Calor afeta qualidade da água

A onda de calor que atinge a Europa desde o início do mês provoca grandes prejuízos materiais, em conseqüência dos estragos causados pelos incêndios florestais e pelo maior consumo de energia elétrica. Mas nada se compara ao elevado número de óbitos – uma verdadeira epidemia. A mídia fala em 5.000 mortes na França, 1.000 na Espanha e outras 1.000 na Itália. Com a qualidade da água comprometida, esses números podem aumentar.

“As mudanças climáticas globais, com verões mais quentes e invernos mais rigorosos, estão causando grande impacto sobre as populações. A onda de calor, que está sendo devastadora para a Europa, poderá se agravar por conta do aquecimento da água. A elevação de temperatura de rios e lagos faz com que aumente também a evaporação, resultando na eutrofização da água, ou seja, há um aumento de bactérias e organismos poluentes que, por sua vez, aumentam os riscos de doenças para a população dependente desse abastecimento”, diz José Galizia Tundisi – cientista presidente do Instituto Internacional de Ecologia, com sede em São Carlos (interior paulista).

Autor do livro recém-lançado “Água no século XXI – enfrentando a escassez”, Tundisi afirma que a “água com alta concentração de poluentes pode favorecer a transmissão de doenças como cólera, disenteria, febre tifóide, hepatite infecciosa, esquistossomose, poliomielite, malária, febre amarela e dengue, só para citar algumas, já que cerca de 80% das doenças têm veiculação hídrica”.

Segurança da água é também o tema sob o qual vão girar as atividades do Dia interamericano da Água a ser celebrado em todo o continente das três Américas no dia 04 de outubro. Segundo o material, a ser distribuído brevemente, geralmente, se define como água segura aquela apta para o consumo humano, de boa qualidade e que não produz doenças. É a água que foi submetida a algum processo de potabilização ou purificação caseira.

No entanto, determinar que uma água é segura somente em função de sua qualidade não é suficiente. A definição deve incluir outros fatores como a quantidade, a cobertura, a continuidade, o custo e a cultura hídrica. É a conjugação de todos estes aspectos o que define o acesso à água segura.

Água Segura = Cobertura + Quantidade + Qualidade + Continuidade + Custo + Cultura hídrica

Ninguém deve ficar excluído do acesso à água de boa qualidade. Não obstante, atualmente no mundo 1,1 bilhão de pessoas carecem de instalações necessárias para abastecer-se de água e 2,4 bilhões não têm acesso a sistemas de esgoto. Na América Latina e no Caribe, em torno de 130 milhões de pessoas não dispõem de conexões domiciliares de água potável, 255 milhões não têm conexões de esgoto e somente 86 milhões estão conectadas a sistemas de esgoto adequados.

A cobertura total de água potável é de 84,59%. Desta proporção, 92,98% correspondem à área urbana e 61,22% à rural, o que reflete uma real desigualdade no acesso. Os percentuais de população sem serviço de água potável são cinco vezes mais altos nas zonas rurais do que nas urbanas.

No círculo perverso da relação entre pobreza e doença, a água e o esgoto insuficientes constituem ao mesmo tempo a causa e o efeito: os que não dispõem de um serviço de água suficiente são geralmente os mais pobres. Se fosse possível abastecer a esta população com um serviço básico de água potável e esgoto, a morbidade por diarréia se reduziria em 17% anualmente.

Quando falamos que a água segura depende também da quantidade adequada a referência é à necessidade de que as pessoas tenham acesso a uma ração suficiente para satisfazer suas necessidades básicas: bebida, cozinha, higiene pessoal, limpeza da casa e lavagem de roupa.

O volume total de água na Terra é de aproximadamente 1,4 bilhão de km³, dos quais somente 2,5% – ao redor de 35 milhões de km³ -correspondem à água doce. A maior parte dessa água doce se encontra em forma de neve ou gelos perenes, localizados na Região Antártica e na Groenlândia, e em profundos aqüíferos ou condutos de águas subterrâneas.

