Vilmar Berna
A humanidade tem aprendido com os erros ambientais. Ainda bem. Só lamentamos que este aprendizado tenha de ser sempre tão duro, tão difícil, com tantas perdas tanto para o meio ambiente quanto para os seres humanos.
Neste processo de aprendizado, a imprensa tem desempenhado um papel fundamental ao expor informações e reflexões sobre acidentes ambientais, como os dois infelizes episódios, ambos em 1999, e que provocaram uma verdadeira comoção nacional, obrigando as empresas a mudarem realmente de postura.
No primeiro acidente, em 18 de janeiro de 2000, a Petrobras deixou vazar 1,293 milhão de litros de óleo na Baía de Guanabara do duto PE-II, que liga a Refinaria de Duque de Caxias (REDUC) aos terminais da empresa na Ilha D´Água. Seis meses depois, em 16 de julho, novo vazamento da Petrobrás, dessa vez quatro milhões de litros de óleo, comprometeram os rios Saldanha, Barigüi e Iguaçu, no Paraná.
Na época, surgiram os voluntários ambientais, cidadãos empenhados em fazer a sua parte, juntando a emoção do amor à natureza e a indignação pelos desrespeitos, a uma contribuição concreta, indo além da simples reclamação ou denúncia – que são importantes, mas inócuo diante de tantos problemas acumulados e prioridades não atendidas.
Ainda falta uma longa caminhada. É preciso que as empresas garantam instrumentos de participação da sociedade no controle ambiental e no acompanhamento dos projetos e ações ambientais das empresas, pois não se trata de um segredo industrial, mas de um assunto de interesse de toda a sociedade, já que os efeitos de acidentes, como os que ocorreram em 1.999 ultrapassam os limites da indústria.
A própria Petrobrás até tentou criar uma Comissão de Controle Social – CCS, e convidou ambientalistas, lideranças comunitárias, entre outros, para fazerem o acompanhamento, de dentro da empresa, dos prazos e qualidade das obras, programas e ações ambientais. Mas a CCS esbarrou numa exigência da sociedade civil que queria um instrumento independente para acompanhamento dos programas, a que foi chamado de auditoria ambiental social.
O modelo já havia sido implementado com sucesso no Paraná, onde as ONGs ambientalistas foram contratadas pelo Banco Mundial para o acompanhamento das obras de saneamento básico do PROSAM, na Região Metropolitana de Curitiba. Deu tão certo que foi reconhecido como uma das 16 “práticas bem sucedidas” selecionadas pelo governo brasileiro para apresentação no Habitat II, em Istambul, em 1996.
O meio ambiente está longe de se livrar de novos acidentes, infelizmente, pois existe um risco intrínseco ao modelo de desenvolvimento que a sociedade escolheu, movida a petróleo, produtos químicos, necessidade crescente de energia elétrica, etc.
As lições que estes acidentes nos deixaram mostram que os riscos ambientais inerentes à atividade industrial não podem justificar novos descuidos ou falta de prioridade com as questões ambientais.
Divulgado pela Rede Internacional de Comunicação CTA-JMA – Environment Justice x Finance.
Voluntários
Quando aconteceu o acidente na Baía de Guanabara, o Jornal do Meio Ambiente decidiu ir além da notícias e convocou seus leitores para atuarem no resgate e limpeza das aves cheias de óleo e mais de 100 pessoas compareceram na praia do Limão, em Magé (RJ). Seguramente, esta participação fez a diferença para diversas garças, colheireiros, mergulhões, e outros animais. Hoje, são mais de 3 mil voluntários ambientais filiados, o que resultou na criação do IBVA – Instituto Brasileiro de Voluntários Ambientais.
Agora, no próximo dia 28 de julho, com o patrocínio da própria Petrobrás, os voluntários ambientais estão convocando toda a sociedade para participarem de um grande mutirão de limpeza ecológico no litoral da Ilha do Fundão, junto à Baía de Guanabara. A concentração será no Alojamento dos Estudantes.
Mudanças
Para a Petrobrás, os dois acidentes provocaram uma verdadeira revolução interna, primeiro na cúpula da empresa, e aos poucos a mudança de postura vem ganhando cada vez mais os escalões inferiores da empresa, que são quem efetivamente apertam os parafusos e vigiam os painéis de monitoramento.
A empresa anunciou um investimento de mais de 1,3 bilhão de reais em meio ambiente e segurança de suas instalações, inaugurando a era do meio ambiente como prioridade estratégia no negócio das empresas. Menos mal. Pelo menos a empresa indica que está aprendendo com os próprios erros. Os ambientalistas esperam que outras empresas sigam o exemplo.
Autor
Vilmar Berna* é presidente da ONG sem fins lucrativos IBVA – Instituto Brasileiro de Voluntários Ambientais, editor do Jornal do Meio Ambiente
www.jornaldomeioambiente.com.br e recebeu em 1999 o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e Co-Editor da Rede CTA-JMA.
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