Eugênio Ferraz
Parafraseando Manuel Bandeira, em um momento histórico para Ouro Preto, à época da criação do Patrimônio Histórico Nacional, permitimo-nos, hoje, dizer: “Meus amigos, meus inimigos, salvemos São Lourenço”.Ouro Preto foi salva! Hoje é considerado monumento não apenas Nacional, mas Mundial.
E São Lourenço? A famosa e querida estância hidromineral do Sul de Minas – que junto às demais estâncias forma o Circuito das Águas – vem sendo espoliada de seu maior Patrimônio, de sua única riqueza, as suas fontes de água mineral.
Há anos vimos presenciando alterações em suas incomparáveis águas, tanto no gosto quanto na quantidade que jorra (ou jorrava?…) de suas bucólicas fontes… O limite agora, no entanto, foi ultrapassado. Minas Gerais e o Brasil vêm perdendo um dos seus maiores patrimônios naturais.
A catástrofe das chuvas de janeiro de 2000 tem sido enganosamente usada como justificativa para a perda da qualidade e a redução na quantidade das águas disponíveis nas fontes do Parque das Águas de outrora, que teve até seu nome aviltado, chamando-se agora “Parque das Fontes”.
Entretanto, exatamente em julho de 1999, depois de uma ausência de quase cinco anos, já podíamos presenciar o problema pessoalmente e, entre assustados, apreensivos e com enorme aperto na alma, constatar o que já estava notório para tantos.
Um tanto tardiamente e, parece-nos, em tímida iniciativa, a comunidade começava também naquela época a perceber a proximidade do fim, em crescente certeza de que algum devaneio ilusório não era irreal, mas sim a constatação de uma realidade que, em tempos idos e que já não voltam, de forma brutal se apresentava.
Em um raro momento de lucidez de fantasia, relembramos de nossa infância e adolescência naquela feliz cidade e, como em um carrossel do tempo, voltamos ao presente – triste presente para São Lourenço – com a esperança inabalável de que o Senhor Deus Pai não permita que estraguem um dos seus mais preciosos toques de genialidade e graça, iluminando os detentores dos poderes constituídos – e dê forças à população local – a fim de que haja um basta imediato, firme e inequívoco neste desastre ecológico e econômico de fortíssimo impacto ambiental.
Recentes matérias na mídia, em particular as patrióticas reportagens do Estado de Minas, vêm sendo publicadas a respeito deste assunto. Salvo melhor juízo, no entanto, ações concretas, efetivas, eficazes e, sobretudo ágeis, não ocorrem para que haja um imediato basta na destruição deste incomparável patrimônio brasileiro, pois, suas “sui generis” águas são classificadas entre as melhores do mundo. Merece destaque especial a Vichy, que se classifica logo após a primeira do planeta, existente na famosa cidade francesa que lhe empresta o nome; lá, com certeza, absolutamente preservada, ao contrário do que em São Lourenço ocorre através da ação de uma multinacional, ironicamente francesa (a Perrier), controlada por outra multinacional suíça (Nestlé).
Este é, pois, um resumo do que vem ocorrendo em nossa terra e que ora divulgamos junto aos diversos níveis de poder, no intuito de tentar sensibilizar autoridades – e a população brasileira em geral – visando à adesão e envolvimento de muitos, tantos quantos houverem de bom coração e patriotismo neste país, nesta causa cívica, de brasilidade e mineiridade em um contexto de ordem, legalidade e respeito, que a todos nós cumpre preservar.
“Meus amigos, meus inimigos, salvemos São Lourenço…”
Cidadania
“Iniciava-se, através de alguns visionários, abnegados lutadores, o Movimento Cidadania pelas Águas que, mesmo sob forte pressão, vem continuamente crescendo, denunciando e comprovando a real dimensão da verdadeira catástrofe, irreversível e irrecuperável para a aprazível cidade que, com suas “virtuosas águas” medicinais, talvez jamais volte a ser a mesma”.
Sensibilidade
“O Movimento Cidadania pelas Águas, ao produzir o “Dossiê Nestlé: a Teoria da Conspiração”, que ainda mais acentua a aguda sensibilidade da indefesa população de São Lourenço, elaborado com rara competência e objetividade, não permite quaisquer vislumbres de dúvidas acerca daquilo que salta aos olhos de todos”.
Maior bem
“Certamente, em seus países de origem jamais ambas fariam o que vêm fazendo em São Lourenço, ferindo de morte o maior bem deste século, em especial o existente nos subterrâneos aqüíferos da cidade, que ali existem em concentrações e diversidades únicas no mundo”.
Autor
Eugênio Ferraz é engenheiro Civil e de Segurança, é o Gerente Regional do Ministério da Fazenda em Minas Gerais, sendo responsável pela restauração de diversos monumentos nacionais.
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