Gland, Suíça – Um informe do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) está alertando que a indústria agrícola deve manejar a água de maneira mais eficiente, tanto para evitar uma crise da água, como para satisfazer a crescente demanda mundial de alimentos.
O informe destaca que a produção mundial de alimentos deve aumentar para alimentar uma população em expansão, com um crescimento esperado de 2 bilhões de pessoas nos próximos 50 anos. A agricultura utiliza 70% da água do mundo, chegando até 90% em muitos países em desenvolvimento. Mas somente entre 20 e 25% dessa água chega realmente à planta, uma vez que grande parte dela se perde durante sua passagem pelos campos.
O informe diz que muitos grandes países produtores de alimento, como EUA, China, Índia, Paquistão e Espanha chegaram, ou estão por chegar, a seus limites de recursos de água renovável. Os níveis freáticos estão baixando anualmente até em 10 metros nos casos mais graves, obrigando a um abastecimento menos confiável de água potável e para a salubridade pública.
Jamie Pittock, diretor do Programa Águas para a Vida, da WWF, disse: “Se não abordamos o desperdício de água na agricultura, o problema terá graves conseqüências para o alcance da Meta de Desenvolvimento do Milênio de reduzir à metade o número de pessoas que passam fome até o ano 2015”.
WWF F recomenda diversos métodos para um manejo mais eficiente da água, a fim de enfrentar a crise de alimentos e de água. Destaca que as principais causas da escassez de água são os sistemas de irrigação inadequados e a expansão dos cultivos que ameaçam o meio ambiente. Estes foram impulsionados por subsídios mal dirigidos, por um escasso compromisso público e político diante da crise, e por uma legislação ambiental sem força.
O WWF identifica o algodão, o arroz, o açúcar e o trigo, como os cultivos mais “sedentos” em nove bacias de grandes rios ricas em biodiversidade.
A entidade adverte que cultivos mais de acordo com a localização geográfica e a temporada produziriam uma maior “produtividade por gota”. Por exemplo, a bacia do Rio Níger se semeia arroz na temporada seca, e por conseqüência, se requer mais água. Se fosse semeado o trigo durante essa temporada, se poderia reduzir o uso de água a menos de 1/3, em média, produzindo igualmente um cultivo de valor alimentício e comercial.
O informe da WWF sugere também que os sistemas de irrigação podem melhorar por meio do aperfeiçoamento dos projetos, manutenção regular e por mecanismos efetivos de drenagem.
Onde exista escassez, os governos devem repartir as águas de maneira mais justa entre os granjeiros. Deve ser assegurado também que permaneça água suficiente nos rios e banhados para manter o abastecimento de água, a pesca e os hábitats de vida silvestre.
A alteração do curso natural dos rios através de represas, por exemplo, pode redundar no esgotamento das reservas de peixes por causa da alteração de seus ciclos de reprodução ou o bloqueio de suas rotas de migração. Os peixes de água doce representam uma importante fonte de proteínas para muitos dos pobres do mundo.
Jamie Pittock acrescentou que “os governos devem ir além das simples promessas. Juntamente com a indústria alimentícia e os consumidores, deveriam iniciar uma nova revolução agrícola, uma revolução que assegure que sempre haverá suficiente alimento e água para todos”.
Desertificação – outra ameaça
Conforme a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a desertificação foi definida como sendo a degradação da terra nas zonas áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas resultantes de fatores diversos tais como as variações climáticas e as atividades humanas. Este conceito foi negociado durante a Conferência do Rio (ECO 92) e é, hoje, internacionalmente aceito. Seu conteúdo pode ser entendido em dois níveis:
1) No que diz respeito às variações climáticas, a seca é um fenômeno típico das regiões semi-áridas;
2) No que diz respeito às ações de degradação da terra induzidas pelo homem, deve-se entendê-la como tendo, pelo menos, cinco componentes, conforme propõe a FAO:
a) Degradação das populações animais e vegetais (degradação biótica ou perda da biodiversidade) de vastas áreas do semi-árido devido à caça e extração de madeira;
b) Degradação do solo, que pode ocorrer por efeito físico (erosão hídrica ou eólica e compactação causada pelo uso da mecanização pesada) ou por efeito químico (salinização ou sodificação);
c) Degradação das condições hidrológicas de superfície devido à perda da cobertura vegetal;
d) Degradação das condições geo-hidrológicas (águas subterrâneas) devido a modificações nas condições de recarga;
e) Degradação da infra-estrutura econômica e da qualidade de vida dos assentamentos humanos.
