000 incidentes. Este número, porém, é menos significativo do que o volume da carga poluidora, uma vez que os poucos incidentes causadores de grandes vazamentos têm sido responsáveis pela maior percentagem de óleo lançado.

Entre 1988 e 1997, ocorreram em navios apenas 360 vazamentos com mais de 7 toneladas, totalizando 1.439.000 toneladas, 70% das quais foram lançadas por apenas 10 incidentes (menos de 3% dos 360 casos). O número de derramamentos de óleo com mais de 700 toneladas, contudo, tem decrescido significantemente. A média de incidentes por ano (8,9 casos) durante as décadas de 80 e 90 foi somente um terço da média verificada na década de 70 (24,2 casos por ano).

A maioria dos derramamentos causados por navios petroleiros ocorrem em operações de carregamento, descarga e abastecimento de óleo, normalmente realizadas em portos e terminais de petróleo e derivados. Tipicamente, esses derrames são pequenos. Os casos mais graves ocorrem nas colisões e encalhes, quando a estrutura do navio se rompe e lança nas águas grandes quantidades de óleo.

As Tabelas 1 e 2 apresentam as principais causas de derramamento de óleo abaixo e acima de 700 toneladas.

Causas

de Derramamentos Acima de 700 Toneladas

Causa

Percentual

Encalhes

34%

Colisões

29%

Falhas

na estrutura do casco

13%

Incêndios

e explosões

7%

Carregamento

/ descarga

5%

Outros

12%

Fonte:

ITOPF

Causas de Derramamentos Abaixo de 700 Toneladas

Causa

Percentual

Carregamento

/ descarga

35%

Outras

rotinas operacionais

14%

Falhas

na estrutura do casco

7%

Abastecimento

de óleo

6%

Encalhes

5%

Colisões

4%

Incêndios

e explosões

2%

Outros

27%

Fonte:

ITOPF

Mas os portos

e os navios não são os únicos causadores da poluição do mar por lançamento de

óleo. Pode-se observar pela Tabela 3 que toda a atividade portuária e a navegação

juntas respondem por 24% do óleo lançado no meio ambiente marinho, enquanto

as demais fontes de terra lançam 50%.

Quantidades Estimadas

de Óleo Lançado no Mar Anualmente

Fontes

Milhões

de Toneladas / Ano

%

Fontes

Naturais

0,25

11

Exploração

de petróleo

0,05

2

Portos

e Navios

Resíduos de operações

de navios

Acidentes com

petroleiros

Acidentes com outros

tipos de navios

Terminais, estaleiros

e outras instalações portuárias

0,41

0,11

0,01

0,04

17

5

2

24

Deposição

atmosférica

0,3

13

Outras

fontes baseadas em terra

1,18

50

Total

2,35

100

Fonte: 

DNV

A solução

do problema da poluição do mar por óleo derramado pelos navios passa pela análise

de diversos fatores, tais como:  regras das autoridades de bandeira para construção,

equipamento e tripulação dos navios; regras de classe aplicadas durante a construção

e nas inspeções periódicas;  métodos e sistemas de gerenciamento ambiental adotados

pelos armadores; critérios de afretamento estabelecidos pelos operadores; nacionalidades

e idiomas falados pelos tripulantes numa mesma embarcação; tipos de carga transportadas

e os efeitos do carregamento na estrutura do navio.

As descargas

e os derramamentos de óleo resultam na introdução dos mais diversos contaminantes

nas águas do porto. Essas descargas são uma séria ameaça para a vida aquática

e também podem tornar os peixes e crustáceos impróprios para o consumo humano.

Em muitos portos, cuja troca de água é relativamente pobre, esses poluentes

tendem a permanecer por longo tempo no meio ambiente.

Ainda que

a mídia se dedique com maior intensidade aos acidentes com petroleiros, somam-se

ainda a este problema novos desafios que deverão ser enfrentados pela navegação

nas próximas décadas, relacionados a aspectos ambientais ainda não suficientemente

sistematizados pela comunidade marítima internacional.

O transporte

de petróleo e derivados através das regiões árticas, o controle do despejo de

esgotos sanitários de bordo, a troca de água de lastro dos navios, as dificuldades

para coleta de lixo nos portos e o controle da poluição causada por acidentes

com navios químicos ou gaseiros, são ainda questões que aguardam respostas do

transporte marítimo.

Esgotos sanitários

dos navios, despejados sem tratamento, podem significar sérias ameaças para

a população local quanto à transmissão de doenças e podem também resultar na

degradação da qualidade da água.

A descarga

do lixo dos navios nas águas pode resultar em condições estéticas desagradáveis

para a linha da costa devido à acumulação de materiais não biodegradáveis tais

como plásticos, vidros e embalagens metálicas. Sacos e outros materiais plásticos

podem bloquear a entrada de água para resfriadores e prender-se a hélices de

pequenas embarcações que trafegam pelas águas do porto.

