As águas são para a Vida, não para a Morte

Área a ser inundada

Porto Alegre, RS – “Águas para a vida, não para a morte”. Este foi o refrão cantado pelo grupo do Movimento dos Atingidos pelas Barragens – MAB – após a encenação do enterro do Bradesco, da Votorantin e da Tracbel ao início da oficina realizada sob os auspícios da Federação dos Amigos da Terra Internacional para discutir a hidroelétrica de Barra Grande, localizada ao longo da bacia do rio Pelotas, entre os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

“Águas para a vida, não para a morte” continua sendo um refrão válido e muito mais do que isso – palavras de ordem que conseguem transmitir exatamente os objetivos das populações atingidas por barragens, organizadas em um movimento informal, que são normal e seguidamente, e ainda hoje, virtualmente atropeladas na intenção de continuar a manter a sua família unida em torno da produção em área já tradicionalmente de sua propriedade.

Querem que os cursos d’água provejam a vida, a viabilizem, e não provoquem a morte do seu modo de passar os dias, de sobreviver, de viver. Infelizmente, às vezes levam para o cemitério muita gente até por tristeza, quando não por tiro de capangas das empresas subcontratadas cujos crimes nunca são resolvidos.

Vítimas do seu próprio sentimento de honestidade nas relações entre as pessoas, caem no engodo de eventualmente aceitarem acordos extrajudiciais prejudiciais. A empresa escolhe 1 ou 2 “peixinhos” na comunidade para, utilizando-se do seu poder de fogo, premiá-los com boas indenizações enquanto o resto fica na promessa. As barragens da bacia do Rio Uruguai são um exemplo de planejamento de como uma série de obras com responsabilidade social não devem ser feitas.

No encontro realizado durante o Fórum Social Mundial na tarde desta quinta-feira, 27/1, estiveram presentes a coordenação da Rede de ONGs da Mata Atlântica, da APREMAVI/SC, as direções do EcoFund, da AGAPAN – Associação Gaúcha de Proteção Ao Ambiente Natural, do Núcleo dos Amigos da Terra, de Doutores-Professores do Instituto de Biociências da Universidade Federal do RGS, estudantes, uma vintena de outras entidades apoiadoras da luta pela conservação dos últimos resquícios da Mata Atlântica e seus ecossistemas associados.

Também presentes ao encontro advogados e peritos ambientais resolveram que trabalharão juntos para provar na Justiça que os meros US$ 300 milhões já gastos para mudar o curso do rio Pelotas, construir a barragem de 95m de altura por 600m de extensão, instalar a casa de máquinas, não atingem nem de perto o tremendo valor econômico da vida das plantas e animais, além da geológica, existente na região. A luta para que seja parado o desmatamento da região, que vai permitir o enchimento do lago de Barra Grande, continua forte, apesar do acúmulo de derrotas na Justiça – e eventualmente uma vitoriazinha aqui e ali.

“O juiz entre valorar uma obra – que é dita como essencial para manter a qualidade de vida de toda uma população com o fornecimento de energia – normalmente não consegue sobrepor-se ao discurso manejado às vezes pelas hostes governamentais e outras vezes pelas próprias empresas que eventualmente têm que assumir seus próprios interesses saindo do breu dos encontros de gabinete”.

“O fato” é que as hidroelétricas da bacia do Rio Uruguai produzirão energia para os próprios empreendimentos das empresas e não para a população”, dizem os atingidos pelas barragens.

Por outro lado, os ambientalistas afirmam que não irão desistir de Barra Grande. A liderança do MAB foi clara no encontro – estão do mesmo lado dos ambientalistas até que a sua base, formada pelos atingidos, seja aquinhoada com novas terras e com os meios para se refazerem noutras paragens. Mas como não acreditam que isto seja seja realidade algum dia, vêem na união com os ambientalistas uma possibilidade de acordo estratégico permanente.

Na Amazônia, Chico Mendes, o lider sindicalista dos seringueiros só tornou conhecida a sua luta pela manutenção das árvores que mantinham o seu modo de vida quando se deu conta de que seu objetivo era o mesmo dos ambientalistas internacionais que batalhavam pela conservação da floresta por sua própria importância para o Planeta e para a humanidade.

Francisco Milanez, do EcoFund, alertou que o lago da barragem, que vai ocupar cerca de 9 mil hectares, mudará até o clima da região e que o modelo energético que está sendo implantado pelo Governo Lula foi imaginado pelos militares ao tempo em que mandavam no país e não havia possibilidade de contestação. Defendeu a implantação de pequenas usinas ao longo dos cursos d´água brasileiros, perto dos consumidores. Lembrou também que grande parte da energia produzida pelas grandes barragens acaba perdida na linha de transmissão antes de chegar às cidades.

