Enchentes e seca: a culpa é da água?

Cecy Oliveira.

Enquanto os paulistas olham para o céu em busca de nuvens que possam gerar chuva e regar seus campos e encher seus açudes e mananciais, outros clamam por sol, buscam culpados pelas casas inundaas, móveis e utensílios perdidos, rotinas alteradas. Municípios culpam os Governos dos Estados pelo excesso ou falta de chuva. As pessoas se perguntam se deu a louca no tempo. Os meteorologistas tentam dar tom de normalidade aos fenômenos explicando que La Niña ou El Niño são assim mesmo.

O único ingrediente que está sempre ausente em todas as análises sobre secas e enchentes é a falta de visão histórica sobre como foi que as cidades cresceram ignorando completamente a geografia. Várzeas e áreas de inundação dos rios que corriam mansamente foram substituídas por cidades que são verdadeiras “fábricas” de esgoto, lixo e poluição de todos os tipos e tamanhos e asfalto por todos os lados.

Quando a chuva vem não tem por onde escoar e os riachos aprisionados lançam seu grito de guerra. Não bastasse a força da água lá vem lixo e entulho largados impunemente nas ruas e nas praças. Esta mesma ocupação caótica e sem respeito aos limites da natureza contribui para as baixas vazões em épocas de estiagem. Os banhados que são as reservas naturais para realimentar os rios praticamente desapareceram do cenário do Rio Grande do Sul.

E assim vai o Estado exaurindo suas forças em secas e inundações. Será que tem remédio? Há como minimizar os efeitos de ciclos climáticos que são regidos por forças além do nosso alcance?

Desde 1994 o Rio Grande do Sul tem uma legislação exemplar para a área de recursos hídricos. A cada governante que assume renasce a esperança. Novas secretarias são criadas e outras extintas. Mas ninguém parece lembrar que depois de 20 anos de vigência da Lei 10.350 não tivemos tempo de completar a estrutura de gestão prevista em seu artigo 20.

Ao longo destes anos tem faltado coragem aos governantes, deputados e à própria sociedade para enfim darem o passo que falta para que sejam criadas as agências de região hidrográfica. Elas são essenciais para os planos de recuperação de grandes mananciais, como o Guaíba, o Sinos, o Gravataí, o Santa Maria. Daqui a pouco não haverá mais chances para eles e a cada verão mais quente e inverno mais chuvoso outro naco deste antigo celeiro do Brasil vai se esvair pelas rachaduras da terra seca ou ser levado pelas enxurradas. Até que aprendamos a dar à água o respeito que ela merece.

Gestão responsável é a solução

Para este ano a ONU escolheu o tema da água e o desenvolvimento para chamar a atenção de povos e governantes no dia 22 de março. O que se espera é que aqui no Rio Grande do Sul o próximo Dia Mundial da Água possa ser comemorado com marcos decisivos para a retomada da caminhada em direção a uma verdadeira e eficiente gestão de nossas águas.

A gestão dos recursos hídricos é hoje uma ferramenta essencial para manejar bacias hidrográficas muitas vezes compartilhadas por diferentes povos.

São excelentes exemplos a gestão das bacias do Rio Nilo, na África, da qual participam dez países, ou a do Rio Danúbio, na Comunidade Europeia, com 17 nações interessadas.

Recuperar, preservar, compartilhar e administrar em conjunto esse patrimônio são lições que ainda não aprendemos.

Estão aí os números vergonhosos de nossa falta de infraestrutura de saneamento para mostrar que continuamos de costas para nossos rios.

Autora

Cecy Oliveira é jornalista e editora da Aguaonline.

Leave a Reply

Your email address will not be published.