Mônica Gropelo
Muita gente já deve ter ido passear em Pirapora do Bom Jesus (ou Bom Jesus do Pirapora), e certamente vai se lembrar que para chegar à cidade passava-se um caminho bonito, cheio de árvores, banquinhos e mesas de madeira, margeado por um rio e onde quase sempre as famílias faziam uma parada para o tradicional piquenique. E se não for pelo piquenique na beira da estrada, Pirapora também é conhecida por ser o “berço” de muitas romarias.
Mas hoje esse cenário mudou muito e a situação não é nada pitoresca ou agradável. Na semana passada, a TV Globo levou ao ar uma matéria sobre a espuma de todo esgoto que é lançado sem tratamento no Rio Tietê invadindo as casas dos moradores de Pirapora do Bom Jesus que foram, no mínimo, estarrecedoras. Cenas do mais puro e inconcebível reflexo da falta de investimentos em saneamento básico, falta de cidadania e de qualquer preocupação com as futuras gerações. E, o mais grave é que a culpa nem é de Pirapora e sim das cidades da região do ABC e Guarulhos, SP.
Uma cena grotesca de uma enorme camada de espuma tomando conta da cidade, da qual os próprios moradores das cidades da grande região metropolitana de São Paulo deveriam se envergonhar e cobrar uma atitude de seus representantes municipais. Afinal, a espuma da carga poluidora despejada no Rio não se forma por lá e sim a mais de 130 quilômetros deles. Vale o ditado “O que os olhos não vêem o coração não sente (… nem cheira)”.
Quem verdadeiramente está sentindo na pele os efeitos nocivos dessa carga poluidora é a população, as mães, crianças, trabalhadores, estudantes, gente de idade que não conseguem nem mesmo atravessar a ponte que liga um acesso principal da cidade a outros bairros. As camadas de espuma chegam a atingir mais de 2 metros de altura, fechando ruas e invadindo as casas que ficam as margens do Tietê.
As pessoas estão ficando doentes, pois não há como evitar o contato e nem o mau cheiro. Com todo respeito ao fato, se não fosse trágico seria cômico dizer que “Pirapora amanheceu coberta de neve”. Para ajudar, os caminhões chegam a passar no meio da espuma para abrir caminho aos pedestres e motoristas.
A situação de Pirapora é triste e pelo que parece não vai ser resolvida tão rapidamente. Primeiro é preciso dar um verdadeiro “presta atenção” nos prefeitos e empresários do ABC e Guarulhos. Fazer um telão bem no meio de uma praça central e mostrar o que a carga de poluição lançada no Rio Tamanduateí, que vai toda para o Tietê, está causando em Pirapora. Não é possível que diante de tal situação ninguém, por aquelas bandas, se comova e cobre uma ação de seus políticos locais.
Há muitas alternativas para amenizar o problema. Porém, o fundamental é a vontade política, o planejamento, a prática. E não adianta falar que é difícil, que não tem jeito ou que não dá para fazer por causa disso ou daquilo.
Que as populações do ABC e Guarulhos se mobilizem e cobrem uma atitude de seus governantes e das empresas poluidoras. A preservação do meio ambiente não tem fronteiras e para que esse processo aconteça é preciso levar a sério o conceito de cidadania.
Para dar uma idéia do que a população de Pirapora está vivendo, basta repetir, em praça pública no ABC e em Guarulhos, uma só vez, as imagens da espuma de esgoto invadindo a cidade e afetando violentamente a saúde de seus moradores. Basta um pouco de compaixão com aquela gente, com as próximas gerações e com a própria escassez de água no Planeta.
E nós, aqui em Jundiaí, enquanto cidadãos responsáveis, temos que continuar fazendo nossa parte, pois se não somos nós que usamos o Rio que tem o nome de nossa cidade, que ele possa servir como fonte para outras comunidades ao longo de seu trecho até o Tietê.
Ação debaixo da terra
Essa história não conta ponto em Jundiaí e em outros municípios onde a ação saiu do discurso e foi parar debaixo da terra.
Obras em saneamento não são visíveis e, talvez por isso, não tragam tantos dividendos políticos.
Jundiaí, por exemplo, não fossem os investimentos antecipados poderia hoje estar vivendo algo muito parecido. Felizmente, nossa cidade é até privilegiada.
O trabalho de despoluição do Rio Jundiaí, deve ser visto com muito orgulho sim pelos jundiaienses, ainda mais diante do que está ocorrendo em Pirapora do Bom Jesus.
O bom exemplo de Jundiaí
Para se ter uma idéia, vale dizer que o Rio Jundiaí, assim como acontece em Pirapora com o Tietê, antes de chegar em nossa cidade, também recebe uma violenta carga poluidora de esgotos “in natura”.
Infelizmente isso acontece porque os municípios por onde passa ainda não conseguiram desenvolver um projeto eficiente para evitar os lançamentos de esgotos domésticos, comerciais e industriais.
Para tranqüilidade dos jundiaienses, o discurso saiu do papel e as obras necessárias foram comprovadamente executadas numa parceria modelo que deu certo, realizada entre a Prefeitura, a DAE e a CSJ (concessionária do tratamento de esgoto).
E pensar que nós que retiramos 94% da carga poluidora do Rio não podemos bombeá-lo, pois esse benefício serve mais para as cidades seguintes que ficam às margens dos próximos quilômetros que ele percorre até chegar na cidade de Salto, onde, ironicamente, vai encontrar com o Tietê.
Já pensaram se Jundiaí não tivesse tomado essa providência?
Autora
Mônica Gropelo é jornalista em Jundiaí.
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