
Em muitos países e regiões, como o sul dos Estados Unidos, o Caribe, o Japão, determinados meses do ano são conhecidos como a temporada dos furacões, tal a periodicidades sistemática da presença desses fenômenos. Mas, nos últimos anos, esses acontecimentos não só mudaram de intensidade como ampliaram seu espectro destruidor para muito além daqueles horizontes chegando a lugares nunca antes alcançados, como o Sul do Brasil, onde agora, ventos mais fortes, já começam a ser sinônimo de alertas e medo.
Embora os estudiosos digam que esses fenômenos não são inusitados o senso comum das pessoas indica que o clima já não é o mesmo de antigamente. Invernos que intercalam temperaturas de 0º com dias tórridos de 38º, verões com chuvas torrenciais e tempestades de granizo, primaveras extremamente secas, outonos com cara emburrada. Estiagens no Sul e enchentes no Nordeste. Como aceitar que tudo isto não significa nada?
Um exemplo de quem vive em constante alerta diante desse tipo de intempérie é o relato – reproduzido abaixo – da jornalista Adelfa Fialho, de Cuba, da Rede de Comunicação Ambiental da América Latina e Caribe (Red Calc), cujos integrantes estarão reunidos nos dias 08 e 09 de novembro, em Porto Alegre (RS), em um encontro preliminar ao II Fórum Internacional das Águas.
“Desde que começaram os estudos sobre o aquecimento global, tem havido uma grande preocupação sobre se a freqüência e intensidade dos ciclones tropicais poderiam ser alteradas devido à elevação da temperatura no planeta..
É importante destacar que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas tem sido muito conseqüente e rigoroso sobre este tema. Em seus últimos informes expressa que não existem evidências de que esteja sendo incrementada a atividade ciclônica em todas as regiões do planeta, pois nem todas estas zonas têm uma serie climatológica confiável para um estudo de variabilidade ciclônica. O que não quer dizer que não estejamos diante de uma mudança.
Para os especialistas do Centro do Clima em Cuba, o incremento da atividade ciclônica se associa a outras causas, assegura o doutor Ramòn Pèrez Suàrez, diretor do centro de pesquisa.
– Pensamos que estamos vivendo uma época de maior atividade ciclônica devido ao aumento da temperatura superficial do mar no Oceano Atlântico que se iniciou em 1995 e que no Mar do Caribe começou a observar-se a partir de 1998, independentemente do aquecimento global… Em Cuba, temos tido épocas de maior e menor atividade ciclônica. Por exemplo, entre 1870 e 1910 a média foi de um furacão por ano, muito parecido ao que tivemos nos quatro primeiros anos deste século, mas em um período de tempo de 40 anos.
Os estudos mostram que a freqüência de furacões em Cuba é parte de um período que começou em 1996 no Atlântico mas que não se pode associar a um ciclo de atividade ciclônica como as ocorridas na década de 40 e 60 do século passado.
A história dos ciclones em Cuba começa com a descrição destas fortes tormentas por Cristóvão Colombo em sua primeira viagem e o relato escrito nas Actas capitulares de Havana dos danos causados pelo furacão de 1557. Relaciona a Tormenta de San Juan de Dios, em 1784, que trouxe uma grande chuva de granizo a Cuba, o furacão de 1810, conhecido como Escarcha Salitrosa, por suas chuvas excessivamente salgadas, até a Tormenta de San Francisco de Borja, de 1846, como a mais forte que passou pela Ilha.
Conforme o especialista ouvido por Adelfa, no clima de Cuba, estão acontecendo variações desde a década de 70, nas temperaturas, no regime de precipitações e agora nos furacões.
Defesa contra furacões