As principais fontes de água para uso humano são os lagos, os rios e os aqüíferos pouco profundos. A parte aproveitável dessas fontes é só aproximadamente 200.000 km³; quer dizer, menos de 1% do total de água doce e só 0,01% da água total do planeta.

A população aumenta e o consumo também, mas a quantidade de água disponível permanece praticamente constante. Segundo o Informe Mundial sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, se estima que para 2025 o aumento da população e a crescente demanda de água levarão todos os países da Ásia Oriental e os 230 milhões de africanos a enfrentar condições de escassez de água.

Dispor de 1.700 m³ de água por habitante ao ano constitui já um estado de pressão hídrica, sob o qual podem se produzir penúrias freqüentes de água. Sob as condições deste umbral de penúria, fixado em 1.000 m³ por habitante ao ano, se colocam graves problemas para o abastecimento, assim como para a produção agrícola e industrial.

Se nada for feito para mudar esta tendência, o número de pessoas submetidas à pressão hídrica passará de 2,3 bilhões a 3,5 bilhões no ano 2025. Assim, passarão a sofrer penúria hídrica 2,4 bilhões de pessoas, frente a 1,7 bilhão que se encontram nesta situação na atualidade.

Qualidade

Água de qualidade para consumo significa aquela que está livre de elementos que a contaminem e a convertam em um veículo para a transmissão de doenças. Entre as fontes de contaminação podem ser citadas esgotos não tratados, os efluentes químicos, as infiltrações e vazamentos de petróleo, os vertidos de minas e produtos químicos agrícolas provenientes das lavouras que escoam para os rios ou infiltram no solo. Mais da metade dos principais rios do planeta estão contaminados, degradando e contaminando os ecossistemas e ameaçando a saúde e o sustento das pessoas que dependem deles.

Apesar dos progressos havidos nos últimos anos, na maioria dos países da América Latina e do Caribe ainda se observam problemas de qualidade da água, em geral em conseqüência de deficiências na operação e manutenção dos serviços. Alguns dos fatores que contribuem para deteriorar a qualidade da água são: sistemas que funcionam de maneira intermitente, estações de tratamento ineficientes, ausência de desinfecção ou existência de problemas neste processo, redes de distribuição precárias, conexões domiciliares clandestinas ou mal feitas e falta de higiene no manejo da água por parte dos usuários.

Doenças vinculadas à escassez

Muitas doenças – tracoma, lepra, tuberculose, coqueluche tétano e difteria – prosperam em condições de escassez de água, falta de serviço de esgoto e higiene deficientes.

Estas doenças podem ser controladas eficazmente com uma melhor higiene e com a lavagem das mãos, para a qual é imprescindível dispor de suprimentos adequados de água potável esgoto. 130 milhões de pessoas na América Latina e Caribe não têm acesso à água potável. Cifras globais indicam que 4,5% da carga mundial de doenças se deve ao uso de água não potável.

Os especialistas que participaram da segunda reunião para o estabelecimento de uma Rede Internacional para promover o Tratamento e Armazenamento Seguro de Água em Casa explicaram que existem pelo menos duas ferramentas para melhorar este panorama sanitário: estender o acesso à água potável e melhorar a qualidade do recurso hídrico.

Melhorar a qualidade da água nos domicílios pode implicar um investimento inferior a seis dólares por casa, aplicação pequena e altamente efetiva devido ao aproveitamento de tecnologias simples e econômicas, como a instalação de filtros de água ou de agentes de cloração, que proporcionam enormes benefícios mensuráveis para a saúde pública.

Pilares para a saúde

Mais de 2,2 milhões de pessoas no mundo, em sua maioria crianças menores de cinco anos, morrem por causa de doenças diarreicas vinculadas à água insegura. Estas doenças e mortes relacionadas com a água são uma tragédia que pode, ser evitadas. Os agentes patogênicos como as bactérias, vírus, vetores e vermes compartilham o meio ambiente com os seres humanos. Mas contrair uma doença transmitida por eles depende em grande parte das práticas no manejo da água.