A família de colonos manifestou a sua perplexidade com o fato de que o IBAMA não permitia o corte de apenas três araucárias para fazer um galpão na sua propriedade, caso não pagasse R$ 70,00, ao mesmo tempo em que permite o desbaste de milhares de hectares de araucárias e florestas habitadas por seus ascendentes há mais de 70 anos. “E se a família não quiser sair, eles vêem até com a Polícia, colocam fogo na casa, acabam com tudo”. Lembraram as lideranças do MAB que é normal “ameaçarem” com o processo na Justiça pois lá no processo “receberiam muito menos do que se assinassem um acordo aparte”.

Milanez ainda defendeu que os empreendedores é que deveriam indenizar as populações locais após serem protagonistas de um processo de licenciamento fraudulento após “esquecerem” de incluir na descrição da área a floresta primária existente.

O Governo Federal reconhece os problemas no licenciamento, mas diz que o Brasil não pode parar. A argumentação está ganhando na Justiça do fato consumado, alertaram os advogados presentes.

Barra Grande não é um acontecimento isolado lembraram os presentes. Havia até alguém da Tracbel fotografando os presentes… Como saldo da reunião, foi criado um consenso – vai-se lutar para uma moratória na construção das Usinas da Bacia do rio Uruguai, durante 6 meses, tempo que seria usado para rediscussão com a sociedade de todos os projetos.

Texto do jornalista João Batista Santafé Aguiar. Fotos/Cortesia de Carolina Hermann, do Núcleo Amigos da Terra Brasil. Especial para a EcoAgência de Notícias –www.ecoagencia.com.br

Canoistas protestam contra poluição

Porto Alegre, RS – Quatro canoistas lutando contra a maré. Literalmente. Contra a correnteza do Arroio Dilúvio, um dos mais poluído da Bacia do Guaíba, em Porto Alegre. Eles fizeram parte de um protesto de ecologistas que pretendem chamar a atenção da comunidade sobre a importância da despoluição do manancial.

“É a maior aventura que já fiz”, afirma Jorge Luz, que estava remando pela primeira vez em um caiaque. Ele conta que está com medo de ter contraído alguma doença, pois a água teve contato com sua pele. Todos usavam máscaras e capacete.

Os quatro canoistas entraram no Arroio Dilúvio pela sua foz, foram até a altura da sede do jornal Zero Hora, em distância aproximada de 1,5 km, e retornaram ao Guaíba.

“Daqui o cheiro é mais forte”, relata, depois de ter encalhado diversas vezes na vegetação e nas ilhas de areia, resultado do assoreamento. O arroio, que corta a avenida Ipiranga, uma das mais movimentadas da cidade, recebe esgoto “in natura” de diversos bairros da Capital. Mais de dez hospitais largam seus dejetos no Dilúvio. A impressão é de que a água é mais densa, devido à sujeira.

A presença de muitos resíduos no pequeno rio chama a atenção. Grandes pedaços de madeira, pneus, lâmpadas fluorescentes, sacos de lixo (recém jogados), vasos, galões faziam parte do cenário, cujo pano de fundo era uma água cinza de tom esverdeado e forte cheiro de esgoto.

A atividade integrou a programação do 5º Fórum Social Mundial e foi promovida pela Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan). Enquanto os canoistas remavam, um grupo de ambientalistas levantava cartazes pedindo a despoluição do Dilúvio.

“Me impressionou a forma de protesto, criativo, concreto, que mostra o problema na raiz”, comenta a professora Gabriela Ortega, do Chile, uma das integrantes da manifestação.

Reportagem da jornalista Silvia Marcuzzo – Especial para a Ecoagencia de Notícias – www.ecoagencia.com.br

Vídeo

Foi apresentado um vídeo com depoimentos de professores, ambientalistas e moradores da região. O Professor Paulo Brack descreveu a riqueza biológica da região – o rio Pelotas será transformado, caso realizada a projeção de aproveitamento hidroelétrico, em dois grandes lagos.

O professor Sérgio Leite defendeu que houvesse sempre um intenso debate entre empreendedores e os habitantes das regiões atingidas, além dos outros segmentos interessados.

Chuveiro elétrico

O uso do chuveiro elétrico foi citado no encontro como o grande vilão do consumo de energia. E também que o discurso da necessidade de maior economia de energia está dormitando em alguma gaveta governamental pois haveria interesse em quanto maior gasto, melhor, para viabilizar os grandes empreendimentos.

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