Buenos Aires, 18 de dezembro de 2004 — O resultado do encontro sobre mudanças climáticas (COP 10) encerrado ontem em Buenos Aires é, para o Greenpeace, extremamente desapontador. O sentimento é também de repúdio com relação aos EUA e à Arábia Saudita, por suas táticas deliberadas de obstrução e adiamento das discussões. Segundo o acordo final da reunião, as conversações a respeito dos futuros cortes nas emissões de gases-estufa não deverão progredir substancialmente em 2005, e nem garantir que os países que mais sofrerão com os impactos climáticos terão a assistência de que necessitam dos países industrializados.
“O acordo resultante da COP 10 impedirá o progresso de que necessitamos, no próximo ano, nas negociações sobre os futuros cortes nas emissões”, afirmou Steve Sawyer, da Campanha de Clima do Greenpeace Internacional. “O mundo perde uma grande oportunidade de avançar no que é o maior desafio ambiental dos nossos tempos: as mudanças climáticas”, disse o coordenador de campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado. “O Brasil, que teve um papel construtivo nas negociações, não deve temer em assumir o compromisso de reduzir suas emissões. Nosso maior problema é o desmatamento, maior responsável pelas emissões de gases-estufa do País, e ele deve ser combatido de maneira séria e urgente”.
O complexo acordo originalmente continha planos para uma série de encontros informais para discutir o futuro do regime climático. Sob insistência dos EUA, isso acabou reduzido para um “seminário”. Os EUA exigiam que não fosse incluída na agenda qualquer discussão sobre futuros cortes e que nos próximos encontros a prestação de contas dos países-membros não fosse necessária. Ainda assim, ao menos um seminário informal será levado adiante.
A Arábia Saudita trabalhou ao lado dos EUA durante todo o encontro da COP 10. O país bloqueou o progresso das discussões ao impor condições sobre a assistência financeira destinada à adaptação dos países em desenvolvimento. Em troca, os sauditas exigiram compensações pelas perdas de divisas provenientes do petróleo, caso o mundo caminhe para deixar de utilizá-lo.
“O posicionamento da Arábia Saudita é obsceno”, disse Marcelo Furtado. “E o perigo de se tentar negociar com os EUA é claro. Os norte-americanos querem afundar as conversações e não são capazes de negociar com boa fé. Seu posicionamento baseado na ciência é ilegítimo, sua recusa de aceitar a responsabilidade pelos impactos sobre o mundo em desenvolvimento é imoral, e sua posição diante das negociações é absurda. Somente se nos movermos adiante firmemente sem os EUA poderemos alcançar um progresso real no combate às mudanças climáticas”.
As negociações de 2005 reunirão os países signatários do Protocolo de Quioto, como um grupo, pela primeira vez. Os EUA só poderão participar como observadores, a não ser que ratifiquem o tratado internacional de redução das emissões dos gases-estufa.
Fonte: Greenpeace
Expectativa
Segundo os negociadores da proposta de realizar uma série de reuniões futuras, Washington argumenta que “não há pressa” para se debater sobre como avançar para reduzir a mudança climática, e recomenda esperar para ver os resultados do primeiro período de compromissos, estabelecidos na Convenção e no Protocolo de Quioto.
A iniciativa argentina também foi freada por integrantes da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), especialmente Arábia Saudita e Kuwait, por preverem que a redução das emissões de gases que causam o efeito-estufa, entre eles o dióxido de carbono liberado na queima de combustíveis fósseis, afetará suas economias.
Dos 11 membros da OPEP, apenas a Nigéria ratificou o Protocolo de Quioto.
Fonte: IPS/Envolverde
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