Michèle Sato
Estou lendo um livro neste momento (LOMBORG, BjØrn. O ambientalista cético. Rio de Janeiro: Campus, 2002)que me parece bastante instigante. No mínimo, curioso. O autor do livro, um dinamarquês de formação em estatística, se ilude que números são instrumentos neutros e comprovadores da verdade universal. Em sua paixão cartesiana, considera que o ambientalismo é “ladainha” e “exagero” e não encontra argumentos científicos consolidados para comprovar que nosso grito é “produtivo”. Otimista tecnológico, considera que o que importa é o desenvolvimento humano com baixa taxa de mortalidade infantil ou longevidade, mesmo que isso custe degradação ambiental.
Embora reconhecendo que os índices mundiais não são animadores, em seu capítulo sobre a água potável, ele considera que o grande problema não é a escassez mas a ausência de financiamento para tratar a água. O dilema,
para o autor, não é garantir água potável para todos, mesmo porque certas regiões já estão fadadas, secularmente, a sua escassez. Através de estatísticas e gráficos sombrios, ele afirma que o “aumento populacional ocasionará a crescente degradação ambiental e doenças humanas” (Lamborg, 2002, p. 28). Para combater a miséria no continente africano, o autor alega que terras mais produtivas em mercados competitivos responderiam a este dilema.
E aí transcorrem mais números para comprovar sua paixão de que o mundo não necessita do ambientalismo para melhorar a qualidade de vida. Leis & D Amato (1995) consideram que o ambientalismo atual situa-se entre o
otimismo neoclássico da economia (expansão de mercado e inovações tecnológicas) e o pessimismo malthusiano (colapso da humanidade em função do crescimento descontrolado). Ao invés do diálogo e da compreensão da complexa dimensão biosférica, os neomalthusianos utilizam-se do discurso da razão prática utilitária (eficiência).
Seu ambiente institucional é o mercado competitivo onde vigoram preços relativos determinados pela oferta e pela demanda. São otimistas tecnológicos, com crença de que as tecnologias limpas podem corrigir as “falhas do mercado”, garantindo a eficiência global. Esquecem, entretanto, que as questões humanas e ambientais demandam uma profunda transformação produtiva da sociedade e, portanto, o crescimento econômico deve ser equacionado pelos fatores psicossocial, cultural e ambiental. Como conseqüência, as políticas públicas devem passar a sentir influência de novos conceitos e instrumentos metodológicos, bem como os novos campos de investigação e ação, como é o caso da Educação Ambiental (Sato, 1997).
A Guerra fundamenta a mística, o fanatismo e todas as formas dos apartheids. Ela radicaliza os nacionalismos, os extremismos e os totalitarismos, sublinhando os preconceitos, plantando falso consenso, e diminuindo as esferas da tolerância e da convivência. As atividades de mercado no Trade Center e sua implosão praticamente se equivalem em
violência e destruição. A guerra gera o narcísico e o dionisíaco (Maffesoli, 1985). Ela constrói a lógica da supremacia da ausência do discurso, que dispensa opções alternativas e paralelas, na eleição do unívoco e do caminho único. Ela torna o discurso e a linguagem comunicativa inúteis, pois desqualifica o diferente, optando pelas vias ordinárias, em direção às mesmas opções imperialistas. Mas é também a mesma Guerra que fundamenta o convencimento, a paixão, a abnegação
altruísta, a capacidade de morrer e dar a vida em favor do outro, a energia em favor da transformação, a rebeldia nos processos revolucionários em curso, a santidade enlouquecida do capital do petróleo, hoje sob a máscara dos fanáticos e religiosos, mas sob a égide do Tio Sam.
Na história da civilização humana, outra dualidade também sempre esteve presente: os idealistas e os realistas. Enquanto os idealistas argumentam que os conflitos entre os estados são evitáveis, e que o antagonismo é a base do relacionamento internacional, os realistas acreditam nas características imutáveis da inevitabilidade, na transformação iluminista dos seres humanos nas relações internacionais (Leis, 1996, p. 43). A combinação dos dois elementos propiciou que o neoliberalismo triunfasse, sendo aceito como “fiador do progresso mundial”.
