
Árvores da democracia
Por WANGARI MAATHAI
Data da publicação: December 10, 2004
Quando eu ainda era criança em Nyeri, na região central do Quênia não havia a palavra deserto em minha lingua materana, o Kikuyu. Nossas terras eram férteis e cobertas de florestas.
Mas hoje em Nyeri, assim como em grande parte da África e do mundo em desenvolvimento, as fontes de águas estão secando, o solo está ressecado e impróprio para o cultivo de alimentos, e as disuptas e conflitos por causa da terra são comuns.
Então não deveria ser surpreendente que eu tenha sido inspirada a plantar árvores para ajudar a encontrar a solução para atender às necessidades básicas das mulheres da zona rural.
Como membro do National Council of Women of Kenya desde 1970 tenho ouvido a queixa das mulheres sobre a escassez de energia, água limpa e alimentos nutritivos. Minha resposta era que que começassem a plantar árvores para ajudar a recuperar o solo e romper o clico da pobreza.
Árvores detêm a erosão do solo, auxiliam na conservação do solo melhorando os índices de chuva. Árvores fornecem óleo, material para construção e móveis, frutas, forragens, sombra e beleza.
Como provedoras do lar nas zonas rurais e urbanas do mundo em desenvolvimento as mulheres são as primeiras que se deparam com os efeitos do stress ecológico. Isto as força a caminharem em busca de provisões e água limpa e busca novas fonte de alimentação quando as antigas desaparecem
Minha idéia foi encampada pelo Movimento do Cinturão Verde (Green Belt Movement), empolgou milhares de grupos, principalmente de mulheres, que planataram 30 milhões de árvores no Quênia. As mulheres recebem um pagamento simbólico por cada uma das semenste que plantam dando-lhes uma renda ao mesmo tempo em que melhoram o seu entorno.
O movimento também se expandiu para os países da África Central e Setentrional. Através do trabalho eu percebi que a degradação ambiental foi para as comunidades pobres ao mesmo tempo a fonte de seus problemas , e um aviso. Usando encostas para o plantio agrícola é estimulada a deterioração e a perda de solo. Ao mesmo tempo, o desmatamento ocasiona a perda de vazão dos rios e a mudança nos padrões de pluviosidade, o que por seu turno em menor disponibilidade de solo agricultável.
De 1970 a 1980 eu encorajei os granjeiros a plantarem árvores em suas terras e também descobri que os agentes governamentais corruptos eram os responsáveis por grande parte dos desmatamentos vendendo ilegalmente árvores e terras .
Na década de 90 o país viveu um período de lutas étnicas e disputas pela terra – um tema muito complexo e cheio de nuances que é preciso compreender. O Green Belt Movement teve uma participação muito importante na luta pela instauração da democracia e eleições livres no Quênia.
Autora
Wangari Maathai, a vencedora do Prêmio Nobel da Paz 2004, é vice-ministra do Meio Ambiente do Quênia e fundadora do Green Belt Movement.
Licões apreendidas
Através da educação pública, representatividade política e protestos nós tentamos proteger parques e florestas de desenvolvimentistas inescrupulosos que muitas vezes trabalhavam de mãos dadas com policiais .
Felizmente em 2002, os quenianos puderam ter sua sonhada eleição e um governo democrático. O que eu aprendi no Quênia – a relação simbiótica entre o desenvolmento sustentável e a democracia – é também relevante do ponto de vista global.
De fato, em muitas guerras locais e internacionais , os recursos naturais continuam a ser fonte de disputa. Neste processo os direitos humanos, a democracia e os espaços comuns são banidos.
Eu acredito que o Nobel Committee reconheceu a ligação entre meio ambiente, democracia e paz e procurou atrair para eles a atenção do mundo com esse Nobel da Paz que eu estou recebendo hoje. O Comitê está procurando incentiver os esforços comunitários para a recuperação da Terra quando ainda enfrentamos a dramaticidade dos desmatamentos da desertificação , da escassez da água e a perda da biodiversidade.
Embora eu tenha trabalhado arduamente no manejos dos recursos naturais como florestas, água, solo, minerais e óleo eu não venci a luta contra a pobreza. E ainda não temos uma paz duradoura. Os conflitos adormecidos poderão ressurgir se mudarmos o rumo de nossas lutas. Para celebra esse Prêmio e o trabalho que ele reconhece, quero lembrar as palvras de Gandhi: Minha vida é minha mensagem. Então: plantem árvores.
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