Cláudia Condé Lamparelli
A CETESB monitora cerca 120 praias no Litoral Paulista para avaliação da Balneabilidade, as praias são classificadas como próprias ou impróprias ao banho de mar de acordo com a Resolução do Conama 274/00. Pessoas que nadam em praias consideradas impróprias, devido aos altos índices de colifornes fecais, correm maior risco de contrair uma doença de veiculação hídrica. Diversos estudos internacionais correlacionam o aparecimento dessas doenças com o nível de bactérias fecais encontrado na água.
Resultados – continuação
Este estudo epidemiológico mostrou também que nas praias mais poluídas, somente o contato com a areia já constitui fator de risco para a manifestação de sintoma de diarréia. O risco de ocorrência de náusea e vômito também foi maior para os indivíduos que mantiveram contato direto com a areia. As razões de risco, embora inferiores aos da exposição à água, são significativas.
A tabela 2 apresenta indicadores de agravo à saúde relacionados com as condições de exposição. Observa-se que, com exceção da praia B, todos os indicadores foram coerentes entre si, isto é, concordantes.
Tabela 2 – Taxas de risco atribuível à ocorrência de sintomas, devido à exposição à água e areia nas praias estudadas
Sintomas
Praias
A
B
C
D
E
Dor
de estômago
–
2,153
1,939
–
2,045
Diarréia
–
2,555
2,375
2,260
2,065
Náusea
–
2,512
–
–
2,202
Vômito
–
2,861
2,654
2,507
2,618
Coriza
–
1,690
–
–
1,756
Dor
de ouvido
–
1,964
–
3,122
2,500
Conjuntivite
–
–
2,371
–
1,936
Febre
5,158
–
–
–
2,954
A variação temporal das incidências dos sintomas representada na figura 3, mostra que as duas primeiras semanas de janeiro apresentaram níveis muito superiores ao restante do período. Essa é a época em que as condições de balneabilidade são piores, de um modo geral, em função das chuvas e do aumento da população no litoral com conseqüente aumento na geração de esgotos domésticos.
Correlação com indicadores microbiológicos
Descrição das
variáveis
%imprópria
= porcentagem do tempo nos meses de janeiro e fevereiro/1999 que a praia
ficou imprópria para o banho.
#
Sin Agua = número de sintomas, dentre os pesquisados, que foram manifestados
nos banhistas que tomaram banho de mar.
Inc
7 anos = Taxa de incidência de sintomas de doenças na faixa etária até
7 anos de idade.
Alta
expos = Taxa de incidência de sintomas no grupo altamente exposto (mergulha/ingere).
#
Sin Areia = número de sintomas, dentre os pesquisados, que foram manifestados
nas pessoas que não entraram na água e tiveram contato direto com a areia.
Os modelos explicativos envolvendo as taxas de incidência dos sintomas com os indicadores bacteriológicos de qualidade de água do mar apresentaram baixo coeficiente de explicação, apontando para a dificuldade de se evidenciar uma relação direta entre as taxas diárias de incidência de sintomas e os valores médios dos indicadores bacteriológicos observados no mesmo dia. Para alguns indicadores o ajuste não foi significativo.
Dentre os indicadores de qualidade da água do mar o enterococos foi o que melhor se correlacionou com os indicadores de agravo à saúde (Tabela 3).
Estes dados estão em concordância com os estudos epidemiológicos internacionais que também apontam o enterococos como o indicador mais adequado para avaliação de riscos à saúde oriundos da exposição à água do mar, por ser mais resistente à esse ambiente quando comparado à outras bactérias fecais. A recente inclusão de novos parâmetros, entre eles, os enterococos, na nova Resolução do CONAMA sobre balneabilidade representa um avanço na avaliação da qualidade microbiológica das águas recreacionais marinhas.
Tabela 3
– Correlação entre as médias geométricas dos indicadores microbiológicos e os indicadores de saúde (incidência de sintomas)
Conclusões
A partir desse estudo foi possível concluir que:
O grupo dos banhistas apresentou maior incidência de sintomas em relação aos indivíduos que não entraram na água, e esta foi crescente quanto maior o grau de exposição.
As crianças com idade inferior a sete anos foram o grupo etário que apresentou maior número de banhistas com sintomas.
As praias que permaneceram a maior parte do tempo classificadas como Impróprias, apresentaram maior número de banhistas com sintomas.
As primeiras semanas de janeiro, foram o período no qual observou-se maior incidência de sintomas em banhistas.
Não foi possível estabelecer um nível de indicador fecal a partir do qual o risco de se contrair gastroenterite passasse a ser muito elevado.
Dentre os indicadores microbiológicos medidos, o enterococos foi o que apresentou maior correlação com o aparecimento de sintomas gastrointestinais nos banhistas.
Apesar do coliforme fecal ter apresentado baixa correlação, a porcentagem de tempo que a praia permanece imprópria apresentou boa correlação com a manifestação dos sintomas estudados.
Recomendações
Para minimizar o risco de se contrair doenças de veiculação hídrica em águas recreacionais, recomenda-se:
1) Sempre informar-se sobre as condições de balneabilidade antes de ir à praia;
2) Não entrar na água quando a praia for considerada imprópria;
3) Se houver o contato com a água em praia com qualidade imprópria, não mergulhar a cabeça e permanecer o menor tempo possível na água;
4) Evitar contato direto com as areias das praias impróprias;
5)As medidas acima devem ser colocadas em prática principalmente para crianças com até 7 anos de idade, pois estas constituem a população mais suscetível.
Equipe e autora
Equipe técnica – CETESB:
Dra. Claudia Condé Lamparelli, Biom. Maristela M. de Caires (ERQL); Dra. Maria Inês Z. Sato (DA) Biom. Elayse M. Hachich (DAMP); Dra. Nilda Fernícola; Anali Epindola M. de Campos; Maria Thereza de Oliveira Filha (EERT); Vera Lucia S. Cezaretto (C); Antonio Bruni (AIA).
Agradecemos também, a participação de Ana Cristina Truzzi, Denise Devechi, Kátia Maria Diniz, Rubia Kuno, Cintia Okamura e Ives Alcazar Gomes.
Autora
Cláudia Condé Lamparelli é PhD, Gerente do Setor de Águas Litorâneas da CETESB, Mestre em Ecologia e Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo. E-mail: claudial@cetesb.sp.gov.br.
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