A convergência entre a economia e a ecologia exige muito mais do que o uso da razão instrumental. Ela demanda uma mudança profunda da mentalidade de todos os atores, sejam do mercado, sejam da sociedade civil. A ecologia exige que a Terra seja considerada como um bem comum e, em conseqü ência, que a humanidade busque valores de convergência global capazes de permitir a necessidade de mudanças (…) A esperada e necessária aproximação da ecologia com a economia haverá de encontrar grandes dificuldades se a política continuar propondo uma comniação
perversa de falsas utopias e crus realismos, como faz o neoliberalismo (Leis, 1996 p.45-49)
Entretanto, os ambientalistas erraram em acreditar que o ouro azul seria o foco da próxima III Guerra Mundial. Os velhos padrões econômicos ainda imperam no mundo do ouro negro. As paixões materiais ainda não abriram
espaços para que novas formas de viver além de “ouros”: amarelos, azuis, negros… Inclusive dentro do ambientalismo, há os que considerem que devemos tratar do “ouro verde”. Enquanto a humanidade for movida por este tipo de capitais coloridos, estaremos à mercê de loucuras e fanatismos capazes de mover paixões para o terror de superioridades de raças, mortes de crianças e genocídios inexoráveis. Seremos testemunhas de uma civilização sem precedentes e, portanto, urge-se ações e reflexões que possam nos transformar em protagonistas de nossas próprias histórias. Sujeitos críticos capazes de dar outro curso, ainda que no velho chavão do “quem sabe a hora – não espera acontecer” .
Talvez represente uma simples atitude, mas eu também estou em ritmo de grito de guerra, com cara pintada e abolindo a Coca Cola de minha vida. Afinal, “quem tem de noite a companheira, sabe que a paz é passageira. Para defende-la se levanta e grita: eu vou” . Gostaria de convidar todos que pensem nesta idéia política. Não é apenas visar uma reciclagem de slogan para originar outra marca imperialista, mas um ato de rebeldia para poder reivindicar a transformação de velhos padrões neoliberais em posturas críticas a favor da vida. Não creio, exageradamente, na postura dos idealistas, mas rejeito a dureza dos realistas. Sei que o outro lado é forte, e é provável que a guerra esteja perdida antes mesmo das grandes explosões que gerarão crianças mudas e telepáticas. Mas, pelo menos, temos que ser competentes em mostrar ao mundo de que lado atuamos. Talvez seja possível mostrar que o sonho realmente não terminou e que aqui há muito mais do que lixo ocidental.
Não se trata de inventar a roda ou reafirmar o “re-encantamento do mundo”, mas é a tentativa de construir a esperança na cooperação entre sujeitos. A Educação Ambiental pode ser um caminho, se permitirmos que ela seja política, crítica e não alienada. Chico Mendes dizia que “se um homem luta pelos seus direitos, pode representar um indício contra a passividade. Mas se homens educados se organizarem, isso já é um movimento coletivo”. Lembrando da famosa banda Pink Floyd, a canção “we do not need education” representou um movimento de rebeldia. Não foi somente um gesto anárquico dos hippies que só sabiam falar de sexo, droga e rock and roll, mas um manifesto, uma transgressão contra as hierarquias organizadas do poder em prol da liberdade e da busca de mudanças. A dama de ferro teve que se curvar ao movimento, permitindo que o mundo inteiro soubesse da censura e vencemos conhecendo que em países considerados modelos, com muito ouro, observam-se as mesmas mazelas autoritárias do poder.
E como hoje estou remetendo as idéias às músicas, também estou convicta de que “é impossível ser feliz sozinha”. Então estendo este convite a vocês com eloqüência, para darmos as mãos nesta ciranda. Se formos competentes, talvez sejamos capazes de finalizar o capítulo desta história para escrever outras mais bonitas para nossos filhos. “Meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado e a voz vibra e a mão escreve: mar “. Poderemos, talvez, assegurar a continuidade da liberdade e da solidariedade e, ao sabor de nossas utopias e águas mato-grossenses, entoar uma melodia em coro, mesmo que haja notas desafinadas e desarranjos musicais: “São as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração “.
