Quem nada em praias poluídas fica doente? Parte 1

Cláudia Condé Lamparelli

Essa é uma pergunta difícil de se responder. Os especialistas sabem que isso pode ocorrer e que o risco depende de uma série de fatores. Os leigos em geral, apresentam duas atitudes possíveis, a daqueles que acham que vão contrair todo e qualquer tipo de doença e a daqueles que se consideram imunes a tudo e que afirmam nunca terem adoecido por causa de um simples banho de mar.

Mas o que acontece de fato? Uma das formas de se chegar a uma conclusão é através da realização de um Estudo Epidemiológico. Este tipo de trabalho busca compreender a ocorrência de doenças em um grupo de indivíduos de uma determinada população, subdividindo-os em expostos e não expostos a uma situação ou condição. No caso da balneabilidade, trata-se de entender a ocorrência de doenças de veiculação hídrica (doenças transmitidas por microrganismos patogênicos presentes na água) em banhistas.

Estudos epidemiológicos para águas recreacionais são bastante complexos e, por esse motivo raramente são realizados. Uma revisão dos trabalhos epidemiológicos que correlacionam doenças ao banho de mar, publicada recentemente, relaciona apenas 22 estudos, em vários países, desde a década de 50 até 1998. Os países que realizaram mais estudos foram: a Grã Bretanha e os Estados Unidos, com 5 e 4 respectivamente. Oito países apresentaram dois estudos e outros dez, apenas um cada.

A CETESB monitora cerca 120 praias no Litoral Paulista para avaliação da balneabilidade, as praias são classificadas como próprias ou impróprias ao banho de mar de acordo com a Resolução do CONAMA 274/00. Pessoas que nadam em praias consideradas impróprias, devido aos altos índices de colifornes fecais, correm maior risco de contrair uma doença de veiculação hídrica. Diversos estudos internacionais correlacionam o aparecimento dessas doenças com o nível de bactérias fecais encontrado na água.

Com o intuito de verificar a existência dessa correlação no Brasil, a CETESB iniciou no verão de 1999, o presente Estudo Epidemiológico. Ele foi realizado em cinco praias paulistas na região da Baixada Santista. Essas praias eram freqüentadas por grande número de famílias com crianças menores de 10 anos e apresentavam diferentes níveis de poluição.

Os principais objetivos do estudo foram: correlacionar a incidência de doenças gastrointestinais em banhistas e os índices de contaminação fecal das praias do litoral paulista, obter subsídio técnico-científico para uma revisão da legislação estadual e federal quanto aos padrões e parâmetros de avaliação da balneabilidade das praias, além de conhecer o perfil da população que freqüenta as praias paulistas no que se refere a: grupo étnico; faixa etária; sexo; ocupação; renda familiar e local de residência.

Estudo epidemiológico

O estudo epidemiológico realizado foi do tipo “coorte progressiva” – (acompanhamento de um grupo de indivíduos após a exposição a um fator de risco) conduzido para avaliar a manifestação de sintomas gastrointestinais face à exposição à água do mar. Para tanto, foi preparado um questionário sobre o perfil do entrevistado e seu tipo de comportamento na praia quanto ao tempo de permanência, consumo de alimentos, etc. Equipes de entrevistadores percorreram as praias selecionadas durante cinco finais de semana, de 09.01 à 06.02.99, para realizar as entrevistas. Paralelamente, foram colhidas amostras de água em três pontos de amostragem em cada praia para avaliação de sua qualidade sanitária medindo-se as densidades dos seguintes indicadores: coliformes fecais, E.coli e enterococos, que são grupos de bactérias fecais.

Cerca de uma semana após a entrevista na praia, essas pessoas foram contatadas por telefone para responder a outra entrevista, agora referente ao aparecimento de sintomas relativos às doenças pesquisadas. Foram entrevistadas 6.343 famílias ou grupos de pessoas, totalizando 23.235 indivíduos, e destes, 16.637 (72%) foram posteriormente contatados por telefone. Com os 28% restantes não foi possível restabelecer esse segundo contato.