Esta definição foi adotada pelo PNUMA e, com base nela, foram definidas as áreas susceptíveis à Desertificação. Como pode-se ver claramente, as áreas susceptíveis são aquelas submetidas aos climas áridos (árido, semi-árido e sub-úmido seco).
O escopo de aplicação da Convenção restringe-se, portanto, às regiões semi-áridas e sub-úmidas secas do mundo. Estas regiões somam 1/3 de toda a superfície do planeta. São mais de 5 bilhões de ha (51.720.000 km2) em cerca de 100 países que podem ser afetados direta e indiretamente pela desertificação. Fonte: MMA
Notas
As bacias hidrográficas analisadas no estudo são: Rio Grande (EUA/México), Konya (Turquia), Níger e lago Chad (África Ocidental), Zambezi (sul da África), Indus (Paquistão), Yang-tse (China), Mekong (sudeste de Ásia) e Murray Darling (Austrália).
Na data de 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) está promovendo a “Aliança Internacional contra a Fome”, destinada a ajudar a alimentar a um número estimado de 800 milhões de pessoas que sofrem desnutrição no mundo.
Nas planícies Kafue da Zâmbia, o WWF está trabalhando com os proprietários das plantações para reduzir as fugas e a poluição que fazem com que o rio fique obstruído por jacintos e reduza sua capacidade de prover muitos outros serviços.
Na bacia do rio Indus, no Paquistão, o WWF está trabalhando com os granjeiros para melhorar suas práticas de irrigação e reduzir as aplicações de químicos, através de Escolas Agrícolas para Granjeiros organizadas com agências locais de governo.
Na bacia do rio Murray Darling, fonte de metade da produção agrícola da Austrália, a parceria é com a indústria agrícola para melhorar a eficiência da água e para restabelecer cursos adequados nos rios para outros propósitos.
As reservas de peixes de água doce diminuíram em até 90% em muitos dos maiores rios do mundo – como o Yang-tse, na China, o Volga, na Rússia, o Níger na África Ocidental, o Rio da Prata, na América do Sul, e o rio Murray Darling, na Austrália – por causa de alterações no curso natural dos rios.

Contaminação por gasolina
Um informe do Instituto Nacional da Água (INA), da Argentina, revelou que existe contaminação com petróleo em 11 poços de água em uma zona vitivinícola da província de Mendoza. O informe havia sido solicitado à INA pela petrolífera Repsol-YPF sete anos atrás e guardado por uma cláusula de confidencialidade.A presença de hidrocarburetos em amostras de gases do aqüífero foi divulgada no mês de agosto, a pedido do Departamento Geral de Irrigação, através de uma gestão da Fiscalia de Estado. O informe da INA, publicado pelo diário Los Andes, detecta a presença de “hidrocarburetos totais e determinados compostos aromáticos” nos aquíferos. Em alguns poços selecionados para amostra foram encontrados “metais pesados”.
O porta-voz da Refinaria Repsol YPF, Fabian Falco, disse que “não existem resíduos de hidrocarburetos na área da refinaria”. Mas o secretário de gestão Hidrica de Irrigação, Javier Zulueta, assegurou que o informe é “um antecedente importantíssimo na avaliação do impacto da refinaria sobre os aquíferos”. Zulueta destacou que a empresa petrolífera cumpriu com a maioria das exigências do Departamento. Mas não se pode descartar que, “com semelhante estrutura de mais de 60 anos, possa teer um vazamento”.
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