USP e Meio Ambiente – a melhor lição é o exemplo

Darcy Brega Filho

Os escritores Paul Hawken, Amory Lovins e L. Hunter Lovins afirmam na página 295 do livro Capitalismo Natural (Ed. Pensamento, 1999) que “a maior instituição que discute os modelos mentais é a educação. As faculdades, universidades e as escolas públicas podem modificar seu impacto sobre o meio ambiente de duas maneiras fundamentais. Elas criam os cidadãos, os administradores de empresas, os engenheiros e os arquitetos que fazem o mundo. Ao mesmo tempo, gastam US$ 564 bilhões nisso, inclusive os US$ 17 bilhões anuais aplicados na construção de novas escolas e universidades.

O professor David Orr, do Oberlin College, principal porta-voz da integração do meio ambiente à educação, indica que a maior parte desse dinheiro se gasta na aquisição de energia, materiais, alimento e água das maneiras ineficientes que este livro descreve. Orr acredita que a alteração dos métodos, do design e dos investimentos do nosso sistema educacional representa um ‘currículo oculto’ capaz de ensinar, “com tanta eficácia quanto qualquer currículo aberto, um modo mais abrangente de ver o mundo, que é o fundamento de um currículo radicalmente diferente daquele que hoje se oferece virtualmente em toda parte.

Em todos os aspectos, é o desafio à nossa maneira de pensar que se transforma em um desafio às instituições destinadas a promover o pensamento. Grande parte da necessária mudança do ponto de vista e de perspectiva não ocorrerá a tempo a menos que as escolas, as faculdades e a educação compreendam isso”.

Em São Paulo, estamos diante da possibilidade dessa compreensão por parte da Universidade de São Paulo-USP, uma vez que a mesma começa a implantação de um novo campus na Zona Leste de São Paulo. Lamentavelmente o local escolhido se trata de uma grande área localizada nas várzeas do rio Tietê, nas proximidades (ou dentro) do Parque Ecológico do Tietê.

Confirmada a opção pela instalação do novo campus nas várzeas do rio Tietê, então estaremos assistindo a uma repetição do passado, quando a USP instalou o seu campus São Paulo nas várzeas do Pirajussara, na Bacia do Rio Pinheiros. Neste caso, infelizmente, se confirma a incompreensão da universidade sobre a necessária mudança do ponto de vista e de perspectiva para a integração do meio ambiente à educação.

A universidade poderia, inclusive, a partir do conhecimento de que dispõe, traçar um paralelo sob os aspectos econômico-financeiros inerentes aos serviços ambientais prestados pelas várzeas nesse trecho de rio, com serviços ambientais similares prestados pelas grandes estações de tratamento de esgotos construídas em nossa região.

Esses especialistas poderiam, então, formular respostas para a seguinte questão: quanto custaria planejar, construir e operar uma estação de tratamento de esgotos usando o processo de lodos ativados, para realizar a mesma quantidade e qualidade de serviços ambientais realizados pelas várzeas do Parque Ecológico do Tietê?

Mais: se uma pequena parcela desse valor fosse usada para restaurar os ecossistemas de várzeas naquela localidade, reabilitando e ampliando a sua eficiência ambiental, dotando o local de adequadas áreas de lazer, de produção de biomassa e de areia para diferentes utilidades econômicas para e pela comunidade pobre da região, além de um eficiente controle biológico de mosquitos do gênero Culex, os quais tanto desconforto e riscos de doenças geram para cerca de 2 milhões de pessoas na RMSP, quais seriam os resultados para a Capital e sua economia?

Aliás, sabe-se que pesquisadores estão monitorando a possível entrada de um arbovírus no estado de São Paulo, vindo dos EUA e que provoca uma doença transmitida por esse tipo de mosquito chamada “Encefalite do Nilo Ocidental” (revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, Volume 12 – N ° 1 – jan/mar de 2003).

A partir dessa linha de raciocínio, concitamos as autoridades da Universidade de São Paulo a promover um diálogo aberto com a comunidade e, sobretudo, com a população da Zona Leste, orientado para duas questões principais que consideramos muito importantes no campo das idéias, da inovação, da conservação ambiental e da saúde pública.

A primeira delas é a possibilidade da USP estudar a viabilidade de reconstruir alguns trechos de várzeas em seu campus na Bacia do Pirajussara, como vem acontecendo em vários países europeus e nos EUA, de forma a manejá-las com múltiplas funções ecológicas, urbanísticas e pedagógicas. Essas várzeas reconstruídas seriam cientificamente planejadas para promover pré-tratamento das cargas de poluição geradas no próprio campus e assim mitigar os seus impactos ambientais nos recursos hídricos.