Com as respostas dos questionários da praia e do retorno telefônico foi elaborado um banco de dados, que serviu de base para a análise estatística efetuada utilizando-se o aplicativo estatístico SPSS 10.5. As variáveis analisadas foram: (a) cadastrais; (b) sócio-econômicas; (c) de comportamento na praia; (d) formas de contato com a água e areia; (e) sintomas (dor de estômago; diarréia; náusea; vômito; febre; coriza; dor de ouvido e conjuntivite) além dos resultados da qualidade bacteriológica da água.

Para a validação da correlação entre o banho de mar e os problemas de saúde, na análise estatística os banhistas que tiveram contato com outro tipo de água (outra praia, lagoa, rio ou piscina) foram descartados. Além disso, como muitos são os fatores que podem determinar o aparecimento de sintomas gastrointestinais. foram também consideradas algumas variáveis de controle, como;

(a) consumo de alimentos preparados na praia;

(b) consumo de frutos do mar;

(c) possível exposição ocupacional;

(d) nível de exposição à água (Altamente exposto: mergulha a cabeça e costuma ingerir água do mar; Exposto: entra na água mas não submerge a cabeça; Não exposto: não teve contato com a água do mar).

Tabela 1 : Razões de risco dos diversos sintomas

Sintomas em banhistas

O estudo estatístico revelou que 13% do total de entrevistados (2.162 pessoas), relatou ter apresentado pelo menos um dos sintomas pesquisados. Para 9% este sintoma ou foi vômito, ou febre ou diarréia e para 1% estes três sintomas apareceram simultaneamente.

Constatou-se, também, que as pessoas expostas à água apresentaram mais sintomas do que aqueles que não tomaram banho de mar. O risco de ocorrência de sintomas de doenças de veiculação hídrica foi significativo para o grupo exposto à água do mar.

A Tabela 1 apresenta as razões de risco ou de produtos cruzados (odds ratio: compara as concordâncias entre exposição e presença de doença contra os resultados discordantes desta associação). O valor de referência é 1 para essa estatística, valores maiores que 1 indicam o aumento da incidência devido à exposição. Nota-se que a praia E mostrou maior número e incidência de sintomas, sendo também a que apresentou pior qualidade sanitária das suas águas.

Resultados Estatísticos

Descrição da população entrevistada – Perfil do banhista

Do universo de pessoas entrevistadas, 47% possuíam residência fixa no Município de São Paulo e 38,6% tinham menos de 10 anos de idade. Cerca de metade dos entrevistados disseram que costumavam se informar sobre a qualidade da água das praias sendo que a principal fonte de informação foi o jornal, com 48,5% das citações. As bandeiras de sinalização da CETESB, expostas nas praias, foram citadas por 17,2% dos entrevistados. Entretanto, 7,8% declararam que entravam na água do mar mesmo quando imprópria para banho.

A grande maioria (87,3%) dos pesquisados já havia entrado ou pretendia entrar no mar no dia da entrevista na praia, limitando assim a população-controle, formada por aqueles que não se expuseram ao contato com a água, a 12,7% dos entrevistados. Os banhistas declararam, também, que costumavam permanecer várias horas na praia (a maior parte mais de 4 horas). Com relação aos alimentos, 50% consumiam aqueles preparados na praia e 35% consumiam frutos do mar.

Equipe técnica

Cetesb

Dra. Claudia Condé Lamparelli, Biom. Maristela M. de Caires (ERQL); Dra Maria Inês Z. Sato (DA) Biom. Elayse M. Hachich (DAMP); Dra Nilda Fernícola; Anali Epindola M. de Campos; Maria Thereza de Oliveira Filha (EERT); Vera Lucia S. Cezaretto (C) ;. Antonio Bruni (AIA). Agradecemos também, a participação de Ana Cristina Truzzi, Denise Devechi, Kátia Maria Diniz, Rubia Kuno, Cintia Okamura e Ives Alcazar Gomes.

Autora

Cláudia Condé Lamparelli*,é PhD, Gerente do Setor de Águas Litorâneas da CETESB, Mestre em Ecologia e Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo. Email: claudial@cetesb.sp.gov.br

(1a. de 2 PARTES)

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