Thiago Rometo – Agência FAPESP
Da vegetação original da Mata Atlântica, que ocupava uma área de 1.360.000 km² (ou 15% do território nacional), restam hoje apenas 7%, o que a coloca na posição de uma das florestas tropicais mais devastadas – e ameaçadas – do mundo, perdendo apenas para as florestas da ilha de Madagascar, na África.
Com base nesses dados alarmantes, foi lançado no Senado Federal, em Brasília, nesta quarta-feira (26/5), o Atlas dos Municípios da Mata Atlântica, que contém um ranking das regiões brasileiras que mais preservaram a vegetação nativa, com base no Índice de Preservação da Mata Atlântica (IPMA). A publicação mostra que, só na década de 1990, foram desmatados cerca de 900 mil hectares da floresta.
“O Brasil chega a perder o equivalente a um campo de futebol a cada quatro minutos”, disse um dos responsáveis pela obra, Mário Mantovani, diretor de relações institucionais da Fundação SOS Mata Atlântica, em entrevista coletiva. “A perda de florestas compromete a água, a biodiversidade, o clima, a fertilidade do solo e a qualidade de vida de milhões de pessoas.”
Entre as principais causas do desmatamento no Brasil, segundo Flávio Jorge Ponzoni, coordenador técnico do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), estariam a especulação imobiliária, a ampliação das fronteiras agrícolas e o assentamento rural.
A idéia com o trabalho é mostrar ao público em geral a gravidade em que se encontram os remanescentes florestais das cidades, além de chamar a atenção dos senadores para o projeto da Lei de Uso e Conservação da Mata Atlântica, que aguarda aprovação no Senado Federal.
O Atlas dos Municípios da Mata Atlântica foi elaborado a partir da interpretação de imagens provenientes dos satélites Landsat TM/ETM, além do aplicativo Spring, desenvolvido pelo Inpe, utilizado para interpretar as 115 cenas que cobrem a área total do mapeamento.
“Até o momento, utilizamos somente os percentuais de cobertura de remanescentes florestais sobre o território dos municípios estudados, mas nos próximos meses estaremos disponibilizando o índice de qualidade da Mata Atlântica, que incluirá dados socioeconômicos e de biodiversidade”, explicou Ponzoni.
Salve o Rio Piraju
Recuperar nascentes e córregos urbanos e evitar que a poluição chegue ao rio é a proposta do projeto apresentado pelo vereador José Alberto Pinheiro Vieira, presidente da Câmara de Vereadores de São Luis Gonzaga (RS) no III Simpósio Internacional de Qualidade Ambiental. Ele defende um trabalho permanente preservação das 26 nascentes de arroios contribuintes do Rio Piraju, principal manancial de abastecimento da cidade.
Na sua justificativa o vereador ambientalista diz que “partindo do problema histórico de utilizar as veias de cursos pluviais da cidade para ligações de esgoto doméstico, com resíduos humanos, chegamos hoje ao ponto máximo e insuportável de poluição de nossas nascentes urbanas e seus cursos naturais. Considerando ser o processo de intervenção de alto custo apresentamos esta proposta de uma intervenção “doméstica” e comunitária, com elaboração de um grande mutirão de parceria e responsabilidade, fazendo de nossas ações um exemplo de amor à vida”, defende José Vieira.
A idéia é reduzir o índice de esgoto humano que chega ao Rio Piraju e recuperar nascentes e córregos urbanos, que hoje estão totalmente comprometidos e poluídos. Em uma primeira etapa está sendo feito o levantamento de dados com a identificação de todas as nascente, seguindo-se um trabalho de parceria para conter a contaminação dos córregos a céu aberto, com lixo doméstico. A longo prazo a sugestão é colocação de fossa séptica, plantas aquáticas, cobertura vegetal das margens dos córregos e projetos adequados a cada realidade.
Ele conta que o trabalho desenvolveu-se no perímetro urbano da cidade, onde foram encontradas 26 nascentes que formam os córregos que conduzem as águas que vão formar os banhados do “Poço Correio” e do “Barrigudo”, subsidiários importantes da formação do Rio Piraju. As águas apresentaram problemas com intervenção de esgotos domésticos desde as nascentes recebendo uma carga maior de poluição por todo o percurso, o que motivou a orientação de manter a proposta de intervenção, numa parceria com os moradores de aproximadamente 75% da população da cidade, 40% a mais do que a proposta inicial, pois a previsão era de que encontraríamos nascentes na metade do perímetro urbano e em número bem abaixo do encontrado.
As dez mais
O atlas foi lançado em homenagem ao Dia da Mata Atlântica, comemorado em 27 de maio. Trata-se de uma parceria entre o Inpe e a Fundação SOS Mata Atlântica, que permite a visualização de 2.815 municípios brasileiros, mostrando dados estatísticos de 10 Estados abrangidos pelo bioma: Bahia, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
De acordo com o estudo, entre as capitais que apresentam a maior área de remanescentes florestais, Florianópolis ocupa o primeiro lugar, com 18.032 hectares ou 42% de áreas preservadas, seguido de São Paulo com 21% e Vitória com 20%. A capital com pior desempenho é Belo Horizonte, que apresenta somente 3% de áreas que existia originalmente.
Cidades brasileiras que mais preservaram a Mata Atlântica:
1º – Ilhabela (SP): 92% de área preservada.
2º – Barro Preto (BA): 90%.
3º – Riozinho (RS): 90%.
4º – Ubatuba (SP): 89%.
5º – Iporanga (SP): 88%.
6º – Uruçuca (BA): 88%.
7º – Morretes (PR): 88%.
8º – Antonia (PR): 87%.
9º – Tapiraí (SP): 87%.
10º – Pedro de Toledo (SP): 84%.
As informações detalhadas estarão disponíveis a partir do dia 27 de maio, nos endereços www.sosmataatlantica.org.br e www.inpe.br.
Esgoto a céu aberto
Outro fator relevante foi o número de esgoto a céu aberto, o que corresponde a 70% do percurso das águas correntes em valos, próximos as residências, muitas vezes recebendo esgoto sem mesmo passar por fossa séptica ou qualquer outro tipo de tratamento. Segundo ele “os moradores ribeirinhos desconhecem problemas maiores, reclamam apenas do mau cheiro e entendem que a solução é apenas de canalização, ou seja, esconder o problema é uma iniciativa fundamental para os vizinhos do esgoto, não importa o que este “lodo” vai causar mais adiante, como é o caso de banhados, riachos e finalmente os rios que receberão esta carga de dejetos humanos”.
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