Além disso, esses equipamentos seriam desenhados como estruturas complementares de macrodrenagem, a fim de mitigar o problema de enchentes nessa sub-bacia. E para além do exposto, a USP não poderia perder de vista outras funções importantes a partir de uma iniciativa como esta, tais como as pedagógicas, de lazer contemplativo etc., as quais poderiam ser perfeitamente planejadas nesse projeto. Quem desejar saber mais sobre esse tipo de conceito pode acessar, por exemplo, a página da Unesco na Internet e procurar pelo livro intitulado Frontiers of Urban Water Management: Deadlock or Hope? www.unesco.org/water/ihp/events/marseille

Um empreendimento com tais características e dimensões exigiria um alto esforço organizacional e intelectual, além de uma indispensável integração de conhecimentos que sabemos existir na Universidade. Por outro lado, exigiria a superação de limites históricos que também sabemos existir na Academia. No entanto, não temos dúvidas da capacidade da USP em superar tais barreiras, visto tratar-se da maior e mais importante casa de inovação e de conhecimento do País.

Portanto, em nossa modesta visão um projeto com tais características poderia ser admitido como um novo e verdadeiro desafio acadêmico para a USP, produzindo a sua mais profunda inserção social e, por que não dizer, gerando uma contraprestação de serviços para a região onde se encontra instalada. Um projeto desenhado para gerar novos postos de trabalho decente em um novo e desafiador mercado de trabalho. Em resumo, seria mais um importante projeto no campo da responsabilidade socioambiental da USP em relação ao povo de São Paulo.

Autor

Darcy Brega Filho é engenheiro Florestal pela UFV-MG, especializado em Engenharia de Controle da Poluição Ambiental pela USP-Faculdade de Saúde Pública.

Há tempo para a remediação

Mas ainda há tempo para que se remedie parte dos efeitos negativos dessa escolha. Se os especialistas pelo planejamento desse novo campus acessarem a página da Sabesp na Internet encontrarão informações sobre a qualidade das águas da Bacia do Alto Tietê, geradas a partir do monitoramento realizado no âmbito da 2ª etapa do Projeto Tietê.

Se esses estudiosos analisarem a qualidade das águas em um ponto situado imediatamente a montante do Parque Ecológico do Tietê – onde a USP começa a instalar esse novo campus – comparando-a com a qualidade das águas coletadas num ponto situado imediatamente à jusante do parque, isto é, nas proximidades da Barragem da Penha, certamente concluirão que as várzeas do Parque Ecológico do Tietê, ainda que bastante degradadas, prestam serviços ambientais para a nossa comunidade e, sobretudo, para a comunidade da Zona Leste de São Paulo. Isto porque ocorre uma melhoria da qualidade da água quando ela passa pelas várzeas do parque ecológico.

Greenbuilding

Em segundo plano, mas não menos importante, esse diálogo precisa chamar a atenção das mais altas autoridades da USP para a imperiosa necessidade de a universidade incorporar esse tipo de conceito no planejamento do seu novo campus da Zona Leste da RMSP.

Esse tipo de conceito é conhecido como green building e enseja, indispensavelmente, a inserção das partes interessadas desde a concepção até a operação do empreendimento.

Quem desejar saber mais a respeito do conceito de green building pode acessar a Internet: www.epa.gov/greenbuilding. Afinal de contas, ”a questão da responsabilidade social é complexa porque envolve inúmeros aspectos que nem sempre aparentam ser compatíveis entre si.

Para torná-la mais acessível ao ambiente organizacional, onde se lida com objetivos mensuráveis e predominantemente de curto prazo, há a seguinte definição: Responsabilidade Social é a competência para representar os interesses legítimos de suas partes interessadas (seus stakeholders) e construir, a partir dessa representação, vantagens significativas para todos”. (Adaptado de Responsabilidade Social nas Organizações – AMCE Positioning Paper, s/d).

Este conceito é válido esteja o novo campus localizado onde estiver, mas que, preferencialmente, deveria ser em algum lugar situado fora das várzeas do rio e do próprio Parque Ecológico do Tietê.

Finalmente, que não se faça confusão entre a indiscutível necessidade de ampliação do número de vagas para o ensino superior gratuito e de boa qualidade em São Paulo e em outras regiões do Estado com a localização do novo campus da USP na Zona Leste de São Paulo. E ainda que, a partir desse diálogo, fique consagrado na universidade um processo que estimule o desenvolvimento e implementação, com a maior brevidade, de um modelo de gestão ambiental para toda a instituição, envolvendo todos os seus campi e Escolas, juntamente com um plano estratégico ambiental que preveja um Programa de Excelência Ambiental, no qual certamente deverão estar contemplados programas existentes como o USP Recicla, PURA e PURE da universidade.

Em resumo, é uma rara oportunidade para a universidade aprofundar a orientação de que unir teoria à prática é uma excelente, senão a única alternativa de real aprendizagem.

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