Má gestão desperdiça quase 40% da água tratada no Brasil

Em 2010, as perdas de faturamento das empresas operadoras com vazamentos, roubos e ligações clandestinas, falta ou medições incorretas no consumo, alcançaram, na média nacional 37,5%. Uma redução de apenas 10% nas perdas no País agregaria R$ 1,3 bilhão à receita operacional, equivalente a 42% do investimento realizado em abastecimento de água para todo o País naquele ano.

Esta é a constatação do mais novo estudo do Instituto Trata Brasil, “Perdas de água: entraves ao avanço do saneamento básico e riscos de agravamento à escassez hídrica no Brasil”, desenvolvido pelos Profs. Drs. Rudinei Toneto Jr, da USP-Ribeirão Preto e Carlos Saiani, do Instituto Mackenzie.

O estudo teve como objetivo avaliar a situação das perdas de água do país, com foco nas grandes regiões, nos estados e no grupo das 100 maiores cidades brasileiras. Os dados utilizados são de 2010 e se baseiam nas perdas financeiras dos provedores dos serviços informadas ao Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério das Cidades.

A base foram as informações sobre os serviços de abastecimento de água em 4.926 municípios brasileiros, dos quais 333 na região Norte (7%), 1.584 na região Nordeste (32%), 417 na região Centro-oeste (8%), 1.505 na região Sudeste (31%) e 1.087 na região sSul (22%).

Em 2010, a média brasileira de perdas de faturamento era igual a 37,57%, pulando para 51,55% na região Norte; 44,93% na região Nordeste; 32,59% na região Centro-Oeste; 35,19% na região Sudeste; e 32,29% na região Sul.

No que diz respeito aos índices de perdas de faturamento por estados é importante destacar que há uma maior variação dos índices dos estados componentes das regiões Norte e Nordeste. Na região Norte os índices de perdas de faturamento oscilam de 21,93% no estado de Tocantins a 74,6% no estado do Amapá.

No Nordeste as oscilações dos índices de perdas também são notáveis: enquanto o Ceará apresenta índice igual a 21,76%, o estado de Alagoas apresenta índice igual a 65,87%.

Nos estados das demais regiões as variações nos índices de perdas de faturamento são menores, mesmo assim cabe destacar que em alguns estados os índices são superiores a 40%, como é o caso de Mato Grosso (43,79%), na região Centro-Oeste; do Rio de Janeiro (46,95%), no Sudeste; e do Rio Grande do Sul (47,07%), na região Sul.

Importante destacar também que somente 40% dos estados brasileiros apresentaram, em 2010, índices de perdas de faturamento inferiores ao nível médio das perdas nacionais, sendo um estado na região Norte (Tocantins, 21,93%), três estados na região Nordeste (Ceará, 21,76%; Bahia, 30,27%; e Paraíba, 36,79%), dois da região Centro-Oeste (Mato Grosso do Sul, 19,65% e Goiás, 31,29%), três da região Sudeste (Minas Gerais, 29,15%, Espírito Santo, 27,15% e São Paulo, 32,55%), e dois da região Sul (Paraná, 21,09% e Santa Catarina, 22,03%).

O estudo apontou que alguns estados com elevados índices de perdas de faturamento não conseguem obter, em média, arrecadação total nem para cobrir as suas despesas correntes (índices de suficiência de caixa menores que 100%) e a soma das receitas operacionais não cobre a soma das despesas totais com os mesmos serviços.

Já muitos dos estados com baixos índices de perdas de faturamento possuem bons indicadores financeiros, tanto de desempenho quanto de suficiência de caixa, tais como Tocantins, Ceará, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina.

O estudo simulou possíveis ganhos com a melhoria da eficiência com a redução das perdas. Primeiramente, foi simulado um cenário de redução de 10% nas perdas financeiras.

Resultados:

• Uma redução de apenas 10% nas perdas no Brasil agregaria R$ 1,3 bilhão à receita operacional com água, equivalente a 42% do investimento realizado em abastecimento de água em 2010 para todo o país.

• Nas 100 maiores cidades, esta redução agregaria R$ 758 milhões à receita operacional de água, correspondendo a 40% do valor investido no atendimento.

• No Amapá, pior caso, uma redução de apenas 10% traria um ganho de R$ 8,3 milhões, ou seja, valor 6.135% maior do que o Estado investiu em água em 2010.

• Uma redução de 10% nas perdas no estado de São Paulo aumentaria a receita operacional direta de água em R$ 275,8 milhões, ou seja, um valor superior a todo o investimento realizado em abastecimento de água em Minas Gerais em 2010.

