Ivana Brunet
Reportagem exclusiva com o Secretário Geral da Convenção de Ramsar, Delmar Blasco, mostrando sua análise sobre a temática dos recursos aquáticos na Cúpula Mundial e também o importante ganho da Argentina na designação de áreas úmidas.
Por que e a quem foi outorgado o prêmio Ramsar?
Reconhecemos o esforço de nove países – Argentina, Argélia, Bolívia, Chad, China, Guine, Peru, Tanzânia e Zâmbia – que durante o ano 2002 designaram 22 milhões de hectares como novos sítios Ramsar, permitindo superar a marca de 100 milhões de hectares protegidas como Sítios Ramsar no mundo.
A Argentina designou vários locais este ano, entre eles se encontra a primeira área Ramsar no rio Paraná sendo muito significativo por seus quase 400 mil hectares nas margens de Santa Fé. Este reconhecimento por parte do governo provincial e nacional ao se comprometer a proteger o Paraná através de Ramsar é significativo. Esperamos que em um futuro próximo também se estabeleça a outra margem na província de Entre Rios, para que toda a bacia deste importante rio esteja protegida.
A Convenção Ramsar tem a particularidade de buscar uma conservação ativa, porque permite e incentiva o uso racional e sustentável dos recursos naturais. Estamos convencidos de que permitindo o uso das comunidades locais, elas se convertem em aliadas da conservação, porque não há nada mais negativo para a proteção que proibir o acesso da sociedade.
O grande desafio é que a conservação se insira em todo o dia-a-dia humano e portanto os seres humanos pratiquemos a conservação em todo o que façamos.
Qual é sua análise dos resultados desta Cúpula Mundial de Desenvolvimento Sustentável?
Apesar de que não vamos conseguir tudo o que se deveria para a sustentabilidade creio que haverá acordos importantes. Espero que o sentimento que prevaleça na noite do 4 de setembro, encerramento da Cúpula, seja de esperança e que o esforço realizado tenha valido a pena. No texto do Plano de Implementação foram identificado mais de 50 parágrafos que se relacionam direta ou indiretamente com a Convenção de Ramsar, o que é muito significativo especialmente pela proximidade da Conferência que realizaremos em novembro em Valência, Espanha. Neste evento está prevista a visita do ministros de Meio Ambiente da África do Sul para que transmita os resultados, além disso se prepara uma análise para os países-membros de Ramsar sobre as conclusões desta Cúpula fazendo recomendações principalmente sobre os aspectos mais significativos dos acordos intergovernamentais do Tipo 1 devem ser levando em conta pela Conferência de Valência. O objetivo é que os resultados estejam bem presentes para que se incorporem ao Plano Estratégico para os próximos 6 anos.
Considera que se poderá incorporar a Convenção de Ramsar nas áreas financiadas pelo Fundo Mundial para o Meio Ambiente?
Lamentavelmente, os países-membros de Ramsar não encaminharam essa opção para que seja incorporado ao Fundo Mundial para o Meio Ambiente, como se fará com Convenção sobre Desertificação e a Convenção de Estocolmo. É preciso reconhecer que os países-membros de Ramsar têm um acesso bastante importante aos fundos do FMAM para financiar projetos relativos às áreas úmidas se forem relacionados a áreas financiadas como biodiversidade ou águas internacionais. A partir de outubro quando a Assembléia Geral do FMAM, que se reunirá na China, incorpore a Convenção sobre Desertificação também os países poderão financiar projetos de áreas úmidas em zonas áridas, o que seria crucial para estas áreas geográficas onde os oásis cumprem um papel fundamental para a biodiversidade.
Créditos:
3 de setembro de 2002
Fonte: Ecopuerto.com: http://www.ecopuerto.com
Foto:
A foto desta página é uma reprodução de uma pintura representando comunidades indígenas em torno do Lago Nicaragua e da Mesoamérica, criada por artistas indígenas durante a 7ª Reunião da Convenção Ramsar, em maio de 1999.
Energia
Qual é a sua opinião sobre as negociações em temas como energia, biodiversidade e água no texto do Plano de Implementação?
Seria lamentável que os países realizassem uma “troca de figurinhas” em áreas tão sensíveis. Os delegados internacionais que participam da Cúpula estão preocupados pela sanidade especialmente para conseguir incorporar como meta que se elimine ou reduza a quantidade de pessoas que não têm acesso à água potável e a condições básicas de saneamento, já que representa uma ofensa à dignidade humana.
Além disso, a falta de saneamento afeta seriamente os recursos aquáticos contaminando-os e fazendo com que seja a primeira causa de morte dos países não desenvolvidos.
Entretanto, lamento que não exista a devida preocupação sobre a conservação das fontes de água, como evitar o desflorestamento nas nascentes dos rios, não aterrando áreas úmidas pela função que cumprem e outras ações fundamentais.
Pantanal
Essa foto mostra o Pantanal, uma vasta área úmida que abrange Bolívia, Brasil e Paraguai (Foto: Ziesler, Ecotropica). Dezembro 2001.
Convenção Ramsar
A Convenção sobre as áreas úmidas, firmada em Ramsar, Irã, em 1971, é um tratado intergovernamental que serve de marco à atuação nacional e à cooperação internacional com vistas à conservação e o uso racional das áreas úmidas e seus recursos. Até julho de 2002, havia 132 Partes Contratantes na Convenção, com 1.178 sítios de áreas úmidas, que totalizam uma superfície de 102,1 milhões de hectares, designados para fazer parte da Lista Ramsar de Áreas Úmidas de Importância Internacional.

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