Aprender com a Cabeça e com o Coração

Sérgio Luís Boeira

O maior desafio do mundo da informação é, para quem estuda, como organizá-la, como encontrar critérios que viabilizem a organização da informação e que permitam, com isto, torná-la disponível quando necessária. Ora, tais critérios são, antes de tudo, formas de pensar e de sentir, ou seja, formas de viver. Quem pretende enfrentar o mundo da informação somente com a cabeça, com abstrações, não irá muito longe.

O excesso de informação mal compreendida, mal armazenada, significa o mesmo que confusão. Não há muita distância entre confusão e falta de informação. Não será possível chegar ao conhecimento crítico, inovador, com uma relação meramente racional diante das informações. Este é o caminho da congestão mental. O acúmulo de dados, seja em computadores, seja em cérebros vivos, não representa conhecimento.

A análise, a fragmentação dos dados, sem uma correspondente síntese, não leva a nenhum conhecimento útil e pode, pelo contrário, levar a muitos conhecimentos inúteis.

A alternativa é aprender com a cabeça e com o coração. O grande desafio da sociedade da informação é estimular uma saudável relação emocional tanto quanto racional com as informações. Como eu reajo emocionalmente diante do conhecimento?

Aprender com a cabeça e com o coração é colocar-se em movimento diante das informações. É fazer perguntas diante das afirmações. É abandonar a obsessão pela certeza absoluta e definitiva diante do conhecimento científico, filosófico ou seja lá de que outro tipo for. É começar a olhar tanto para o texto, quanto para o contexto do texto, quanto para o meu processo íntimo de autoquestionamento. Preciso saber observar meus pensamentos e sentimentos, sem agarrar-me a eles, sem pretender descanso nas convicções, pois estas podem ser becos-sem-saída do processo de aprendizagem.

Aprender com a cabeça e com o coração implica em conviver com as incertezas. E tomar o conhecimento sempre dentro de contextos, sempre ligado a uma perspectiva ou teoria que o delimite, que me permita ver as falhas, as limitações, as lacunas do próprio conhecimento. Não posso pretender agarrar-me a algo que considero passível de afundar a qualquer momento. E se o conhecimento é aprendido com a razão tanto quanto com a emoção, há sempre este risco. A emoção representa, para o conhecimento, seu contexto mais insondável, algo como o mar aberto em torno de uma ilha de idéias bem organizadas. Ou, no máximo, de um arquipélago. Conhecer não é percorrer terras planas e seguras. Conhecer é viajar por espaços delimitados pela ignorância e pelo risco do retrocesso.

Aprender é uma aventura e quem ensina não deve interrromper a viagem do aprendiz com falsas bóias salva-vidas. Aprender com o aprendiz é buscar, com ele, maneiras de reconstruir o conhecimento em parceria, com base nas vivências e reflexões propiciadas pelas dinâmicas de grupo, pelas circunstâncias geográficas e históricas vividas no momento da aprendizagem, pelas várias estratégias de ensino-aprendizagem, valorizando tanto a análise quanto a síntese, tanto a cultura escrita quanto a expressão oral, a capacidade de interação e de estabelecer e cumprir compromissos. Aprender um conteúdo é não apenas dominá-lo, mas envolver-se com ele, habitá-lo, transformá-lo em algo renovado pela vida que nele depositamos.

Aprender a aprender é realmente o mais importante na sociedade da informação. Estar em busca de, estar ideologicamente inquieto, insatisfeito, é pré-condição de aprendizado efetivo. Ter aprendido algo significativo implica em conseguir emocionar-se, até certo ponto, toda vez que nos relacionamos novamente com tal conteúdo.

Quem aprendeu com a cabeça e com o coração sempre tem algo mais a dizer sobre o que parece ter aprendido. Consegue reemocionar-se toda vez que se envolve com o aprendido. Assim, torna-se mais persuasivo, convincente, quando busca partilhar seu conhecimento com os demais. A representação do aprendido não é apenas uma re-apresentação do conhecido, em forma racional, abstrata. É também uma representificação, uma nova viagem, um novo mergulho.

Sujeito do processo

Se imagino que um professor, um programa de computação, um curso televisivo ou seja lá o que for vai colocar na minha mente um determinado conhecimento, então estou pressupondo que minha mente é algo como uma caixa vazia ou um papel em branco a ser preenchido. Estou, neste caso, pressupondo que sou objeto e não sujeito do processo de conhecer. Não tenho percepção de quanto a emoção está ocupando minha mente, desviando as informações, relacionando-as em forma de rede com minha vida cotidiana, com meus sonhos e desejos. Não estou percebendo que o discurso do professor ou de alguma outra fonte de informação é apenas parte do processo de aprendizado e que, se eu deixar que esta parte fique desacompanhada da emoção, da minha emoção, do meu zelo e cuidado, tudo será um amontoado de palavras ou dados inúteis, uma perda de tempo, um desperdício em todos os sentidos.

Compromisso

A aprendizagem é um compromisso fundamentalmente emocional. O ensino é um compromisso com a estimulação, com a provocação, com a orientação da aprendizagem. Ninguém pode ensinar a quem não quer aprender, a quem não se encontra disponível para as incertezas e em busca de conhecimento. Não é possível orientar quem está parado e não pretende ir a lugar nenhum. Não é possível orientar sem aprender a orientar com o orientando. Ensinar é fundamentalmente aprender.

Aprender a enfrentar o desafio da vinculação da emoção com a razão no processo de conhecer e, além disso, enfrentar o desafio de criar meios, mecanismos, recursos, instrumentos, estratégias e táticas que mobilizem, no educando, sua emoção em paralelo com sua razão. Esquecer ou reprimir a primeira em função da segunda, sob a alegação de que a emoção apenas atrapalha o conhecimento científico, é retroceder mais de um século na psicologia da aprendizagem.

Autor

Sérgio Luís Boeira é Doutor em Ciências Humanas (UFSC) e professor da Universidade do Vale do Itajaí – SC. E-mail: slboeira@matrix.com.br

Leave a Reply

Your email address will not be published.