Conclusão

As perdas de água representam um dos maiores desafios e dificuldades para a expansão das redes de distribuição de água no Brasil. A perda financeira com a água produzida e não faturada faz com que o setor do saneamento perca recursos financeiros fundamentais também para a expansão do esgotamento sanitário no país.

Estas perdas financeiras derivam da água produzida, mas que não consegue ser cobrada do usuário por problemas técnicos, de ineficiência na gestão, entre outros. As perdas financeiras são derivadas de ligações clandestinas, roubos de água, problemas e/ou falta de hidrômetros e de medição em geral, submedições e, sobretudo, dos vazamentos que ocorrem por sobrepressão nas redes em horários de baixa demanda, por corrosão e/ou idade avançada das redes de distribuição, uso de materiais inadequado ou fora dos padrões técnicos, obras mal executadas, entre outros.

Os resultados do estudo mostram que o nível de combate às perdas tem sido muito desigual pelos estados brasileiros, fazendo com que haja diferenças dramáticas entre os índices de perdas nos estados mais eficientes (Mato Grosso do Sul, Paraná, etc.) e os com maiores perdas financeiras (Amapá, Alagoas, entre outros).

As perdas físicas, que são parte das perdas financeiras, dificultam a já dramática disponibilidade hídrica em que vivem várias cidades brasileiras. Segundo o Atlas Brasil da ANA, as regiões Norte e Nordeste são as que possuem relativamente os maiores problemas de mananciais, forte escassez hídrica da sua porção semiárida e pequena disponibilidade de água das bacias hidrográficas litorâneas.

Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil, comenta: “As perdas físicas de água, responsáveis em grande parte pelas perdas financeiras, agravam a questão ambiental no Brasil, que vive grave escassez hídrica em muitas cidades. As perdas fazem com que mais água tenha que ser retirada da natureza para cobrir a ineficiência, vazamentos e outros problemas no sistema de distribuição. É preciso, portanto, que Governo Federal, Governadores e Prefeitos lutem por reduções de perdas desafiadoras, pois certamente resultarão em recursos financeiros para levar água potável e esgotamento sanitário a quem não tem. É um dever para com o país”.

Outras simulações:

• Num 2º cenário, onde houvesse redução de 10% nos estados com perdas entre 20% e 30%,; de 20% nos estados com perdas entre 30% e 40%; e de 30% nos estados com perdas acima de 40%, o aumento na receita operacional no Brasil seria de R$ 2,6 bilhões em 2010.

• Nas 100 maiores cidades, este cenário aumentaria a receita em R$ 1,5 bilhão, equivalente a 80% do investimento em água em 2010.

• Caso todo o país conseguisse baixar suas perdas financeiras com a água a um índice de 20% haveria um aumento na receita operacional da ordem dos R$ 10,32 bilhões/ano, valor 336% maior do que o investimento realizado em abastecimento de água em 2010 (R$ 3,07 bilhões).

Relação das perdas de água com a escassez hídrica

O estudo também avaliou a situação da disponibilidade hídrica nos municípios brasileiros expressos no “Atlas Brasil – Abastecimento Urbano de Água” – estudo realizado em 2010 pela Agência Nacional de Águas (ANA). O estudo contemplou a situação de 5.529 municípios e avaliou as condições dos mananciais, tanto superficiais como subterrâneos, e dos sistemas de produção de água para atender às demandas da população urbana em 2015. Interessa, aqui, as informações relacionadas à disponibilidade hídrica e às estimativas de investimentos.

As cidades foram classificadas em três grupos considerando o nível de adequação da disponibilidade hídrica:

(1) abastecimento satisfatório (situação adequada);

(2) requer ampliação do sistema (situação intermediária) e

(3) requer novo manancial (situação inadequada).

Portanto, os dois últimos grupos representam cidades nas quais devem ser feitos investimentos para atender às demandas urbanas por água em 2015.

Vale destacar que:

• No Norte quase 86% da população reside em cidades que necessitam ampliação do sistema atual de água ou de novos mananciais;

• No Nordeste, 82% da população vive esta situação;

• Nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, 44,2%, 43,9 e 41,1% dos municípios, respectivamente, necessitam investimentos na ampliação dos sistemas ou já requerem novos mananciais de água;

• Nas 100 maiores cidades a disponibilidade hídrica é satisfatória em apenas 28% das cidades. 72% destes grandes municípios precisam de investimentos: 39% de ampliação dos sistemas e 33% novos mananciais.

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