Sobre prostitutas e patrocínios

Amyra El Khalili

Sempre defendi a regulamentação da profissão de prostitutas através da formação de um sindicato nos moldes europeus, onde estas profissionais podem reivindicar o direito a tratamento de saúde, orientação psicológica, proteção e educação para seus filhos, sem que estes sejam discriminados e marginalizados.

Não sou contra as prostitutas, mas contra a prostituição, pois sei que isto não implica simplesmente em deitar-se com um estranho e se submeter as taras e manias de gente carente ou psicótica. Minha questão vai muito mais além. Inúmeras vezes, as prostitutas são agredidas, têm seus nomes utilizados como laranjas em operações ilícitas, são envolvidas em tráfico de drogas, estelionato e extorsão quando não tem um “painhu” para lhes defender — digo, um cafetão do bem. Sim, digo do bem, porque não faltam os que negociam o fato para fazer o mal.

Há uma grande diferença entre ser prostituta ou estar prostituída. Ser prostituta é conviver com as circunstâncias que a vida lhe impôs e estar prostituída é aceitar as circunstâncias que a conveniência determina. Quando defendo a regulamentação da profissão de prostitutas, estou defendendo a organização de uma classe profissional para que estas mulheres não sejam mulas do ilegal e tenham seus direitos humanos respeitados.

Tenho observado este comportamento com muita atenção nas relações entre o ambientalismo e o empresariado. O ambientalismo vive uma crise entre ser prostituta e estar prostituído quando se encontra diante da possibilidade de ter como parceiro o setor empresarial. Lutam com a consciência, amedrontados ao se depararem com o cachê de um bom patrocínio daquele que combatem — o degradador ambiental . Agem como se estivessem sendo assediados para um ato espúrio e reagem em confronto permanente contra tudo e contra todos que tentam dialogar com os setores produtivos e sensibilizá-los para as causas ambientais.

Esta postura não colabora para o avanço e a execução dos projetos tão disputados e denominados com a marca “desenvolvimento sustentável”, que pedem a participação do governo, da iniciativa privada e da sociedade civil organizada. Disse bem: ORGANIZADA. Continuo defendendo a formação do sindicato das prostitutas, e nem por isso me sinto prostituída, leviana, ou colaborando para o aumento da prostituição.

Quando estimulamos a consciência ambiental, interessa-nos sensibilizar aquele que está na contra-mão do que pregamos. Não o contrário. Não precisamos sensibilizar ambientalistas, nem tampouco sensibilizar ativistas dos direitos humanos para as causas sociais. São os empresários, banqueiros, empreendedores políticos e governos a serem os sensibilizados.

Que o ambientalismo fique tranqüilo: quando sensibilizamos os degradadores para o eco-eficiência, não há como se prostituir — o sindicato das prostitutas não arbitra em causas sensíveis, somente quando os direitos trabalhistas não estão sendo cumpridos.

Não confunda ser prostituta com estar prostituída.

Se você tiver um bom projeto, comprometido com seus valores morais e éticos, onde as regras e os objetivos estão bem definidos, não há por que ter crise existencial, o que não quer dizer que você possa se deitar com qualquer um!

Autora

Amyra El Khalili é economista, presidente da ONG CTA, co-editora da Rede Internancional de Comunicação CTA-JMA. Coordenadora do Projeto CTA-SINDECON-ESP e membro da Diretoria do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo. email: ongcta@terra.com.br

Edições anteriores

Como forma de orientar nossos leitores estamos listando alguns dos artigos já publicados neste espaço identificando o número da edição, o título e o autor.

129 – Povo brasileiro – esse herói! – Cecy Oliveira;

128 – Os hidromercenários – Heraldo Campos;

127 – Os avanços de Johannesburg – Vitor Gomes Pinto

126 – Agenda 21 versus Commodities Ambientais – Lucas Matheron;

125 – A importância dos CREAs no debate sócio-ambiental – Amyra El Khalili;

124 – O lado bom de Quioto – Sidney Grippi;

123 – A importância de oceanos sadios para o combate à pobreza – Anne Platt McGinn;

122 – Planejamento em Educação Ambiental: Pressupostos e Procedimentos Sergio Luis Boeira;

121 – Preservar é preciso, mas o que isto significa?! – Renata Vieira Conde;

120 – DIAA0-2002 – Maurício Pardon e Ricardo Sanchez Sosa;

119 – Quem nada em praias poluídas fica doente? – Cláudia Condé Lamparelli;

118 – Baia da Guanabara: Lições ambientais – Vilmar Berna;

117 – Vítimas da Sede – José Eduardo Rocha;

116 – Educação Ambiental é solução para problemas do Meio Ambiente? – Mauro Guimarães;

115 – Aprender com a cabeça e o coração – Sérgio Luis Boeira;

114 – Exaustão do lençol freático: ameaça oculta à segurança alimentar? – IWMI;

113 – Conseqüências econômicas e sociais da crise de recursos hídricos – Relatório do Tribunal de Contas da União sobre a questão dos recursos hídricos.

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