A seca pode levar ao limite o sistema hídrico dos bosques do planeta

Ilustração: Retirado de Hopkins (1995), fig. 3.15, pag. 57.

A cada dia, as árvores de todo o mundo transportam bilhões de litros de água do solo para a atmosfera. Este transporte é feito por um sistema vascular muito complexo que se esconde sob a copa das árvores e que depende de um mecanismo efetivo mas instável, desafiado continuamente pelo stress ambiental.

Um novo estudo publicado na revista Nature evidencia que a maioria das árvores, inclusive aquelas que vivem nas selvas tropicais, está utilizando este sistema hidráulico muito perto da fronteira da segurança, o que as torna vulneráveis a um aumento nas condições de seca.

“Um dos principais problemas que as plantas enfrentam durante a seca é o de manter em funcionamento as ‘canalizações’ de seu sistema vascular. Isto é essencial para as árvores, já que estão obrigadas a transpirar quantidades muito grandes de água diariamente se querem continuar absorvendo o dióxido de carbono que necessitam para fazer a fotossínteses e manter seu funcionamento metabólico”, assegura o estudo.

No trabalho, liderado pela Universidad de Western Sydney (Austrália) e a Universidad de Ulm, na Alemanha, participaram Jordi Martínez-Vilalta, pesquisador do Centro de Pesquisa Ecológica e Aplicações Florestais (CREAF) e professor da Universidad Autônoma de Barcelona (UAB) e Maurizio Mencuccini, pesquisador da Instituição Catalã de Pesquisa e Estudos Avançados do CREAF.

A seca provoca embolias no sistema circulatório das árvores

O sistema vascular das árvores conecta as raízes com as folhas e está formado por uma infinidade de tubos interconectados, similares a vasos sanguíneos. Esta rede hidráulica pode romper-se durante a seca provocando uma embolia gasosa. Quando o solo se seca, a água de dentro dos condutos está sob uma grande tensão.

Esta tensão pode provocar que se rompa o fio contínuo de água que há em seu interior, o que resulta em uma obstrução de ar similar às embolias humanas, que podem bloquear o sistema circulatório. À medida que aumenta o stress por seca, o ar se acumula no sistema até que a planta deixa de poder transportar água às folhas, seca e morre.

A vulnerabilidade a estas embolias é um dos fatores principais que determina os efeitos da seca nas árvores. Entretanto, as plantas variam dramaticamente em sua tolerância às embolias induzidas por seca, o que torna difícil predizer que bosques podem ser mais afetados por um aumento nas condições de seca.

Neste estudo, uma equipe internacional de 24 cientistas especialistas em plantas se reuniu, através da ARC-NZ Research Network for Vegetation Function, para criar uma base de dados global que inclui todas as medidas existentes de resistência às embolias de espécies florestais.

Cerca de 70% das 226 espécies florestais estudadas funcionam atualmente com margens de segurança hídrica estreitas ante níveis potencialmente letais de seca. Há, portanto, uma convergência global à vulnerabilidade dos bosques a sofrer uma falha hídrica.

Isto quer dizer que, independentemente da precipitação que cai nos lugares onde vivem, os bosques dos diferentes biomas da Terra são igualmente vulneráveis à seca.

Fonte: Agência SINC.

A vulnerabilidade dos bosques é um desafio mundial

Tal e como se esperava, os pesquisadores encontraram que as espécies que crescem nos bosques úmidos são menos resistentes ao embolismo do que as que crescem em zonas áridas. Porém quando a vulnerabilidade ao embolismo foi comparada com as condições de umidade típicas nas quais estão vivendo cada uma das espécies, se comprovou que a maioria das árvores atualmente está já operando muito próximo de seu umbral de segurança hídrica.

Segundo Jordi Martínez-Vilalta “os resultados permitem entender por que a deterioração dos bosques induzida pela seca está passando não só nas regiões áridas, mas também nos bosques úmidos, que normalmente não se consideram em risco de sofrer os efeitos”.

Para as árvores, e para o conjunto do planeta, as consequências de secas mais prolongadas e temperaturas mais altas são potencialmente graves.

Apesar disse algumas espécies podem evoluir suficientemente rápido como para manter o ritmo que supõe a evolução do clima, enquanto que outras espécies migrarão para novos lugares onde haja melhores condições para sobreviver.

Este novo conjunto de dados será útil para predizer que espécies e que lugares serão mais propensos a sofrer os efeitos das secas e, portanto, poderiam ter um maior risco de desaparecer em médio prazo.

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