Sidney Grippi
O mundo novamente está olhando para o futuro do planeta. A Rio+10 é uma alusão aos dez anos posteriores à Rio-92. Desta vez na África, a reunião mundial tem como propósito refletir sobre o que de bom os países signatários dos protocolos de 1992 fizeram. Analistas afirmam que será uma conferência de muita lamúria também.
Os ricos novamente não chegaram a um acordo, desta vez, os EUA, desde a última reunião sobre o clima da Terra, saiu categórico da mesa de negociação com o propósito de não assinar nada que possa colocar um obstáculo na sua expansão econômica. Também deixou bem claro que não pretende pagar para obter bônus para a emissão do CO² de suas indústrias. Entende-se desta forma que para eles, e muitos outros, assumir compromissos concretos com a preservação ambiental pode significar uma retração no crescimento econômico destes países; pois quanto mais industrializados mais recursos naturais são necessários para a manutenção deste status.
Diferentemente dos EUA, a Alemanha pode ter feito as contas e chegado à conclusão de que adquirir bônus de carbono é mais negócio do que eliminá-lo da atmosfera. Com a proposta de subsidiar o programa Proálcool brasileiro, a injeção de recursos alemães pode alavancar a produção do combustível, a fabricação de mais carros movidos a álcool, no Brasil e na própria Alemanha. Bom para o clima.
O grande aprendizado no entanto, é que os ricos querem que os pobres preservem para eles continuarem a crescer; tornando-se cada vez mais ricos, poderosos e descompromissados com a causa ambiental o que parece, a ponto de preferirem pagar para ficarem despreocupados com a questão. Assim, o aquecimento global, expressão utilizada para designar o gradual aumento da temperatura da Terra, vem dando cada vez mais sinais de problemas, porquanto, os sintomas deste acontecimento já podem ser sentidos, mais nitidamente, nas grandes metrópoles mundiais, e será um dos pontos críticos desta conferência.
A Terra como sabemos, se aquece naturalmente pela incidência dos raios solares. É este aquecimento que torna possível a vida aqui, pois se não fosse o sol, seria um planeta cuja temperatura estaria em torno dos 18ºC, negativos. Devido à poluição atmosférica hoje presente em nossos centros urbanos, os raios solares não estão retornando ao espaço satisfatoriamente, gerando o chamado efeito estufa que é o calor que fica retido abaixo de um escudo de poluição na atmosfera, fazendo assim, que a temperatura da terra vá aumentando gradativamente embaixo deste escudo.
Um dos principais problemas do aquecimento é o derretimento prematuro dos pólos, fazendo com que o nível dos mares aumente ano após ano, pressionando as bacias hidrográficas, submergindo terras aproveitáveis, principalmente para a agricultura e causando com isto êxodo populacional. Terra quente e úmida, este pode ser um segundo problema para prevenção de queimadas e a qualidade da saúde da população com um ar cada vez mais poluído.
Um dos principais agentes causadores da poluição atmosférica é o dióxido de carbono, emitido a partir do uso de fontes combustíveis fósseis, como é o caso dos derivados de petróleo. Temos também como agentes de emissão do CO² a queima de carvão e a queima de biomassa, como as queimadas de florestas e campos para a agricultura e o pastoreio. Indústrias, veículos, matrizes energéticas baseadas em termoeletricidade, entre outros, são todos exemplos de segmentos emissores de CO² para a atmosfera, pois consomem combustíveis de origem fóssil.
Como sugerido, temos o CO² como o grande vilão da poluição atmosférica e principal contribuidor para o efeito-estufa que traz como conseqüência alterações em nosso clima. A solução para este problema, longe da discussão dos bônus do protocolo de Quioto, pode estar focada em duas linhas básicas: outras alternativas energéticas, substitutivas ao consumo de combustíveis fósseis ou, por fim, a retirada do carbono da atmosfera. A primeira solução, vem se apresentado difícil, pois o ser humano é ainda totalmente dependente do petróleo como fonte energética, não tendo investido satisfatoriamente ainda, em fontes de energia renováveis como a solar ou a eólica por exemplo.
Portanto, o caminho mais fácil parece ser mesmo a retirada do gás carbônico da atmosfera. Neste sentido, a solução parece ser teoricamente simples e só depende do homem. Os grandes consumidores de gás carbônico na natureza são as plantas, que juntamente com a água, os minerais presentes no solo e os raios solares, metabolizam seu alimento e sua sobrevivência. Os vegetais possuem pigmentos clorofilados que realizam a fotossíntese com a presença destes elementos, assim, o alimento dos verdes, vem a ser nosso vilão: o gás carbônico. Este processo fotossintetizador, ainda nos dá em troca o oxigênio de que tanto precisamos.