Até o momento têm fracassado todas as armas que os cientistas tentaram para debilitar os ciclones, cujo poderio chega a igualar a explosão de uma bomba nuclear de 10 megatons a cada 20 minutos, mas as pesquisas prosseguem, e em cinco anos podem surgir novidades importantes.
As armas contra esses fenômenos incluem o uso de um líquido para evitar a evaporação da água marinha que os alimenta, a liberação de fuligem em seu entorno e o uso de yodeto de prata, que é o único procedimento aprovado em um cenário real.
“Há ceticismo sobre a possibilidade de controlar efetivamente os ciclones, mas em cinco anos mais poderemos saber se se trata de um ceticismo fundamentado”, disse a Tierramérica o especialista em furacões Ricardo Prieto, do Instituto Mexicano de Tecnologia da Água.
No campo teórico e em experimentos de laboratório se trabalha em “microfísica de nuvens”, um campo onde pode surgir antes de 2010 alguma chave importante sobre a manipulação de ciclones, explicou.
Enquanto essas pesquisas continuam, há outras do governo estado-unidense que incluem observações e medições in situ de ciclones com aviões militares e satélites, para definir o comportamento desses fenômenos.
Graças ao avanço científico, nos últimos 30 anos houve um grande salto na pesquisa sobre tormentas tropicais e ciclones, que inclui a possibilidade de alertas precisos sobre sua formação. Entretanto, até agora não há como manipular-los.
As tormentas tropicais e seu parente mais forte, o ciclone, se formam quando aumenta a temperatura dos oceanos localizados em latitudes próximas aos trópicos, como sucede na região americana, de maio a novembro.
No ciclone há uma convergência de ventos e nuvens de diferentes temperaturas que giram a grande velocidade devido à própria rotação da Terra. Seus movimentos, com padrões quase sempre cambiantes, provocam rajadas de vento e tormentas com grande capacidade destrutiva.
Nos anos 60, a Administração Nacional do Oceano e a Atmosfera tratou de debilitar os ciclones “injetando” desde iodeto de prata, o que teoricamente deveria provocar a condensação da umidade dentro de eles e acelerar seu ciclo de vida, que pode durar em condições normais até duas semanas – e declínio. Mas os resultados não foram satisfatórios.
Outro procedimento de neutralização, desenvolvido em âmbito experimental, sugere a criação de um líquido que evite a evaporação de água dos oceanos onde se formam os ciclones, mas também fracassou.
“Enquanto não existir uma arma contra os ciclones, o único que se pede fazer é seguir coexistindo com eles, enquanto nos damos conta de que parece aumentar sua freqüência, pois só no Caribe seu número já está acima da média”, disse à Tierramérica Ricardo Sánchez, diretor para América Latina e Caribe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Alguns cientistas pensam que isso se deve ao aquecimento do planeta, fenômeno atribuído em grande medida à queima de combustíveis fósseis. Mas não há consenso na matéria. Segundo Sánchez, por hora o importante é trabalhr para reverter o nível de vulnerabilidade, que se mantém alto devido à degradação de solos, o desmatamento, a urbanização acelerada e a pobreza.
Prejuízos
Saldo perverso: mortes e destruição
Com um ambiente deteriorado e milhões de residentes em zonas inadequadas, os fenômenos naturais multiplicam sua capacidade de destruição, tal como aconteceu, por exemplo, em 1988 com o furacão Mitch, que causou quase 10.000 mortes e danos materiais por mais de 6 bilhões de dólares.
De 1970 a 2001, os desastres naturais provocaram na América Latina e Caribe 246.569 mortes, além de prejuízos a outras 144 milhões de pessoas e causar danos econômicos superiores 68, 6 bilhões de dólares.
Cuba conseguiu evacuar nos últimos dias quase 2 milhões de pessoas para protegê-las do furacão Iván, um dos seis mais devastadores desde 1974. México, Jamaica e outros países fizeram esforços similares, mas a capacidade destrutiva do fenômeno foi tal que em sua passagem deixou mais de 60 mortos.Para a escala das economias do Caribe e América Central, ciclones na escala do Iván causam danos enormes.
Por exemplo, na pequena Granada, que tem pouco mais de 100.000 habitantes, esse furacão destruiu quase 90% das edificações, superando em muito a capacidade de resposta do governo e da sociedade organizada.
Segundo especialistas, a passagem pela América Central do furacão Mitch, no final dos anos 90, causou um atraso de 10 anos no desenvolvimento econômico dessa região. Sánchez defende que a comunidade internacional deveria formar um “fundo mundial de estabilização” para ajudar aos países que sofrem com desastres naturais como ciclones, terremotos, secas e inundações.
Entretanto, destaca o funcionário, “a própria região também tem que investir mais em prevenção e em recuperação de seu deteriorado ambiente”.
Dos empréstimos e doações que chegam à América Latina e Caribe para enfrentar desastres naturais, 90% se destinam a tarefas de auxílio e reconstrução, e só 10% para a prevenção.
Fonte: PNUMA

Protocolo aprovado
Protocolo agora será para valer
O governo russo aprovou nesta quinta-feira, 30, a ratificação do Protocolo de Quioto. O documento ambiental de 1997, que visa reduzir as emissões de gases tóxicos que produzem o efeito-estufa, será agora apresentado pelo governo ao Parlamento, que conta com o apoio do presidente Wladimir Putim, aumentando a viabilidade de sua aprovação. Para entrar em vigor, o documento precisa ser ratificado por pelo menos 55 países responsáveis por 55% das emissões globais de poluentes segundo dados de 1990.
De acordo com o advogado ambientalista Antonio Fernando Pinheiro Pedro, sócio-diretor do escritório Pinheiro Pedro Advogados, a decisão da Rússia deverá precipitar uma série de ações referentes ao Protocolo de Quioto no Brasil e no mundo. Pinheiro Pedro destacou que o Brasil precisa agora apressar a discussão da Política Nacional de Mudanças Climáticas, recentemente apresentada na Câmara dos Deputados pelo deputado mineiro Ronaldo Vasconcellos (PTB/MG), e passar a adotar políticas públicas de apoio ao Protocolo, com o objetivo de facilitar os projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e também de estabelecer critérios para a contribuição brasileira na redução dos gases de efeito-estufa.
Pinheiro Pedro destacou que, nesse momento, o governo brasileiro deveria priorizar as seguintes questões: acompanhamento da Política Nacional de Mudanças Climáticas; adoção de mecanismo para a introdução do biodiesel na composição dos combustíveis; introdução no Brasil dos biocombustíveis; e planejamento da participação na COP10 – Conferência das Partes, que acontecerá no final do ano, na Argentina, onde deverão ser reforçada as políticas florestais que podem beneficiar o Brasil.
Veja mais informações no arquivo abaixo
A ciência da mudança climática

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