Biossólidos para produzir banana e palmito

A “popular” banana e o “nobre” palmito podem passar a ser produzidos, dentro de pouco tempo, a partir de plantas cultivadas com o uso de material orgânico retirado de resíduos de esgoto. O uso deste composto, transformado em um tipo de biossólido polido, como alternativa aos fertilizantes tradicionais, não é nenhuma novidade na agricultura, mas, o seu emprego, por enquanto, é restrito a determinadas espécies vegetais.

Na ultima semana começaram a ser colhidos os primeiros frutos das bananeiras que são cultivadas na Fazenda Experimental do Instituto Agrícola de Campinas (IAC), em Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira, no sul do estado de São Paulo. A plantação é uma fase de testes do projeto “Uso Agrícola de Biossólido”, desenvolvido, desde o final de 2001, em parceira entre o IAC e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Uma outra etapa da pesquisa se realiza na Estação Experimental, em Ubatuba, no Litoral Norte, onde é monitorada a lavoura de pupunha para a retirada do palmito.

Segurança

O pesquisador do IAC, Ronaldo Berton, responsável pela coordenação do trabalho em campo, esclarece que “o procedimento da reciclagem no tratamento do esgoto ocorre de forma a se garantir a neutralidade na ação de patógenos que pudessem representar riscos à saúde humana”.

Além disso, ele garante que “é feito um ataque aos metais pesados como cádmio, níquel e chumbo ao mesmo tempo em que se busca os elementos essenciais às plantas, principalmente, o nitrogênio e o fósforo. Há, ainda, um terceiro aspecto revelante que é a lixiviação. Para evitar que o lençol freático seja poluído, uma das normas estabelecidas pela legislação que regula o uso do biossólido é justamente sobre a quantidade de aplicação do nitrogênio no solo, limitada a 420 miligramas por quilo em peso seco.

Berton observa ainda que “o emprego do biossólido na agricultura constitui-se numa alternativa para a reciclagem desse material (lodo tratado), pois de um lado melhora alguns atributos químico e físico e os processos biológicos do solo, e de outro contribui para aliviar a carga e aumentar a vida útil dos aterros sanitários, cada vez mais difíceis de serem criados e mantidos na periferia das metrópoles e das cidades litorâneas”.

O biossólido é um material que tem 60% de matéria orgânica, 7% de nitrogênio, 1,5% de fósforo e 0,2% de enxofre. Contém ainda micronutrientes como cobre, zinco, boro, mobilidênio, manganês e cloro. Produzido nas Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs) da Sabesp, é o resultado do lodo devidamente higienizado e com baixo teor em metais pesados que se extrai do tratamento biológico de esgotos sanitários e industrial. No caso dessa pesquisa refere-se, basicamente, ao tratamento de esgoto doméstico, que é coletado e encaminhado até as estações de tratamento. Os dejetos passam por um processo de separação da parte sólida (lodo) do líquido. O lodo vai para os tanques digestores onde passa por um processo biológico denominado “digestão”, que reduz os organismos da matéria orgânica, transformando-a em substâncias mais simples, que contém elementos indispensáveis ao crescimento de vegetais (carbono, nitrogênio e fósforo).

O esgoto doméstico, constituído, essencialmente, de água e matéria orgânica, suspensa ou dissolvida no meio líquido, quando lançado nos rios consome o oxigênio da água, “matando” o rio, peixes e outras espécies. A matéria orgânica é o alimento para microorganismos (bactérias, algas, etc).

Quando há excesso de alimento (matéria orgânica), os microorganismos se reproduzem. O oxigênio que necessitam para o seu metabolismo é retirado da água do rio. “O chamado lodo, resultante do tratamento, não se trata, portanto, simplesmente, de resíduos de esgoto, mas de uma massa viva de microorganismos”, esclarece Rui Cesár Bueno, gerente do Setor de Tratamento de Esgotos de Franca (SP), que foi a primeira unidade a receber do Ministério de Abastecimento e Agricultura, o certificado de “Estabelecimento Produtor de Insumo Agrícola”.

Lá nasceu, em 1999, o “Sabesfértil”, nome atribuído ao biossólido desenvolvido pela Sabesp em parceria com o setor acadêmico de universidades do interior paulista. Partindo de etapas já processadas por outras unidades da empresa, na década de 80, com aplicações no plantio de eucalípto, os pesquisadores de Franca correram “em busca de uma utilização nobre”, conta Bueno. Ele observa que uma vez tratado, o produto quase não apresenta metais pesados ou, se tem, a quantidade é muito baixa, mil vezes inferior ao estabelecido pela legislação estadual que disciplina o uso como condicionador do solo. Mais informações: http://www.sabesp.com.br/a_sabesp/tecnologia/sabesfertil_na_agricultura.htm

Os primeiros testes foram realizados no cultivo do milho, eucalipto e café com a participação dos campus de Jaboticabal da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq), em Piracicaba, e Embrapa. Em 1999, o fertilizante gerado passou a ser aplicado basicamente nas culturas do café e do milho, tendo sido testadas em sorgo, cana-de-açúcar e eucalípto. Mais recentemente, começou a ser experimentado em citros com o acompanhamento de resultados em lavouras de laranja, sob coordenação da Unesp. O seu aproveitamento, porém, não é recomendável em produtos que são consumidos crus ou de contato direto com o solo como batata, cenoura e hortaliças. Já em plantações de árvores que servem de matéria-prima para as fábricas de papel, sua eficácia tem sido comprovada. As espécies crescem mais rápido.

