Pesquisas com lodo de esgoto indicam cautela no uso em alimentos

Cristina Tordin – Embrapa Meio Ambiente.

Com o objetivo de avaliar a segurança do uso de lodo de esgoto como adubo de plantas cultivadas, projeto de pesquisa desenvolvido na Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna, SP) investigou a absorção de algumas substâncias orgânicas presentes no lodo por plantas de milho. Um dos resultados foi a identificação dos níveis de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) em grãos de milho cultivados em áreas com histórico de aplicações de lodo de esgoto. Foi observado também que o seu uso contínuo como fertilizante agrícola pode contaminar o solo com HPAs.

O pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Lourival Costa Paraíba ressalta que este é o primeiro projeto desenvolvido no Brasil que observa níveis de HPAs em solos fertilizados com lodo de esgoto e em grãos de milho cultivados nesses solos.

Os HPAs constituem uma ampla classe de compostos químicos orgânicos geralmente formados a partir da queima incompleta de material orgânico. São compostos orgânicos hidrofóbicos, não polares, formados por dois ou mais anéis benzênicos, constituídos exclusivamente por átomos de carbono e hidrogênio. Além de nocivas a diversos organismos aquáticos e terrestres, estas substâncias podem persistir por várias décadas no ambiente. Alguns destes compostos são comprovadamente carcinogênicos ou mutagênicos para humanos, explica o pesquisador.

A presença de HPAs em alimentos deve-se principalmente à sua formação durante certos tipos de processamentos como defumação, torrefação e secagem. Os HPAs têm sido encontrados nos mais diferentes tipos de alimentos, incluindo produtos como óleos vegetais, margarinas, maionese, produtos lácteos, frutas, vegetais, produtos defumados, chá, café, açúcar, cereais, água, alimentos de origem marinha, alimentos grelhados, entre outros. Assim, a exposição humana a HPAs pode ocorrer por meio de alimentos industrializados, águas contaminadas ou produtos agrícolas.

O lodo de esgoto é um material complexo resultante do processo utilizado nas estações de tratamento de esgoto. Em todo o mundo, rejeitar lodo é um problema ambiental, pois as estações de tratamento de esgotos produzem mensalmente uma quantidade elevada deste material. A rica composição em matéria orgânica, nitrogênio e fósforo fazem com que o lodo seja considerado um adubo útil para condicionar e fertilizar solos agrícolas ou recuperar áreas degradadas.

Além disso, seu uso pode proporcionar valiosos benefícios econômicos, agrícolas e ambientais. Entretanto, nos lodos, além de microorganismos e metais pesados, podem estar presentes compostos orgânicos poluentes como os HPAs. Em geral, a presença dessas substâncias está associada à mistura não controlada de esgotos domésticos com esgotos industriais.

Conforme o pesquisador, alguns lodos podem contaminar cultivos agrícolas, solos, águas superficiais e subterrâneas com nitratos, metais pesados, patógenos e compostos orgânicos persistentes.

No Brasil, a portaria do Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama 357/2005, em resposta a uma solicitação realizada pela Embrapa regulamenta o seu uso como fertilizante agrícola. No Estado de São Paulo, a taxa de aplicação de lodo em solos agrícolas segue a norma técnica P4.230/99 da Cetesb que impõe limites à carga de metais pesados, ao aporte de nitrogênio em relação à necessidade nutricional da planta cultivada e à taxa de mineralização do nitrogênio, entre outras providências.

Na metodologia empregada pelo projeto foi decidido identificar os níveis de resíduos de 16 HPAs em solos e em grãos de milho. Os HPAs escolhidos são recomendados pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA-USA) como os prioritários em estudos ambientais e alimentares. Para tanto, foram verificados os seus níveis de resíduos em amostras de solos e de grãos de milho cultivados na estação experimental da Embrapa Meio Ambiente. Esta área foi utilizada durante seis anos consecutivos para o cultivo de milho com lodo. Nessa estação, além do estudo de problemas ambientais associados à utilização de lodos como fertilizantes, suas aplicações históricas tiveram como objetivos avaliar os seus efeitos na nutrição de plantas de milho e nos atributos físico-químicos de solos.