É madeira de vento, tombando da ribanceira. É o mistério profundo, É o queira ou não queira É o vento ventando, é o fim da ladeira É a vigia, é o vão, festa da cumeeira É a chuva chovendo, é conversa ribeira Das águas de março, é o fim da canseira É o pé, o chão, é a marcha estradeira Passarinho na mão, pedra de atiradeira São as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração (Tom Jobim – águas de março)
Cosmovisões
É fato que o conceito de “meio ambiente” remete-nos a uma situação dualista entre ser humano e natureza, mas também é preciso decidir se precisamos escolher entre uma posição ou outra. Duas grandes cosmovisões implicam perspectivas diferentes da presença da humanidade no universo: aquela que considera o humano como o “bon sauvage” e a outra, antípoda, considera o fator humano como “l enfant terrible” (Passos & Sato, 2002). Aquela que percebe a natureza como paisagem mantida num ponto de
equilíbrio feliz, entendida numa perspectiva puramente naturalista e conservacionista, cuja presença da cultura humana continuamente a altera, desequilibra, e a põe em risco. A tarefa do humano seria o da pura contemplação: uma antropologia de mundo perfeito, de natureza
morta, sem espírito. Se no mundo que aí está, nossa tarefa é a da não intervenção, acabamos por santificar a renúncia de nossa participação ativa no mundo.
Entretanto, o mundo não é tão somente é paisagem ou natureza, onde cabe ao ser humano a atitude de conformar-se com a natureza de sua prisão, renunciando a si próprio como materialidade. Mas é impossível negar que a sua intervenção gera desgaste, poluição, esmerilhamento, desintegração e desmonte. Qualquer que seja a nossa atuação e presença, somos parte deste mundo. Enquanto houver reconhecimento de que somos agentes morais
na construção da história, a busca de uma sociedade mais responsável recai nas nossas mãos, pois as necessidades humanas podem e devem ser satisfeitas através do desenvolvimento (Almeida, 1995). A percepção de finitude do planeta forçou a preocupação com o ambientalismo.
É importante lembrar que o termo “desenvolvimento”, tradicionalmente
percebido como crescimento econômico, deve ganhar uma nova dimensão,
colocando a sustentabilidade planetária como pauta das agendas
internacionais. Portano, as propostas de desenvolvimento econômico que
não assumem os fatores sociais e ambientais estão condenadas ao
esquecimento.
Ao longo dos tempos, a íntima relação do ser humano com a natureza foi
sendo substituída pelo distanciamento, como faz o autor do livro “o
ambientalista cético”, mas a II Guerra Mundial já nos deu a lição,
através das rosas radioativas de Hiroshima e Nagasaki, de que a ciência
e a tecnologia não podem atropelar o progresso moral da humanidade. A
dinâmica da sociedade enfrenta, de um lado, as proposições de expansão
contínua do mercado com predomínio de valores materiais. De outro lado,
o contramovimento ambientalista destinado a frear e regular o mercado, através da promoção de novas atitudes e valores morais.
Bibliografia
ALMEIDA, J.M. Desenvolvimento ecologicamente auto-sustentável:
conceitos, princípios e implicações. In: Humanidades. Brasília, v. 10,
n. 14, 284 – 299, 1995.
DESCOLA, Philippe. Ecologia e cosmologia. In: CASTRO, E.; PINTON, F.
(Orgs.) Faces do Trópico úmido – conceitos e questões sobre
desenvolvimento e ambiente. Belém: UFPA/NEAE, 1997, p. 243-261.
LAMBORG, BjØrn. O ambientalismo cético. Rio de Janeiro: Campus, 2002.
LEIS, Héctor. O labirinto – ensaios sobre o ambientalismo e a
globalização. São Paulo: Gaia & Blumenau: FURB, 1996.
LEIS, Héctor R. & D AMATO, José L. O ambientalismo como movimento vital:
análise de suas dimensões histórica, ética e vivencial. In CAVALCANTI,
C. (Org.) Desenvolvimento e Natureza: Estudo para uma Sociedade
Sustentável. São Paulo: Cortez, Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 1995,
p. 77-103.
MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos. O declínio do individualismo nas
sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, , 1987 (Col.
Ensaio & Teoria).
PASSOS, Luiz Augusto & SATO, Michèle “Estética da Carta da Terra: pelo
prazer de (na tensividade) com-viver com a diversidade!” In RUSCHEINSKY,
Aloí sio (Org.) Educação ambiental – abordagens múltiplas. Porto Alegre:
Artmed, 2002, p. 15-36.
SATO, Michèle. Educação para o ambiente amazônico. São Carlos: 1997,
245f. Tese (Doutorado em Ciências) – Programa de Ecologia e Recursos
Naturais, UFSCar.
Autora
Michèle Sato é bióloga (São Paulo), especialista em educação ambiental
(Canadá), mestre em filosofia (Inglaterra) e doutora em ciências (São
Carlos). Atua como docente e pesquisadora em Educação Ambiental na
UFMT/MT e na UFSCar/SP.
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