
As primeiras medidas políticas concretas que começam a emergir da Rio+10 indicam que nenhum compromisso pactuado, como querem os ambientalistas, vai indicar “vontade política” das grandes nações de mudar o enfoque buscando o chamado desenvolvimento sustentável.
Nenhuma novidade, se for lembrado que apesar dos inúmeros compromissos da Rio-92, os avanços foram muito lentos. Talvez o que mudou foi a postura de descaso com questões ambientais, muito mais explícita agora.
Nos bastidores, no entanto, alguns avanços podem ser contabilizados, como por exemplo, o acordo entre alguns países latino-americanos, entre eles México e Venezuela, e africanos para troca de tecnologia especialmente para a preservação de florestas.
A natural indignação dos ambientalistas e de grande parte das populações que acompanham os debates mostra um hiato entre a consciência da importância de que o desenvolvimento ande de mãos dadas com o meio ambiente – muito mais presente entre as nações em desenvolvimento – e o domínio econômico dos países industrializados, construído exatamente em cima de matrizes poluidoras.
Quem pensava que a Rio-92 iria mostrar nações ricas abrindo mão de sua pujança para salvar o planeta vai sair dessa reunião mundial muito decepcionado.
Energia une inimigos
Os Estados Unidos se aliaram a pelo menos dois países que consideram seus inimigos, o Irã e o Iraque, para evitar a aprovação das propostas do Brasil e da União Européia sobre o uso de fontes renováveis de energia. A introdução de metas para a energia renovável implicaria diretamente a diminuição do uso do petróleo. Por isso, segundo ambientalistas árabes, a principal preocupação das delegações desses países é econômica, não ambiental.
O Brasil propôs que 10% de toda a energia usada no mundo em 2010 venha de fontes renováveis (como o álcool ou a energia eólica, gerada pelo vento). A União Européia propôs 15%, mas inclui nesse conceito usinas hidrelétricas (que afetam os ecossistemas) e a queima de lenha, por exemplo. A aliança contra as metas de energia renováveis é irônica porque junta de um lado George W. Bush, hostilizado pela opinião pública árabe por seu apoio a Israel, e de outro Saddam Hussein, visto por Washington como representante de uma ameaça à humanidade, cuja queda deve ocorrer a todo custo.
Os ambientalistas árabes dizem que todos os países da região estão agindo em bloco, liderados pela Arábia Saudita, maior exportador mundial de petróleo. Os sauditas assumiram posturas que, segundo eles, podem prejudicar outros países árabes, mais pobres, cuja economia não depende do petróleo. “Não haverá confronto (entre os árabes, a respeito da energia renovável), e isso não é racional. O único benefício para os países árabes será para os que produzem petróleo. Há a decisão de agir de um só jeito em nome da unidade árabe”, comentou a ativista libanesa Zeina Al Haji, do Greenpeace.
Outros ativistas são mais cínicos. “Nenhum governo aqui tem realmente vontade política de falar sobre meio ambiente”, disse Razan Zuayter, coordenador do Grupo Árabe para a Proteção da Natureza, com sede na Jordânia. “As pessoas sabem o que querem, mas não há comunicação entre elas e seus governos”.
Texto do comércio deve ir para o lixo
Johanesburgo, África do Sul – A Coalizão de organizações não-governamentais Eco Igualdade acredita que o documento relativo a comércio e globalização é abismal. Está tão longe dos objetivos em termos de garantir o desenvolvimento sustentável que ele deve ser jogado no lixo.
A Coalizão (formada pela Northern Alliance for Sustainability, Consumers International, Danish 92 Group, Amigos da Terra, Greenpeace, Oxfam e WWF) está convocando os ministros presentes à Rio+10 a admitirem que o pacote econômico que está na mesa de negociações é totalmente inadequado, e pede que eles recomecem a discutir do zero o acordo sobre comércio.
De acordo com Analuce Freitas, coordenadora de Políticas Públicas do WWF-Brasil, a recusa dos países da Europa em discutir a retirada de subsídios para atividades ambientalmente danosas está emperrando as negociações. Os subsídios prejudicam as nações em desenvolvimento e com isso colocam em risco as metas de proteção de biodiversidade já aprovadas em outros encontros. Os países em desenvolvimento abrigam a maior biodiversidade do planeta, e eles não terão como cumprir essas metas se os subsídios não forem suspensos. Eles também pedem um compromisso com a transferência de tecnologia e recursos – outro ponto que os países da Europa não querem aprovar. “Os europeus recusam-se a colocar a retirada dos subsídios no texto”, disse Analuce, que está acompanhando as negociações.
Vergonha
Em uma carta aberta enviada a todos os ministros a Coalizão Eco Igualdade e outras ONGs afirmaram que os negociadores obviamente não percebem que eles não estão discutindo na Organização Mundial do Comércio. “Eles deveriam estar envergonhados de produzir um texto tão lamentável sobre desenvolvimento sustentável”, disse o grupo.
Na carta, a Coalizão também destacou suas principais preocupações e as áreas que precisam ser melhoradas e incluídas nesta Cúpula. O estrago feito pelo comércio insustentável nas pessoas e no meio ambiente só vai piorar se não houver uma guinada na abordagem dos governos à globalização. Se esta mudança não ocorrer em Johanesburgo, a Coalizão pergunta-se onde e quando isso acontecerá.
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