Segundo a pesquisadora Sonia Queiroz, responsável pelo Laboratório de Resíduos e Contaminantes – LRC da Embrapa Meio Ambiente, para alcançar os resultados analíticos obtidos pelo projeto foi necessário adaptar e validar métodos cromatográficos de análise de resíduos de HPAs em amostras de lodos, solos e grãos de milho.

Dados da Associação Brasileira da Indústria do Milho – Abimilho atestam que o consumo per capita brasileiro de milho situa-se ao redor de 18 kg/pessoa/ano. O nível total de HPAs em grãos de milho identificado pelo projeto de 35ug/kg foi usado para estimar a ingestão de HPAs pelo consumo diário de grãos de milho por uma pessoa vivendo no Brasil. Os resultados indicaram que os níveis de HPAs nos grãos de milho produzido nos solos estudados não comprometem a sua qualidade para consumo humano.

Segundo padrões internacionais, o nível total de HPAs de 290ug/kg em solos da estação experimental com histórico de seis anos de aplicações de lodo indicou que apresentam contaminação leve, quando comparado com o nível de 105ug/kg encontrado em solos sem histórico de aplicação de lodos da mesma estação experimental.

Os resultados do projeto, atualmente financiado pela Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), são importantíssimos, enfatiza Paraíba, “uma vez que fornecem subsídios e direções para decisões técnicas e políticas no sentido de cultivar ou não plantas utilizando lodo de esgotos”, diz ele. Porém, “é importante notar que o uso continuado de lodo como fertilizante pode contaminar solos agrícolas com HPAs”.

Imposto ecológico polêmico na França

Em uma decisão muito contestada pela maioria dos franceses, ainda muito abalados pela recessão, o presidente Nicolas Sarkozy lançou um plano para criar um imposto sobre a emissão de dióxido de carbono para incentivar a redução no consumo de energia em indústrias e residências.

O imposto, inicialmente de 17 euros (US$ 24,8) por tonelada de emissão de dióxido de carbono, se traduzirá em uma elevação do preço do combustível para automóveis, calefação e fábricas.

“O maior desafio que enfrentamos são estas mudanças climáticas. Cada um de nossos compatriotas deve sentir-se preocupado”, disse Sarkozy em um discurso televisado em que defendeu que elevação impositiva será compensada por outras reduções fiscais.

Segundo uma pesquisa do Ifop para a revista Paris Match , 65% dos entrevistados está contra o novo imposto. Os críticos acusam o governo de buscar uma forma de incrementar seus ganhos em um ano em que a arrecadação fiscal despencou por causa da recessão, o que provocou um rápido aumento do déficit fiscal.

Durante os meses de sua elaboração, o imposto causou polêmica na França, com desacordos dentro do partido situacionista e objeções, tanto dos socialistas como dos ecologistas, na oposição.

O Partido Verde está de acordo com a iniciativa, mas diz que deveria ser mais ampla para ter um impacto mais significativo, enquanto o Partido Socialista considera que seria prejudicial para as famílias que lutam em meio à pior recessão em mais de 15 anos.

Sarkozy tem rechaçado as críticas e sustenta que o imposto não será uma carga a mais para os moradores, porque o aumento na conta do combustível será compensado com reduções no imposto de renda.

Os moradores mais pobres e que não pagam imposto de renda receberão “cheques ecológicos” para compensar o aumento da conta e energia.

“O objetivo da política ecológica fiscal não é encher os cofres do Estado, mas incitar a população e as empresas francesas a mudar seu comportamento”, declarou o presidente francês, e acrescentou que os lares que mantenham o consumo em níveis baixos terão uma melhoria financeira.

O sistema distinguirá entre os que vivem em zonas urbanas com bom transporte público e os que vivem em zonas rurais e dependem mais do automóvel. Para os que vivem em zonas rurais a compensação financeira do Estado será maior.

O imposto, calculado segundo o volume de CO² produzido por tipos particulares de combustível, se aplicará ao petróleo, ao gás e ao carvão. Uma exceção notável será a eletricidade, já que a França é produtora de 80% da necessidade em centrais nucleares, que tem baixas emissões.

Agências AFP e EFE.

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