O século do clima

Gilberto R. Cunha

Nenhum desses adivinhões que todo final de ano ocupam espaços privilegiados nos veículos de comunicação com as suas previsões, às vezes disponibilizando análises até bem embasadas, mas, na maioria das ocasiões, oferecendo apenas a mais fina flor da charlatanice, foi capaz de, na virada do ano 1900 para 1901, antever que o século XX seria o “Século dos Estados Unidos”. Também, sem a iluminação da clarividência, não havia como, pois o século XIX foi o “Século da Inglaterra”. A Era Vitoriana, dos livros de História (lembram?), marcou o apogeu do Império Britânico, no século XIX. E, mesmo sem que ninguém tivesse imaginado, depois das duas guerras mundiais e, principalmente, com o fim da “guerra fria”, os americanos transformaram-se no centro do mundo, no século XX.

Mesmo que Bin Laden e Saddam Hussein insistam em “não se conformar”, George W. Bush tem se “esforçado” para mostrar que os Estados Unidos ainda estão mandando no mundo nesse começo de século XXI. Mas isso vai ser assim por quanto tempo? Os chineses, apesar dos “olhinhos apertados”, andam enxergando longe. E muita gente já entende que, talvez antes do que se possa imaginar, o século XXI tem tudo para entrar para a História como o “Século da China”. Sei que você, não necessariamente, vai concordar com isso, pois, nessa seara, a controvérsia é grande. Tem os “e se isso ou se aquilo”? O curso da História nem sempre segue o rumo previsível. O século XX era para ser o “Século da Alemanha”; não tivesse a II Guerra Mundial interrompido os planos de Hitler.

Lá se foram três anos de século XXI. E, mais do que se especular qual país vai dominar o mundo nesse começo de terceiro milênio, começa a ganhar forma uma corrente de pensamento que julga que o século XXI deverá entrar para a História como o “Século do Clima”. O sociólogo americano Michael H. Glantz, que se dedica ao estudo das relações entre clima e sociedade, está entre os defensores e propagandistas dessa tese. Por enquanto, isso ainda faz parte do mundo da idéias, mas se admite como bem provável que o novo século não será dominado por um único país, por uma personalidade qualquer, pela religião A ou B, por ideologias X ou Y (inclua-se aqui o “ambientalismo”) ou por conflitos de qualquer natureza. São muitas as evidências indicando que as grandes discussões sobre o clima mundial deverão dominar a atenção do mundo, em um futuro não muito distante. Como destaca Michael Glantz: “It is foreseeable that this century will be the climate century”.

Razões para se pensar que o clima global deverá ser o centro de calorosos debates nesse século que ora inicia existem de sobra. As evidências de um aquecimento global induzido pela atividade humana se acumulam a cada dia que passa, e, em muitos aspectos, não são mais discutíveis como outrora foram.

Registros de desastres relacionados à variabilidade climática extrema são manchetes freqüentes nos veículos de comunicação. Quem não lembra de furacões devastadores como Hugo, Andrew e Mitch, das inundações na Europa (1993 e 1995), de chuvas destruidoras no Quênia (1997), do El Niño de 1997-1998 e suas anomalias climáticas relacionadas, das chuvas torrenciais e os deslizamentos de terra na Venezuela (em dezembro de 1999), da seca severa no centro e no sudeste da Ásia (1999 a 2001), das inundações que causaram centenas de mortes em Moçambique (2000 e 2001) e tantos outros exemplos mais, que ilustram bem a vulnerabilidade social frente às variações do clima.

Os donos dos séculos

Não precisamos mais que os últimos 500 anos de História, para percebermos que o domínio de povos e de nações em determinados períodos sempre houve.

Os portugueses, graças à invenção de um tipo de embarcação capaz de ficar dias e dias navegando “por mares nunca dantes navegados” foram os maiorais do século XVI.

Portugal com as suas possessões na costa da África, no subcontinente Indiano, no sudeste da Ásia, na China e, principalmente, pela descoberta dessa amada terra chamada Brasil, foi o senhor absoluto nos anos 1500s.

Os espanhóis, os franceses e os holandeses, dependendo da perspectiva que se olhe, também tiveram os seus momentos de glória. Mas, a pergunta que não quer calar é esta: quem vai dominar o século XXI?

Autor

Gilberto R. Cunha é pesquisador da Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS.

Leave a Reply

Your email address will not be published.