
Prof Arnaldo Carlos Muller
A ambientalista queniana Wangari Maathai, 64 anos, é a primeira mulher africana a ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Seu mérito veio por conta de um bem-sucedido programa ambiental que mobilizou mulheres pobres das zonas rurais, para plantar 30 milhões de árvores. Ao longo de quase 30 anos conseguiu conter um acelerado avanço da degradação ambiental e abrir caminhos ao que hoje se entende por efetivo desenvolvimento sustentável. Ousou confrontar interesses, atitudes e descasos do governo queniano, e de ongs cooptadas por aquele governo, que a abandonaram em várias ocasiões.
A proposta de Wangari consistiu em fazer o povo rural compreender que o plantio de árvores previne a desertificação, preserva os ambientes florestais para a vida selvagem, conserva ativos mananciais de água e provê uma fonte de combustível, material de construção e comida para aquelas e para as futuras gerações, uma ação sustentável magnífica de combate da pobreza.
Como o pinheiro-do-paraná carece do socorro de alguém como a queniana Nobel da Paz!
Uma Wangari Maathai precisa surgir aqui para, tanto elogiar a finalmente criação de unidades de conservação dedicadas a este ecossistema, como destacar as insuficiências desta única solução. Ora, Parques e Reservas são efetivamente necessários, mas salvar a espécie impõe propostas muito mais ousadas e mais sabedoria nas ações.
Assim, denunciaria abertamente a forma desastrada de conduzir a criação desses tipos de museus, os Parques e Reservas, ditada confortavelmente longe da realidade da nossa Araucária e dos povos dos pinheirais, subestimando a cultura e as aspirações justamente das comunidades que até aqui preservaram pinheirais. Pior, assustando muito a todos que possuem pinheiros. Isto, pode crer, acelerou a velocidade do desaparecimento do bioma.
Precisará relembrar-nos o potencial econômico de sua madeira, muito superior tantas exóticas incentivadas, e convencer que é de justiça autorizar o usufruto aos agricultores que ousaram plantar pinheirais. A sósia da vencedora do Prêmio Nobel precisará insistir pelo melhor uso dos pinhões, alimento orgânico precioso para saciar a fome e proporcionar renda ao agricultor familiar que vive na terra dos pinheirais. Tudo isto fortalecendo o sumo valor ecológico deste ecossistema único.
A se manter a atual pobreza de alternativas, só resta recomendar a todos que fotografem, e muito, os pinheiros ainda vivos, para mostrar aos seus filhos como era a tal Araucária, antiga árvore símbolo do Paraná. Já sem filhotes, a espécie desaparecerá quando os atuais pinheiros adultos morrerem, alguns anos mais. Restará, geneticamente isolada em alguns Parques, até seu extermínio endogâmico total.
Maathai recomendaria iniciativas múltiplas e consorciadas como as propostas no Projeto Araucária, da EMBRAPA Florestas, FUPEF – Fundação de Pesquisas Florestais da UFPr e IDS – Instituto do Desenvolvimento Sustentável, que prevê a valorização do bioma, tanto por seu potencial ambiental (leia-se água, vida silvestre, ar puro, biodiversidade), como social (madeira, alimento e até identidade cultural). Salvar adicionando valor, bem ao contrário dos que imaginam proteger anulando os potenciais dos pinheirais, sob rigoroso regime fiscal para se obter algum resultado.
Autor
O professor Arnaldo Carlos Muller é engenheiro, especialista e mestre em Ciências Florestais. Coordenador Geral do IDS – Instituto do Desenvolvimento Sustentável.
Valorização
Wangari chamaria a atenção de que, por trás dessa única solução ocorre a idéia popular, um desgraçado revertério ao bioma, de que basta simplesmente preservar os pinheiros dos Parques, o resto pode ser derrubado.
Assim, coitados dos que têm pinheirais nas áreas predestinadas e sorte dos outros, aonde, como se divulga, seus pinhais não tem mais qualquer valor ambiental.
Nossa Maathai precisará nos dizer que o ecossistema do pinheiro-do-paraná tem que ser valorizado, não depreciado pela desvaloração, e que proprietários que o vêm preservando merecem ser reconhecidos, compensados e jamais punidos, note-se até com o impedimento de usufruir as terras aonde os pinheiros vierem a nascer.
Infanticídio ambiental
Ela também argumentaria que pinheiros não são como baleias, cuja proibição à caça deu certo porque elas não vivem, como os pinheiros, espalhadas em milhares de propriedades particulares onde seus filhotes podem ser facilmente abatidos.
Pobre pinheiro-do-paraná, cuja legislação “protetora” o tornou espécie maldita, alvo do maior infanticídio ambiental já visto no Brasil.
Leave a Reply