As doenças de transmissão hídrica são produzidas pela água contaminada com dejetos humanos, animais ou químicos. Estão entre elas: a cólera, a febre tifóide, a disenteria, a poliomielite, a meningite e as hepatites A e B. Os lugares que carecem de instalações de esgoto apropriadas favorecem a rápida propagação destas doenças devido a que as fezes expostas “a céu aberto” contêm organismos infecciosos que contaminam a água e os alimentos.

A maioria destas doenças podem ser prevenidas com a melhoria do esgoto público, o suprimento de água limpa e medidas de higiene como lavar as mãos depois de ir ao banheiro ou antes de preparar a comida. A construção de latrinas sanitárias e o tratamento dos esgotos para permitir a biodegradação dos dejetos humanos ajudarão a conter as doenças causadas pela contaminação.

As bactérias patogênicas que contaminam a água e causam doenças são encontradas nas excretas dos seres humanos e dos animais de sangue quente (de estimação, gado e animais silvestres). Podem se transmitir através da água, dos alimentos, de pessoa a pessoa e de animais para seres humanos.

As bactérias que mais afetam a saúde pública são o Vibrio cholerae, causador da cólera; Escherichia coli, Campylobacter jejuni e Yersinia enterocolitica, causadoras de gastroenterites agudas e diarreicas; Salmonella typhi, que produz febres tifóides e paratifóides; e Shigella, causadora de disenteria.

As pessoas doentes de diarréia e com infecções gastrointestinais eliminam um alto número de bactérias em suas fezes: até 100 milhões de bactérias de Escherichia coli, 10 milhões de bactérias de Campylobacter, 1 milhão de bactérias de Salmonella e 1 milhão de bactérias de Vibrio cholerae.

Estas bactérias chegam aos cursos de água através das descargas esgotos sem tratamento ou com tratamento deficiente, da drenagem de chuvas, das descargas provenientes de estações de processamento de carne de gado e aves, e de vertentes que passam pelos currais. Nas zonas rurais, a prática da defecação ao ar livre também constitui-se em fonte de contaminação das águas superficiais. As bactérias patogênicas representam um sério risco para a saúde pública e é prioritário eliminá-las da água de consumo humano, devido a que sua ingestão poderia ocasionar uma epidemia com graves conseqüências para a saúde da população.

Vetores relacionados com a água

Existem doenças cujos vetores se relacionam com a água. Os vetores são os insetos (mosquitos, moscas) e outros animais que podem transmitir infecções e proliferam ou vivem perto de águas contaminadas ou limpas. Entre estas doenças se encontram a malária, a febre amarela, a dengue, a doença do sono e a filariase.

Para prevenir esses males, é preciso eliminar os insetos que os originam, mas é preciso ter cuidado com o tipo de praguicida a ser empregado, porque podem ser contaminadas as fontes de água e produzir riscos à vida humana. É importante empregar métodos biológicos de controle como predadores naturais, evitar a presença de águas paradas e dormir sob mosquiteiros.

A incidência de doenças transmitidas por vetores parece estar aumentando devido à resistência dos mosquitos ao DDT, o inseticida de maior uso, e às mudanças ambientais, que criam novos lugares de procriação.

Ao que parece, a migração, a mudança climática e a criação de novos habitats fazem com que menos gente desenvolva imunidade natural a estas doenças.

Doenças parasitárias

São doenças causadas por organismos aquáticos que passam uma parte de seu ciclo vital na água e outra parte como parasitas de animais. Os causadores destes males são uma variedade de vermes, tenias, lombrigas intestinais e nematodos de tecido, denominados coletivamente helmintos, que infectam o homem. Algumas destas doenças são a esquistossomose e a dracunculose, que impedem as pessoas de levar uma vida normal e diminuem sua capacidade para trabalhar, ainda que comumente não sejam mortais.

Para prevenir estes males, é necessário lavar bem as verduras com água limpa, cozinhar bem os alimentos e não entrar em rios ou lagoas infectados.

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