A troca de

lastro e sedimentos dos navios entre portos de carga e descarga, atividade ainda

hoje praticamente descontrolada, pode estar sendo responsável pela transferência

de microorganismos marinhos perigosos e de outras substâncias biológicas, provocando

danos ao meio ambiente, à propriedade e à saúde pública.

As fontes

de contaminação, no entanto, nem sempre são tão óbvias. Por exemplo, o uso de

tintas anti-incrustantes tem sido bastante discutido como fonte de poluição.

Certos sistemas

anti-incrustantes usados em navios contêm substâncias perigosas e oferecem um

significante risco de toxicidade e outros impactos crônicos para a vida humana

e para organismos marinhos ecológica e economicamente importantes.

É indiscutível

a responsabilidade das organizações governamentais nacionais e internacionais

reguladoras da navegação diante dessas novas exigências ambientais, mas tal

responsabilidade não pode deixar de ser compartilhada pelas organizações que

exploraram comercialmente esta atividade.

Uma abordagem

pró-ativa deve ser assumida principalmente pelas empresas de navegação, no sentido

de garantir elevados padrões de desempenho ambiental que possam também contribuir

positivamente para a segurança, qualidade e eficiência nos custos de sua atividade.

A efetiva

implementação de regulamentações específicas quanto à poluição causada por navios

é essencial para se garantir oceanos limpos e biologicamente produtivos. Porém,

muitos países ainda precisam tornar eficientes a fiscalização e o controle tanto

dos navios visitantes quanto de suas próprias embarcações.

O último report

da Itopf sobre o acidentes com o “Prestige”  pode ser encontrado na páginahttp://www.itopf.com/news.html#prestige

.

Novos desafios

A solução do problema da poluição do mar por óleo derramado pelos navios passa pela análise de diversos fatores, tais como: regras das autoridades de bandeira para construção, equipamento e tripulação dos navios; regras de classe aplicadas durante a construção e nas inspeções periódicas; métodos e sistemas de gerenciamento ambiental adotados pelos armadores; critérios de afretamento estabelecidos pelos operadores; nacionalidades e idiomas falados pelos tripulantes numa mesma embarcação; tipos de carga transportadas e os efeitos do carregamento na estrutura do navio.

As descargas e os derramamentos de óleo resultam na introdução dos mais diversos contaminantes nas águas do porto. Essas descargas são uma séria ameaça para a vida aquática e também podem tornar os peixes e crustáceos impróprios para o consumo humano. Em muitos portos, cuja troca de água é relativamente pobre, esses poluentes tendem a permanecer por longo tempo no meio ambiente.

Ainda que a mídia se dedique com maior intensidade aos acidentes com petroleiros, somam-se ainda a este problema novos desafios que deverão ser enfrentados pela navegação nas próximas décadas, relacionados a aspectos ambientais ainda não suficientemente sistematizados pela comunidade marítima internacional.

O transporte de petróleo e derivados através das regiões árticas, o controle do despejo de esgotos sanitários de bordo, a troca de água de lastro dos navios, as dificuldades para coleta de lixo nos portos e o controle da poluição causada por acidentes com navios químicos ou gaseiros, são ainda questões que aguardam respostas do transporte marítimo.

Esgotos sanitários dos navios, despejados sem tratamento, podem significar sérias ameaças para a população local quanto à transmissão de doenças e podem também resultar na degradação da qualidade da água.

A descarga do lixo dos navios nas águas pode resultar em condições estéticas desagradáveis para a linha da costa devido à acumulação de materiais não biodegradáveis tais como plásticos, vidros e embalagens metálicas. Sacos e outros materiais plásticos podem bloquear a entrada de água para resfriadores e prender-se a hélices de pequenas embarcações que trafegam pelas águas do porto.

As fontes de contaminação, no entanto, nem sempre são tão óbvias. Por exemplo, o uso de tintas anti-incrustantes tem sido bastante discutido como fonte de poluição. Certos sistemas anti-incrustantes usados em navios contêm substâncias perigosas e oferecem um significante risco de toxicidade e outros impactos crônicos para a vida humana e para organismos marinhos ecológica e economicamente importantes.

Autor

Márcio Tavares é Mestre em Engenharia de Produção / Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, com pós-graduações em Gerenciamento de Transportes Marítimos UFRJ/CIAGA, Gestão Portuária UFRJ/CIAGA, Gestão da Qualidade UFF/IBQN, Comércio Exterior pela UFRJ/IE (e.a.), Lead Auditor ISO 9000 e ISO 14000, Auditor do Código ISM e Avaliador do PNQ 2000, atuando na indústria de shipping desde 1981. E-mail: mtavares.rio@oceanus.com.br

Divulgado por ONG Consultant, Trader and Adviser – Projeto CTA

Sindicato dos Economistas, no Estado de São Paulo

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