Num cenário que admite a possibilidade de a cobrança pelo uso da água se iniciar em 2004, as indústrias de laticínios e frigoríficos na bacia hidrográfica do rio Meia Ponte, em Goiás, estão recebendo orientação de um perito alemão sobre técnicas de redução do uso de água nos processos industriais, melhoramento do aproveitamento energético, reciclagem de resíduos industriais sólidos e diminuição do lançamento de efluentes.
O objetivo é melhorar o índice de eficiência das indústrias e evitar o custo significativo que a cobrança pelo uso da água e pelo lançamento de efluentes irá representar para as empresas que não se modernizarem nos quesitos de recursos hídricos e saneamento.
A primeira parte do projeto, chamada de “Geralat” é dedicada aos laticínios. Sua realização reúne o Sindileite – Sindicato das Indústrias de Laticínios no Estado de Goiás, o Acordo de Cooperação Técnica Brasil-Alemanha e a Semarh – Secretaria de Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Estado de Goiás, através da Gerência Executiva de Recuperação do Rio Meia Ponte. A segunda parte tratará dos frigoríficos e deverá se iniciar em fevereiro de 2004.
O engenheiro alemão Rainer Bertsch, 45 anos, perito em processos industriais adequados ao gerenciamento ambiental e econômico, já esteve por duas vezes no Brasil, avaliando processos produtivos de fábricas no Paraná e em Minas Gerais. Segundo ele, a situação dos seis laticínios goianos que visitou demonstra que o setor está razoavelmente equilibrado para o atual nível de produção.
“Entretanto, deve-se considerar que a indústria de laticínios está em franca expansão no Estado e logo terá problemas graves se não investir no aperfeiçoamento dos processos e na prevenção ambiental”, alertou o perito.
O trabalho do perito consiste em identificar os pontos onde as indústrias estão desperdiçando recursos, energia, água, insumos e matéria-prima. A partir de suas observações, está sendo elaborado um plano de melhoria dos processos industriais para produção mais limpa, redução de perdas de leite, redução da poluição e do lançamento de efluentes, tratamento ambiental e melhor aproveitamento energético. A primeira reunião para apresentação de resultados e recomendações para o setor foi realizada na última sexta-feira, na sede da Federação das Indústrias do Estado de Goiás – FIEG.
A maior parte das indústrias goianas e todos os laticínios visitados pelo perito alemão captam água a partir de poços próprios, artesianos ou semi-artesianos, ao invés de comprá-la da Saneago – Saneamento de Goiás S/A. Com isso, as fábricas têm o líquido à vontade, sem pagar nenhum tostão pela sua captação e uso. Com água farta e gratuita, é natural que o controle do desperdício e a reutilização dos recursos hídricos não ocupasse até agora o topo da lista de prioridades dos investidores.
Entretanto, como vem ocorrendo em todo o País, dentro em breve o instrumento da cobrança pelo uso da água deverá ser implantado em Goiás, primeiro na bacia hidrográfica do rio Meia Ponte, depois nas dos rios dos Bois e Turvo e, mais adiante ainda, nas calhas federais dos rios São Francisco e Paranaíba. A partir de então, a água que os laticínios hoje extraem gratuitamente do subsolo das bacias hidrográficas passará a compor um custo, e um custo muito alto. Também o lançamento de efluentes (água poluída após ter sido usada no processo industrial) nos rios será monitorado e cobrado. Daí o interesse das indústrias em adaptarem seus processos e equipamentos, desde já, para a redução do consumo de recursos hídricos e a diminuição do despejo de água poluída nos rios. Quem não fizer isso pagará tão alto que dificilmente conseguirá manter sua fábrica com as portas abertas.
Em Goiás, se usa a média de 3 litros de água para cada litro de leite processado, então, uma fábrica de porte médio que processa 20 mil litros de leite por dia capta 60 mil litros de água e lança a mesma quantidade – poluída pelo processo industrial – no rio mais próximo, diariamente. Na Alemanha, a razão entre água e leite está em 1/1 e não há lançamento de efluentes porque a água poluída é totalmente tratada e reutilizada, compondo quase que um circuito fechado.
Esgoto
Na questão do tratamento de esgotos, os laticínios em Goiás estão corretamente situados, já que a maioria das grandes e médias fábricas possui ETE – Estação de Tratamento de Esgotos própria.
A ressalva fica por conta do aumento constante do nível de produção, que rapidamente irá superar a capacidade de processamento das ETEs. Para solucionar esse problema, na maior parte dos casos não será necessário construir novas estações – um processo caro e freqüentemente complicado. A própria otimização do processo industrial para redução do uso da água poderá diminuir a razão água/leite dos atuais 3/1 para 2/1, por exemplo. Processando menos água e gerando menos efluentes, cria-se uma folga para maior processamento nas ETEs. Essa é a solução que o técnico alemão sugere de imediato para os laticínios.
Com relação aos resíduos sólidos, a situação das indústrias visitadas também está satisfatória, com prática de coleta seletiva e reciclagem em quase todas elas. O engenheiro Rainer Bertsch deverá apresentar um estudo sugerindo o aprimoramento do ciclo do processo e recirculação do lodo gerado pelas ETEs, que hoje é depositado diretamente em terrenos destinados à agricultura.
Fonte: Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás – Gerência Executiva de Recuperação do Rio Meia Ponte – GeMP
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