Planejamento em Educação Ambiental: Pressupostos e Procedimentos

Sérgio Luís Boeira

O mundo da educação deixa de ser convencional nas últimas três décadas do século XX na medida em que educadores de várias áreas do conhecimento, em número crescente, percebem seu trabalho como estando crescentemente permeado por aspectos da chamada educação ambiental, ainda que esta não seja definida de forma disciplinar.

Profissionais do ensino que não percebem nenhuma vinculação de seu trabalho com as questões ambientais são raros e estão em processo de extinção, dado o quadro alarmante da crise socioambiental e civilizatória provocado pela espécie humana. No entanto, em que pesem as conferências mundiais, os inúmeros eventos públicos e acadêmicos que impulsionam a educação ambiental (EA), vinculando-a crescentemente com a noção de sustentabilidade (em suas diversas dimensões: ecológica, sociocultural, política, econômica, ética), o fato é que os problemas de formação de profissionais, de planejamento e pesquisa em EA continuam desafiando as instituições educacionais. Estas, de forma geral, não estão preparadas para a EA por terem fincado raízes nas formas de conhecimento fragmentadas, estanques, setoriais, departamentais (paradigma disjuntor-redutor, mecanicista, positivista, cartesiano).

O movimento mundial em favor da multi, da inter e da transdisciplinaridade contrapõe-se a este processo, mas seus êxitos são pouco perceptíveis no plano do ensino, tendo mais importância no âmbito da pesquisa e da articulação teórica. Portanto, pensar sobre os pressupostos e procedimentos da ação de planejar a EA pode vir a ser uma contribuição relevante.

O profissional que pretende fazer educação ambiental deve levar em consideração a história da civilização ocidental e da crise que envolve as diversas civilizações no que se refere à convivência pacífica num planeta com recursos naturais limitados e espaços igualmente limitados para o depósito de materiais descartados como lixo, poluições, etc.

Em cada região, em cada município, em cada cultura, a EA ganha conotações diferentes, mas com alguns pressupostos comuns. Entre estes estão a busca de informações sobre os processos naturais (ciclos ecológicos, geológicos) e sobre seu tensionamento sob a pressão da expansão populacional humana (antrópica), das transformações industriais, tecnológicas, urbanas, de consumo, etc.

Tanto a existência dos processos naturais quanto a percepção destes pelas populações que deles dependem e/ou impactam são fontes de conhecimento indispensáveis para a EA, embora esta não se confunda com a ciência ecológica, nem com a geografia, nem com a sociologia, antropologia, etc. A EA requer diversas contribuições destas e de outras disciplinas científicas, além da filosofia e da pedagogia.

O Planejamento em EA tem pelo menos três etapas:

1. Diagnóstico;

2. Plano de Ação;

3. Execução.

Todas estas etapas acabam influenciando-se umas às outras, formando um ciclo auto-retroalimentado continuamente. O diagnóstico visa pesquisar ou levantar informações sobre uma realidade existente, com suas práticas culturais e sociais em relação ao meio ambiente, incluindo a percepção e compreensão das pessoas envolvidas a respeito destas mesmas práticas. É do diagnóstico que surgem os objetivos gerais e específicos do projeto de EA, visando atender às necessidades detectadas, seja numa comunidade escolar, seja numa empresa, seja numa comunidade rural ou num condomínio de apartamentos. Técnicas de pesquisa sociológica, antropológica ou de psicologia social são úteis nesta etapa, como questionários abertos ou de múltipla escolha, pesquisa-ação, pesquisa participante, etc.

Na etapa do plano de ação, o projeto de EA deve considerar seriamente as diferentes percepções da realidade, especialmente daqueles cujo comportamento gera algum tipo de dano ambiental ou desequilíbrio ecológico e daqueles dispostos a mudar a situação. O planejamento em EA, para ser eficaz, deve ser participativo, buscar o envolvimento racional-afetivo do público-alvo, para que este possa aprender de forma ativa, criativa, sendo sujeito do seu próprio aprendizado.

A ampliação da percepção das potencialidades humanas, dos diversos tipos de inteligência, precisa ser estimulada. Neste sentido a teoria das inteligências múltiplas, de Howard Gardner, é uma contribuição muito relevante.

A EA, com base nos objetivos gerais e específicos da primeira etapa, introduz e promove o aprendizado criativo de novos valores e atitudes nesta segunda etapa, viabilizando uma releitura do mundo, da realidade local, a percepção das relações desta com a dinâmica interna (psicológica, pessoal) e com a realidade global (planetária). A renovação da auto-imagem e da percepção de si mesmo no mundo e na coletividade é a base para a mudança de comportamento, de consumo, de produção, etc.

Na terceira etapa, a da execução, entram em confronto, de forma ainda mais acentuada, dois padrões de comportamento e de consciência, o anterior e o posterior ao plano de ação. O anterior, dominado pelo senso comum, é caracterizado pelas crenças, pela percepção fragmentada, caótica e intuitiva da realidade, enquanto o segundo é caracterizado pela busca de um bom senso, de um senso crítico, coerente, por uma percepção da realidade orientada pelo diagnóstico e pelos valores ambientalistas.

A etapa de execução dá seqüência operacional aos objetivos gerais e específicos, com o uso de técnicas de sensibilização e de criação, de formulação de imagens e conceitos sobre a realidade existente e sobre a realidade a ser construída. Nesta terceira etapa o público-alvo também avalia o processo da EA, introduzindo novos objetivos e apontando falhas a serem superadas com base em diagnósticos mais específicos, em pressupostos mais estruturados e hipóteses mais abrangentes.

