Os hidromercenários

Hoje o assunto da hora é a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). Ela vem no arrastão da tática norte-americana de ocupação do espaço comercial, como tábua de salvação para os desequilíbrios econômicos do continente, mas vira as costas para os graves problemas sociais da América Latina. É mais um engodo deste contínuo plano de colonização que já dura mais de cinco séculos.

Se agora estamos quebrados nos setores da saúde, educação, habitação e empregos não podemos dizer que foi tudo obra do acaso. A vulnerabilidade dos sistemas políticos que se instalaram ao longo desse meio milênio, com as ditaduras das bananas promovendo o enriquecimento das elites dos nossos países, levaram a essa predisposição de dependência. Foi uma ardilosa preparação de terreno para a globalização.

E é no rolo compressor da globalização onde as privatizações pipocam por todo canto do planeta que a água vem sendo tratada como uma mercadoria ou um commodity, para usar um termo mais sofisticado. O que sempre foi um direito dos seres vivos e, conseqüentemente, do Homem através dos tempos, agora tem um preço. E um preço não referente à responsabilidade desse bem público que temos por obrigação gerenciar e usufruir da melhor maneira possível. É um preço de mercado que vai culminar nas bolsas de valores como um item de especulação do mercado de capitais.

A situação é grave. Segundo dados recentes da Organização das Nações Unidas, hoje no mundo mais de 2 bilhões de pessoas enfrentam a escassez de água e até 2025 esse número deve duplicar. A privatização engolindo vorazmente os serviços de água públicos está aí para mostrar o quanto às populações mais carentes no Brasil (Região dos Lagos, RJ e Limeira, SP), na Bolívia (Cochabamba) e na Argentina (Buenos Aires e Tucumán), vem sofrendo com a perda de qualidade no abastecimento e com o aumento de tarifas.

Em outras palavras, quem vive nos limites da miséria e da pobreza está fadado a morrer de sede. Ruim para muitos, mas lucrativo para poucos que, no afã do lucro e da água arrasada, surfam com a venda de know-how e de projetos mirabolantes de consultoria. São os hidromercenários de plantão que cabalam administrativamente elementos oficiais e transformam o poder público em agente de deterioração social. Para piorar, outros oportunistas vêm avançando nesse terreno e cravando suas bandeiras em nome da ciência.

Mais uma vez a solidariedade técnica e científica é deixada de lado por falta de lideranças no meio acadêmico e, como conseqüência, as agências de fomento sequer têm aplicado verbas a fundo perdido nesta área estratégica. Muitos dos projetos de pesquisa são desprovidos de ideologia política e não geram benefícios concretos à comunidade.

Assim, mesmo que o processo de desconstrução dessa trama seja lento e complexo, somente a discussão junto à sociedade pode surtir efeito e não permitir que a água se torne uma apropriação indébita de determinados grupos. Lembramos que a água é delicada e não pode ser maltratada, pois como escreveu Guimarães Rosa “A água… grita a qualquer pancada que lhe dão”.

Autor

Heraldo Campos, 48, geólogo, Doutor em Ciências, Pós-Doutor em Hidrogeologia. Professor Titular da UNISINOS. Autor do Mapa Hidrogeológico do Aqüífero Guarani, Editora UNISINOS, 2000. e-mail heraldo@euler.unisinos.br .

Edições anteriores

Como forma de orientar nossos leitores estamos listando alguns dos artigos já publicados neste espaço identificando o número da edição, o título e o autor.

127 – Os avanços de Johannesburg – Vitor Gomes Pinto

126 – Agenda 21 versus Commodities Ambientais – Lucas Matheron

125 – A importância dos CREAs no debate sócio-ambiental – Amyra El Khalili

124 – O lado bom de Quioto – Sidney Grippi

123 – A importância de oceanos sadios para o combate à pobreza – Anne Platt McGinn;

122 – Planejamento em Educação Ambiental: Pressupostos e Procedimentos Sergio Luis Boeira;

121 – Preservar é preciso, mas o que isto significa?! – Renata Vieira Conde;

120 – DIAA0-2002 – Maurício Pardon e Ricardo Sanchez Sosa;

119 – Quem nada em praias poluídas fica doente? – Cláudia Condé Lamparelli;

118 – Baia da Guanabara: Lições ambientais – Vilmar Berna;

117 – Vítimas da Sede – José Eduardo Rocha;

116 – Educação Ambiental é solução para problemas do Meio Ambiente? – Mauro Guimarães;

115 – Aprender com a cabeça e o coração – Sérgio Luis Boeira;

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