Assim, o que o homem precisa enxergar é a necessidade da manutenção de nossa cobertura vegetal e a preservação de nossas florestas. O crescimento econômico, como princípio básico, deve ser equilibrado e sustentável. A preservação é uma questão de educação; tão rara, que coisas simples como o fenômeno da fotossíntese, têm passado despercebido pelas pessoas enquanto forma de solução para os problemas da poluição atmosférica e equilíbrio do clima da terra. Graças a este fenômeno natural, o carbono vem sendo seqüestrado da atmosfera e as coisas não estão piores, mostrando a necessidade cada vez maior da manutenção de nossas áreas verdes como parte da solução para o problema do aquecimento da Terra.
É bem-vinda a proposta dos alemães em subsidiar nosso Proálcool, mas devemos estar atentos que melhorar a qualidade do ar não pode significar levar o problema para outra ponta, como por exemplo, para os recursos hídricos, pois como sabido, o cultivo e o processamento industrial da cana-de-açúcar tem também os seus impactos, dada à emissão do vinhoto, que precisa ser devidamente tratado antes do despejo e a degradação do solo com a monocultura da cana, que deve ser controlada com técnicas de manejo apropriadas e sustentáveis.
Autor
Sidney Grippi é biólogo, consultor, pós-graduado em Engenharia Ambiental pela Escola de Engenharia da UFRJ
Edições anteriores
Como forma de orientar nossos leitores a partir dessa edição vamos listar alguns dos artigos já publicados neste espaço identificando o número da edição, o título e o autor.
123 – A importância de oceanos sadios para o combate à pobreza – Anne Platt McGinn;
122 – Planejamento em Educação Ambiental: Pressupostos e Procedimentos Sergio Luis Boeira;
121 – Preservar é preciso, mas o que isto significa?! – Renata Vieira Conde;
120 – DIAA0-2002 – Maurício Pardon e Ricardo Sanchez Sosa;
119 – Quem nada em praias poluídas fica doente? – Cláudia Condé Lamparelli;
118 – Baia da Guanabara: Lições ambientais – Vilmar Berna;
117 – Vítimas da Sede – José Eduardo Rocha;
116 – Educação Ambiental é solução para problemas do Meio Ambiente? – Mauro Guimarães;
115 – Aprender com a cabeça e o coração – Sérgio Luis Boeira;
114 – Exaustão de lençol freático: ameaça oculta à segurança alimentar – IIMA;
113 – Conseqüências econômicas e sociais da crise dos recursos hídricos – TCU;
112 – Um novo padrão monetário – Marcus Azaziel;
111 – Educação, conscientização e mobilização para salvar a água – Marco Tulio Motta;
110 – Um novo modelo de desenvolvimento – Angelo JOsé Rodrigues Lima;
109 – O primeiro ataque ecológico da III Guerra Mundial – Osmar Santos;
108 – A gestão sustentável dos resíduos sólidos -Manfred Feher;
107 – Democracia ambiental e democracia política – Heitor Reis;
106 – Captação e aproveitamento da água da chuva – Viviane Gonçalves e Henrique de Melo;
105 – Perguntas sobre mudanças climáticas – Gert Roland Fischer;
104 – A injusta medição de água em condomínios –
Roque Tomasini;
103 – 22 de março – Dia Mundial da Água –
Cláudio Langone;
102 – Planeta água ou mundo sedento? –
Comitês de Bacias RGS;
101 – Em defesa da gestão sustentável das bacias ibéricas – Manifesto;
100 – Contingencial – Adalberto Egg Passo;
99 – Ibama: 13 anos sem concurso – Felipe Costa;
99 – Ibama: 13 anos sem concurso – Felipe Costa;
99 – Ibama: 13 anos sem concurso – Felipe Costa;
98 – Salvemos São Lourenço – Eugenio Ferraz;
97 – Rio Paraíba: uma luz no fim do túnel – Sidney Grippi;
96 – Gerenciar empresa com o Meio Ambiente – Cecília Cipriano;
95 – Passivo ambientyal- o que fazer quando ele aparece? – Antonio Fernando Pinehrio Pedro;
94 – O custo social da água – quem paga o preço da ineficiência? – Julio Burbano;
93 – Conduta Consciente em Ambientes Naturais – MMA;
92 – Reuso da Água Domiciliar – José Murilo Ferraz Saraiva e João Carlos de almeida Mieli;
91 – A saúde e o saneamento nas Américas – George Alleyenne.
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