Há ainda outras aplicabilidades para o lodo entre as quais está a construção civil (no caso do produto derivado do tratamento de água) com a transformação em matéria-prima para a produção de material cerâmico como tijolos. Seu objetivo é reduzir o impacto ambiental na extração de argila para cerâmica simultaneamente à destinação ambientalmente correta do lodo das ETAs.

No caso das banananeiras e pupunheiras, se os testes forem aprovados, os agricultores, em sua maioria de pequeno porte, das regiões do Vale do Ribeira, Litoral Sul e Norte, poderão receber gratuitamente o insumo, informa o técnico de empreendimentos da vice-presidência da Sabesp, no Litoral, Ricardo Oliveira. Nestas áreas, que vão da divisa de São Paulo com o Paraná até os pontos fronteiriços com o Rio de Janeiro, existem cerca de 100 milhões de pés de banana e 20 milhões de pés de pupunha, observa Oliveira.

Benefícios do biossólido

Além dos benefícios para o meio ambiente, Oliveira aponta a vantagem do biossólido em relação a outros adubos orgânicos: “é 4,5 vezes mais rico do que o esterco retirado de curral e tem mais nutrientes do que as sobras de camas poedeiras”.

Enumera ainda que o insumo ajuda na fixação de nutrientes, na porosidade do solo e evita a erosão. Com o seu potencial de mineralização, mantém o solo nitrogenado por mais tempo. Ele lembra que há milênios já se aplica a mesma técnica na Ásia e é uma prática também seguida em várias outras partes do mundo como Estados Unidos, Inglaterra, e Austrália. Antes de ser utilizado com essa finalidade, porém, o biossólido passa por uma checagem para verificar se em sua composição não há substâncias e microorganismos em quantidades elevadas que possam vir a prejudicar o solo e os aqüíferos subterrâneos e se não atende as especificações necessárias, é disposto em aterros sanitários.

De acordo com Bueno, o maior índice de utilização ocorre na França, onde de um total de 502 mil toneladas/ano produzidos, 58% são destinados para fins agrícolas. Mas a maior quantidade é registrada nos Estados Unidos. Os americanos aplicam 55% relativos a uma produção de 3,8 milhões de toneladas/ano.

Os demais estão assim distribuídos: Dinamarca – 54% (92 mil toneladas), Espanha – 50% (175 mil ton), Reino Unido – 44% (488 mil ton), Alemanha – 27% (724 mil) e Bélgica – 29% (17.200 ton). No Brasil, em virtude do pequeno número de estações de tratamento de esgotos, esta forma de reciclagem vem sendo aplicada apenas em Brasília, no Paraná e, mais recentemente, em Franca, e agora, na fase experimental da região do Vale do Ribeira e Litoral paulista.

De acordo com a Sabesp, os estudos preliminares já indicam para a viabilidade do uso do lodo como adubo. Nas análises, serão avaliadas as alterações na fertilidade do solo, a qualidade dos frutos e a produção. Nos dias 26 e 27 de setembro, haverá uma reunião técnica sobre o uso agrícola de biossólido em Ubatuba, litoral norte de São Paulo.

Agência Brasil

Petrolina terá serviço independente

A equipe técnica do International Finance Corporation (IFC) – braço privado do Banco Mundial – recebeu da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) os balanços financeiros e informações operacionais na Regional de Petrolina, responsável pela cobertura do saneamento básico de treze municípios da região do São Francisco. O IFC foi contratado pelo Governo estadual para fazer o levantamento dos ativos da estatal de saneamento em Petrolina e apresentar um modelo de privatização dos serviços no município.

Até dezembro o International Finance Corporation (IFC) vai apresentar ao Governo Federal e à Prefeitura de Petrolina o levantamento de todos os ativos da estatal e a modelagem da nova empresa Águas de Petrolina, que passará a deter a concessão dos serviços de saneamento e fornecimento de água daquele município.

Agbar de olho no Brasil

A empresa Águas de Barcelona (Agbar), após comprar os ativos referentes aos negócios com água da Endesa, anuncia sua disposição de ampliar a atuação na América Latina. O presidente do grupo, Richard Fornesa, reitera seu compromisso com a Argentina e planeja aumentar sua presença no Brasil e no México. Além da adimistração de várias concessões na Espanha e América Latina o grupo catalanhão atua também no tratamento de resíduos, inspeção veicular e seguros.

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