As realidades comunitárias tendem – por meio da EA planejada e executada de forma participativa – a desembocar numa cultura político-civilizatória voltada para a sustentabilidade econômica, cultural e socioambiental das organizações, seja do Estado, seja do mercado, seja da sociedade civil (terceiro setor). A Agenda 21 da Organização das Nações Unidas e os documentos preparatórios das Agendas 21 locais, estaduais e nacionais são relevantes como referências no atual contexto da educação ambiental.

A noção de sustentabilidade e de ecodesenvolvimento ampliam a percepção dos desafios da educação ambiental comunitária. Tentem a realimentar o debate sobre os pressupostos da EA e estes, por sua vez, constituem novas bases para as três etapas acima referidas.

Sérgio Luís Boeira é doutor em Ciências Humanas (UFSC; área de concentração “sociedade e meio ambiente”) e professor da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). E-mail: slboeira@matrix.com.br e web: www.sj.univali.br/agenda21

Divulgado pela:

Rede Internacional de Comunicação CTA-JMA

Pelo Desenvolvimento Limpo de um Novo Mercado Financeiro!

ONG Consultant, Trader and Adviser – Projeto CTA – Sindicato dos Economistas, no Estado de São Paulo

Educação cidadã

O planejamento em EA implica em pesquisa, levantamento de informações sobre público-alvo, sobre a história geográfica da região na qual se pretende trabalhar, sobre aspectos culturais de produção e consumo (economia), sobre cultura política e jurídica dos envolvidos, etc.

O planejamento em EA não se enquadra na tradição taylorista da administração científica, na qual uns são dirigentes e outros são dirigidos, mas na tradição da busca de participação crescentemente qualificada do ponto de vista ético, científico, técnico e político. A EA é uma educação cidadã.

Efeito multiplicado

O público-alvo do educador ambiental pode vir a transformar-se em multiplicador do processo de EA. Todos podem ser educadores/educandos por meio de novos hábitos, novas práticas sociais, novos conceitos e formas de tratar os recursos naturais em geral.

A consciência de cidadania, a nova ética da responsabilidade pelos danos e pelas formas de recuperação do meio ambiente, a percepção das relações entre história, geografia e cultura do cotidiano da comunidade, da escola, da empresa, etc – isto tudo representa uma renovação dos padrões socioambientais, da qualidade de vida e das potencialidades de compreensão das relações entre sociedade e meio ambiente, cultura e natureza.

Edições anteriores

Como forma de orientar nossos leitores a partir dessa edição vamos listar alguns dos os artigos já publicados neste espaço identificando o número da edição, o título e o autor.

121 – Preservar é preciso, mas o que isto significa?! – Renata Vieira Conde;

120 – DIAA0-2002 – Maurício Pardon e Ricardo Sanchez Sosa;

119 – Quem nada em praias poluídas fica doente? – Cláudia Condé Lamparelli;

118 – Baia da Guanabara: Lições ambientais – Vilmar Berna;

117 – Vítimas da Sede – José Eduardo Rocha;

116 – Educação Ambiental é solução para problemas do Meio Ambiente? – Mauro Guimarães;

115 – Aprender com a cabeça e o coração – Sérgio Luis Boeira;

114 – Exaustão de lençol freático: ameaça oculta à segurança alimentar – IIMA;

113 – Conseqüências econômicas e sociais da crise dos recursos hídricos – TCU;

112 – Um novo padrão monetário – Marcus Azaziel;

111 – Educação, conscientização e mobilização para salvar a água – Marco Tulio Motta;

110 – Um novo modelo de desenvolvimento – Angelo JOsé Rodrigues Lima;

109 – O primeiro ataque ecológico da III Guerra Mundial – Osmar Santos;

108 – A gestão sustentável dos resíduos sólidos -Manfred Feher;

107 – Democracia ambiental e democracia política – Heitor Reis;

106 – Captação e aproveitamento da água da chuva – Viviane Gonçalves e Henrique de Melo;

105 – Perguntas sobre mudanças climáticas – Gert Roland Fischer;

104 – A injusta medição de água em condomínios –

Roque Tomasini;

103 – 22 de março – Dia Mundial da Água –

Cláudio Langone;

102 – Planeta água ou mundo sedento? –

Comitês de Bacias RGS;

101 – Em defesa da gestão sustentável das bacias ibéricas – Manifesto;

100 – Contingencial – Adalberto Egg Passo;

99 – Ibama: 13 anos sem concurso – Felipe Costa;

99 – Ibama: 13 anos sem concurso – Felipe Costa;

99 – Ibama: 13 anos sem concurso – Felipe Costa;

98 – Salvemos São Lourenço – Eugenio Ferraz;

97 – Rio Paraíba: uma luz no fim do túnel – Sidney Grippi;

96 – Gerenciar empresa com o Meio Ambiente – Cecília Cipriano;

95 – Passivo ambientyal- o que fazer quando ele aparece? – Antonio Fernando Pinehrio Pedro;

94 – O custo social da água – quem paga o preço da ineficiência? – Julio Burbano;

93 – Conduta Consciente em Ambientes Naturais – MMA;

92 – Reuso da Água Domiciliar – José Murilo Ferraz Saraiva e João Carlos de almeida Mieli;

91 – A saúde e o saneamento nas Américas – Geroge Alleyenne ;

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