A dança pela água em missão de PAZ

Amyra El Khalili

Nossa história começa em torno de 11.000 a.C., em Jericó-Palestina, quando as beduínas (nômades) passaram a desenvolver a agricultura. Elas observavam com atenção os répteis que subiam os rios de águas doces, e com eles, traziam as chuvas que, por sua vez, levavam às margens dos rios o húmus. Observando que nestas margens crescia o trigo, passaram a manejá-los para outras áreas, juntando o húmus, semeando sempre que os répteis – jacarés e crocodilos – subiam em cardumes os rios Jordão e Nilo – em outras regiões, o Tigre e Eufrates.

As beduínas com seus companheiros começaram então a desenvolver a agricultura e tinham estes répteis como deuses que traziam a mensagem de quando poderiam realizar o manejo do trigo em função das cheias dos rios. Neste período, também desenvolveram a armazenagem do trigo por longos períodos de seca, posteriormente o ocidente adotou este sistema – são os silos graneleiros de hoje – e esta preocupação passou a ser conceituada por “segurança alimentar”.

Seriam os sete anos de vacas gordas e magras, uma preocupação – já antiga – com a segurança alimentar?

As beduínas podiam, a partir da armazenagem do trigo, proporcionada pelo período de semeadura e colheita, realizar o planejamento familiar, assim sendo, neste período, decidiam ter seus filhos, porque garantiam alimento necessário pelos cinco primeiros anos de vida de seus filhos.

A decisão da gravidez, de ordem exclusivamente feminina, compartilhada pelo companheiro em todo ritual de semeadura, plantio direto e colheita, estava intimamente ligada aos ciclos hidrológicos. Água, um bem sagrado que fertiliza a terra, e permite que as mulheres decidam sobre sua fertilidade – dando-lhes a opção de terem quantos filhos a terra poderia alimentar. Água, o sêmen de Alláh!

As beduínas agradecidas dançavam à beira dos rios de águas doces enquanto realizavam o manejo do trigo – e cantavam para os deuses. A prosperidade do casal beduíno e de toda a tribo estava determinada pelos ciclos hidrológicos – bem como o equilíbrio entre riquezas naturais e seres humanos.

O que ocorreu então com o passar dos séculos na história da humanidade?

Nossa história é muito mais longa, mas deixo esta contribuição para a conferência gênero e água e conto com todos para acompanharem este resgate da memória ancestral em busca da equidade social, dos valores de família e da importância de se construir uma economia justa e equilibrada como foi a dos nossos antepassados, quando a felicidade era pautada por uma “segurança alimentar” ordenada e coordenada pelas forças da natureza – com seus ciclos hidrológicos.

Num tempo em que o ser humano fazia parte do meio ambiente, e não o partia ao meio!

Fonte: Gender Water Alliance- Gênero de incorporação em Administração de Água Integrada – Maria de Lourdes Davies de Freitas/IMAH – Moderadora –

www.genderwateralliance.org –

Edição 169 – 31/07 a 06/08/2003

Visão perdida

As mulheres perderam a sua relação íntima com os ciclos hidrológicos e conseqüentemente, entre tantas outros fatores, ocorreu o desequilíbrio entre riquezas naturais e seres humanos – hoje: recursos naturais de menos e gente demais.

As danças pelas águas em missão de Paz objetivam resgatar a memória ancestral que todas as mulheres possuem das suas relações com o ciclo hidrológico, através dos movimentos executados pelas beduínas quando agradeciam aos Deuses pelo presente que lhes traziam de bons ventos, boas águas e boas colheitas.

Estas mulheres construíram mundos riquíssimos como o dos faraós, a matemática, agricultura, a astrologia, a medicina, o turismo, enfim os valores culturais que são os pilares do ocidente – e o fizeram ao lado dos seus companheiros – peregrinando pelo mundo árabe, na África, no leste europeu e na Ásia.

Autora

Amyra El Khalili é economista, fundadora do Movimento Mulheres pela P@Z! e do Projeto Portas Abertas: Dois Estados para Dois Povos. Diretora da Cia El Khalili Arabian Dances com 22 anos de pesquisas de ritmos árabe-brasileiros, coordena o Workshop Dança pela Água em Missão de Paz! em diversas cidades do Brasil e Presidente da ONG CTA – Consultant, Trader and Adviser. email: ongcta@terra.com.br

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