A guerra da água

Milton Mira Assumpção Filho

Considerando que a água, numa analogia econômica, é o petróleo do Século XXI e o que o Brasil tem uma das maiores redes hidrográficas do mundo, não será grande surpresa se, de repente, formos acusados de ter armas de destruição em massa….

Ficção (?) política à parte, a verdade é que a disputa comercial acirrada pelo precioso líquido já é uma realidade contundente. Grandes corporações de padrão mundial buscam, há algum tempo, apropriar-se do maior volume possível de mananciais. E não se fala aqui apenas na água de beber. A indústria, por exemplo, é uma consumidora contumaz (para se fabricar um único automóvel, gastam-se 400 mil litros).

A questão está muito bem colocada no livro Ouro Azul, de Maude Barlow e Tony Clarke, que demonstram: a população mundial está crescendo à geométrica proporção de 85 milhões de almas anuais, enquanto a única fonte renovável de água doce é a chuva continental. Ou seja, há cada vez menos disponibilidade de água per capita.

Ao refletir sobre essas questões indicadas no livro e sobre mais um conflito bélico de motivações duvidosas, como este no Iraque, fico pensando que parece haver um desígnio do destino no sentido de compelir a humanidade à violência. É quase uma vingança da natureza contra o Homo sapiens, que tanto a maltratou desde que assumiu o controle do Planeta e o topo mais alto da escala alimentar.

É claro que essa ilação do caráter vingativo da natureza é apenas uma metáfora para salientar um problema grave. Na verdade, a questão é inversamente proporcional. O homem é que sempre brigou, sem limites de violência, pelo domínio dos bens econômicos.

Assim, não é sem razão que, nas áreas em que há grande concentração de recursos naturais, tenham surgido disputas territoriais, beligerância e intolerância secular. Afinal, somos uma espécie incapaz de compartilhar, de somar. Somos competidores por excelência, embora a história já tenha mostrado numerosas vezes que essa abordagem mesquinha da vida torna cada vez maior o apocalíptico ponto de interrogação que delimita o horizonte do futuro.

Na mesma Mesopotâmia onde inocentes morrem novamente sob a tragédia das bombas e o olhar estupefato dos homens de boa vontade, há imensa reserva de água, que convive em perfeita harmonia ecológica com a riqueza mineral do petróleo, no mesmo espaço do Planeta (aliás, quem tiver o domínio daquela região, deterá grandes reservas dos dois líquidos, cuja somatória é fator crucial de domínio econômico. Por exemplo, nos Estados Unidos, a indústria usará em breve 1,5 bilhão de litros anuais).

A humanidade, porém, não consegue captar o equilíbrio holístico do universo e se atira à autodestruição, privilegiando a cobiça em detrimento da solidariedade.

Considerando essa desconfortável constatação da realidade, entre a disputa comercial já em curso e a ficção da guerra pela água talvez não haja uma distância assim tão grande quanto se possa supor.

Distribuição

Como se pôde reunir em áreas tão ricas em recursos naturais vitais e mercadorias estratégicas à sobrevivência, povos de difícil relacionamento mútuo?

As reservas de petróleo, por exemplo, tinham de estar tão concentradas no Oriente Médio?

Agora, vem aí o problema da água e, ironia, vejam o quadro: em cinco áreas quentes do mundo que disputam o mais precioso líquido da nova era (Mar Aral, Ganges, Jordão, Nilo, Tigre e Eufrates) vivem populações que deverão crescer entre 45 e 75% até 2025 e que são protagonistas de antigas tensões, como hindus e paquistaneses, iraquianos e iranianos, sem falar da China, que tem cerca de um terço da população mundial para manter hidratado e que, independentemente de commodities e questões econômicas, sempre olha o Ocidente com o rabo do olho…

Autor

Milton Mira Assumpção Filho, diretor da Editora M. Books, é “Homem de Marketing” (1991) pela Fundação Getúlio Vargas e “Marketing Expert” (1999). E-mail: miltonmira@terra.com.br .

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