Massao Okazaki
Este artigo visa chamar a atenção das autoridades e dos profissionais da área de saneamento básico para a questão das estações de tratamento de esgotos (ETE) que já estão em operação, visto que as mesmas, novas ou velhas, não estão apresentando resultados favoráveis. Se estivessem, a situação de nossos rios e represas seria outra, bem melhor.
Pedindo licença especial ao biólogos, apresento uma proposta de utilização dos fenômenos biológicos que, hoje, não estão sendo aproveitados, na sua totalidade, nas ETEs. O futuro tranqüilo de nossos filhos e das próximas gerações está em jogo. Não podemos deixar esta pesada herança para eles resolverem.
Uma propaganda de uma empresa de automóveis traz a seguinte mensagem: “O homem precisa repensar os seus conceitos”, principalmente os preconceitos negativos.
Temos que rever, por exemplo, o mito negativo que foi criado pelos sanitaristas sobre o aguapé. O que houve na verdade foi um descuido do ser humano que não criou uma forma de manejá-lo e dele tirar proveito para a humanidade. A sábia natureza o coloca, em algum lugar degradado pelo homem, exatamente para começar a sua recuperação.
Temos ainda que rever o processo empregado nas estações de tratamento de esgotos (ETEs) atualmente. O mesmo lodo que se forma, por exemplo, no rio Pinheiros-Capital/SP, está se formando também nas ETEs, em menor escala é claro, mas em quantidade preocupante, e o efluente tratado deixa muito a desejar.
Convenhamos, algo está errado e temos que encontrar este erro. Este é o objetivo principal desta proposta. Em regime de mutirão, poderemos, sim, mudar este quadro vergonhoso que estamos vivendo. As imagens de ambientes degradados por nós comprovam o que estou relatando. Não custa nada tentar, temos que lutar em busca de um ambiente mais saudável. Não podemos ficar parados ou insistindo no mesmo processo que não está dando certo e esperando algum milagre acontecer. Temos uma alternativa: imitar a própria natureza.
Todos os alimentos que consumimos provêm da terra, e depois de digeridos pelo nosso organismo, deveríamos devolver os dejetos para a terra, para lá ocorrer a sua decomposição natural, assim como o fazem todos os outros animais terrestres. Por comodidade e praticidade, nós lançamos os nossos dejetos diretamente na água para ser conduzida a um rio ou ETE.
Portanto, não temos escolha, temos de encontrar uma forma natural e barata para que, nas ETEs, a maior parte dos componentes de nossos dejetos, depois de decompostos, sejam resgatados da água e devolvida à terra, de forma absolutamente natural.
O mau uso
Considero que os sistemas hoje empregados no tratamento de esgotos, se utilizam de apenas uma camada de microorganismos: o das bactérias decompositoras e algas azuis e muito pouco ou quase nada das camadas superiores de microorganismos produtores e consumidores primários.
A ausência destes e o fabuloso e rápido crescimento das bactérias e algas azuis, causam a formação de enorme quantidade lodo nas nossas ETEs. O lodo é um dos graves problemas hoje enfrentados pelas operadoras das ETEs. Análises bacteriológicas em cada etapa do tratamento das atuais ETEs poderão confirmar o que estou relatando.
A proposta
Com ligeiras adaptações nos mecanismos da ETEs que já estão em operação, considero que poderemos enfrentar o grande desafio acima citado. A ETE passaria então a contar também com o grande fenômeno da fotossíntese. Com a adição do elemento terra e do aguapé a cor do efluente a ser tratado mudaria para, por exemplo, amarelada e ainda as partículas finíssimas de terra (por ex: quartzo e mica) permitirão que a luz solar incida sobre toda lâmina d´água favorecendo a ocorrência da fotossíntese pelos fitoplanctons. O oxigênio produzido e liberado pelos fitoplanctons e plantas aquáticas é mortal para as bactérias anaeróbias que pretendemos eliminar, portanto a fotossíntese promoverá uma verdadeira assepsia ao meio poluído, algo parecido ao que a água oxigenada faz em curativos.
Temos de levar em consideração que o governo federal não tem recursos para investir em áreas prioritárias como educação, saúde, energia e etc.. e muito menos em saneamento básico, portanto, se encontrarmos uma forma barata de tratarmos o esgoto, sem contrairmos empréstimos externos, estaremos assim gerando recursos para as áreas prioritárias para, inclusive, alavancarmos a nossa economia que se encontra estagnada.
Me coloco a disposição de todos para prestar mais esclarecimentos e discutir o assunto.
Função da ETE
Para encontrar uma melhor alternativa temos que repensar também qual deve ser a real função de uma ETE: para consumo humano, nas ETAs, tratamos a água bruta, transformando-a em cristalina e livre de impurezas, ou seja, damos um tratamento inorgânico para obtermos uma água potável.
Na ETE, proponho que deveríamos dar um tratamento inverso, isto é, orgânico, reagregando o máximo de VIDA ao efluente tratado, antes de lançarmos ao rio para reuso, em especial, para pela fauna e flora aquáticas.
Nenhum produto químico utilizado na ETA seria utilizado na ETE, gerando assim uma gigantesca economia para as suas operadoras. A função de eliminar qualquer microorganismo indesejável para uma boa qualidade do efluente, caberia a outros microorganismos produtores que irão consumí-los, durante o processo de tratamento.
Resumindo: Na ETA, eliminamos a VIDA da água bruta e na ETE recomporíamos a VIDA no esgoto a ser tratado, utilizando, inclusive, a atividade fotossintética mais intensa, em todas as etapas do tratamento.
Binômio: terra-aguapé
Podemos simplesmente imitar os fenômenos geológicos e biológicos que acontecem espontaneamente na natureza. Por exemplo, o que ocorre em períodos de chuva forte: as águas dos rios mesmo poluídos ficam barrentas, mudam de cor, e a qualidade da melhora acentuadamente.
A presença da terra no efluente a ser tratado permite a ocorrência de um conjunto complexo de fenômenos químico, físico e biológico entre as partículas de terra e os microorganismos presentes, resultando numa melhora da qualidade da água. Permite, por exemplo, o aparecimento de fungos aquáticos que crescem na superfície das partículas de areia, silte ou argila e são vorazes consumidoras de bactérias decompositoras e de detritos orgânicos.
Podemos contar, na ETE, também com uma pequena área coberta com aguapé que, na minha proposta, simboliza todas as plantas aquáticas. A sua presença vai ajudar no aparecimento de outros microorganismos produtores, inclusive, os fungos aquáticos e bactérias quimiossintetizantes que crescem no sistema radicular do aguapé e consomem a matéria orgânica que iria formar o lodo.
Autor
Massao Okazaki é engenheiro civil, voluntário Sócio-ambiental, e-mail: aguapeguaru@ig.com.br
Fontes consultadas:
RODRIGUES, Nelson de Souza – O Bombril das Águas
LUTZENBERGER, José – Em Defesa do Aguapé
SOARES, José Luís – Biologia: volume único / José Luís Soares. — São Paulo: Scipione, 1997.
LOPES, Sonia, Bio: volume único / Sonia Lopes – São Paulo: Editora Saraiva,1999.
AMABIS, José Mariano, 1947 – Fundamentos da biologia moderna / José Mariano Amabis, Gilberto Rodrigues Martho. –1.ed. – São Paulo : Moderna, 1990
E mais de 200 páginas da net consultadas nos últimos dois anos.
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