E se tivéssemos que inventar a drenagem urbana?

Luis Martín Martínez.

Imaginem que não tivéssemos nenhuma ideia pré-concebida sobre onde situar as ruas ou os jardins em um ambiente urbano, como deve escoar a água, imaginem que nunca tivéssemos visto um meio fio, um bueiro ou um emissário?

Qual seria o primeiro passo?

Este seria tentar “copiar” a própria natureza, que leva milhões de anos fazendo da mesma maneira e não os sistemas de outras cidades (isso é o que se deve evitar).

Observamos a natureza e vemos que a água tende a se concentrar e escorrer pelas zonas mais baixas (por efeito da gravidade). E que nestas zonas há uma maior densidade de vegetação, são os denominados rios e suas margens repletas de vida. Entretanto, nas zonas mais altas, de onde a água tende a drenar para zonas mais baixas, a presença de vegetação é menor.

A conclusão é que a situação na natureza, de maneira simplificada, é mais ou menos como mostrado na primeira parte do foto que ilustra esta página.

Então, para fixar conceitos básicos:

• Zonas baixas = mais água = mais vegetação

• Zonas elevadas = menos água = menos vegetação.

Então se para efeito de comparação olhássemos como é drenagem urbana em uma cidade esperaríamos encontrar a mesma lógica.

Mas essa é a lógica da natureza e o que parece é que não se aplica ao ambiente urbano, que tem suas próprias regras. Será por isso que não fazemos diferente da natureza, mas totalmente ao contrário?

Vejam como é a estrutura de uma rua qualquer na segunda parte da foto:

As zonas de vegetação, sempre situadas no alto (seja de um metro ou de 10 cm) drenam para as zonas mais baixas (a gravidade segue fazendo sua parte) onde não há vegetação, somente meio fio, asfalto, carros e sujeira.

Tiramos a água da vegetação para poder sujá-la, acumulá-la em coletores impermeáveis (a maioria das vezes mesclada com esgoto cloacal), transportá-la até uma estação depuradora (se existir e tiver suficiente capacidade para esse evento de chuva), depurá-la e devolvê-la à natureza, ou na melhor das hipóteses regar com ela a vegetação de onde a tiramos.

Todo muito lógico!!!

Isto não significa que devamos plantar árvores no meio da rua ma mudar nossa maneira de abordar a drenagem urbana, pensar de outra maneira. Uma drenagem mais inteligente que nos permita aliar as necessidades da drenagem em um entorno urbano sem esquecer que seguimos estando na natureza, a água interconecta tudo.

Um exemplo simples disto podemos encontrar em qualquer rua de uma cidade, em que o jardim ou rotatória se encontram em planos mais elevados do que o meio fio, sem possibilidade de aproveitar a água que cai, ou diretamente o meio fio drena para a calçada em vez de drenar para o jardim.

Uma vez tendo claros os conceitos básicos a todos podem ocorrer ideias para projetá-los de outra maneira, a chave está em querer “usar um pouco a cabeça”, coisa pouco habitual.

Esta filosofia é a que aplicam os chamados SUDS (Sistemas Urbanos de Drenagem Sustentável) e cuja aspiração máxima é conseguir que a drenagem urbana possa imitar da melhor maneira possível o ciclo natural da água, que havia antes da urbanização.

Ou melhor: que a natureza “note” o menos possível nossa presença.

Jardins de chuva

Alguns exemplos deste tipo de drenagem já construído, similar ao exemplo da rotatória, podem ser vistos nesta foto:

Estes “jardins de chuva” ou “áreas de biorretenção”, além de aproveitar melhor a água da chuva, conseguem infiltrar grande parte do caudal, diminuindo a pressão sobre as redes de drenagem.

Também têm a capacidade de depurar os contaminantes arrastados pela chuva a passar pelas ruas e bueiros.

Existem muitas tipologias de SUDS: áreas de biorretenção, depósitos de infiltração, poços de infiltração, zonas úmidas, tetos verdes, etc. Mas o importante é a filosofia que há por trás de tudo isto, uma drenagem mais natural e bastante mais inteligente.

Como melhorar as rotatórias

Modificações rápidas, seguindo a lógica natural, consistiriam nestas:

• Mudar a inclinação da rotatória para o interior, coisa que além disso é benéfica para os carros.

• Construir o jardim com sua parte central mais deprimida para obter um volume de armazenamento.

• Rodeá-la com uma borda com aberturas que permitam a entrada da água caída na rotatória.

• Instalar um deságue para a rede pluvial como vertedouro que evite que a água supere um certo nível e invada a rotatória.

Autor

Luis Martín Martínez é diretor do blog Hidrologia Sustentável e consultor de engenharia para uso sustentável da água em todos os tipos de projetos.

www.iagua.es/blogs/luis-martin-martinez

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